30.10.05

A última aula



(A voz é opcional. Só o professor ouve e reage a ela. Ninguém mais ouve, nem quem assiste.)

(VOZ – Por que você não presta atenção ao que estou dizendo?)

PROFESSOR – Estou dando aula, você não está vendo?

(VOZ – Eu sou o vazio que está dentro de você. Eu sei tudo, sei o que você vai querer. Eu sou o seu querer.)

ALUNA – Professor, eu não entendi nada. Para que serve esse troço?

PROFESSOR – Você tem que mandar a cabeça separada do corpo, e no destino, os dois se encontrarão.

ALUNO – Para que diabos serve isto? Nós não estamos na Lua. Isto não vai voar, tampouco vai girar.

PROFESSOR – Girar vai. Leia direito a questão.

(VOZ – Preste atenção e me ouça.)

PROFESSOR – Me deixe em paz, por favor, já me bastam os alunos.

ALUNA – O que você disse, professor?

PROFESSOR – Nada, eu estava falando com o nada.

(VOZ – Eu sou o nada, mas se eu morrer, você será o nada. Eu sou você, eu sou seu vazio, mas eu estou fora, e vejo tudo. Eu sou sua existência.)

PROFESSOR – Olhe pessoal, estas duas têm que girar. Vocês têm que recortar igual. As setas precisam apontar para fora.

ALUNA – Professor, e o terceiro?

PROFESSOR – Eu já disse. A cabeça...

ALUNA – Eu sei, mas não consigo. Não é para aparecer em cima do sexo?

PROFESSOR – Não era para ter sexo, como você conseguiu isto?

ALUNO – Ela só pensa em sexo.

PROFESSOR – Você trocou os exercícios. Era para usar apenas os que eu indiquei.

(VOZ – Escute aqui, professor, você vai morrer hoje.)

PROFESSOR – Eu devia ter tomado os remédios...

(VOZ – Eu quero que você saiba. Vai estourar uma artéria no seu cérebro, à noite, no meio da peça, e você vai morrer.)

PROFESSOR – Tudo bem, eu não vou para peça alguma.

ALUNA – Professor, você vai ver minha peça?

PROFESSOR – Quando é?

ALUNA – Hoje a noite. É de graça.

PROFESSOR – Bem... eu não sei...

ALUNA – Ah, professor... o que você vai fazer hoje a noite? É curtinha. Pôxa... todo mundo vai.

PROFESSOR – Vou pensar.

ALUNO – Olhe aqui, eu não consegui fazer. Esse exercício não tem pé nem cabeça. Quem elaborou essa merda?

PROFESSOR – Venha cá por favor.

ALUNO – Como?

PROFESSOR – Venha cá! Vou lhe explicar.

ALUNO – Tudo bem.

PROFESSOR – Eu vou falar baixo e você vai me entender. Essa merda foi criada no início dos tempos. Foi criada por ele. E eu, sou o filho da mãe que achou que valia a pena ensinar como funciona, entendeu? Se você não quiser aprender, não tem problema. Faça do jeito que você quiser, mas eu vou logo avisando que a lei da gravidade provavelmente está certa.

ALUNO – Cara grosso.

PROFESSOR – Vá com calma.

ALUNO – Grosso! Quem contratou esse cara?

PROFESSOR – Pronto, começou!

(VOZ – Já começou há séculos e você não percebeu, mas hoje é seu último dia, então curta sua existência breve.)

PROFESSOR – Me deixe em paz! Droga!... Já me bastam os alunos!

ALUNA – Professor, você está bem?

PROFESSOR – Sim, desculpe.

ALUNA – Com quem você está falando, professor?

ALUNO – Ele é louco. Ouve vozes e fala sozinho.

ALUNO – É um grosso. Eu não sei fazer esse troço. Mandei duas cabeças e não chegou nenhum corpo.

ALUNA – Professor, está girando! Ih... está caindo... apagou.

(VOZ – Você vai me ouvir agora. Eu preciso que você tome uma decisão. É para o nosso bem. Você precisa sobreviver... )

PROFESSOR – Como assim... eu não ia morrer? O que foi, mudou de idéia?

ALUNA – Quem vai morrer professor?

(VOZ – Não sou eu quem decide. É você. Morrer é uma escolha. Você pode escolher outro caminho. Se você não me ouvir, você vai morrer... )

ALUNO – Professor! Não está funcionando. As letras estão sumindo. Vou embora.

ALUNO – Ele é uma cópia; só pode ser. Um clone.

PROFESSOR – Ninguém vai embora. Ainda faltam vinte minutos.

(VOZ – Daqui a alguns minutos você não terá mais volta. As letras vão acabar.)

PROFESSOR – Me deixe em paz, por favor.

ALUNO – Ele está falando sozinho.

ALUNA – Acho melhor irmos embora.

PROFESSOR – Ninguém sai! Volte para o seu lugar, agora! E você, sente-se! Agora!

ALUNA – Nossa... o que deu nele?

PROFESSOR – Cale a boca!

ALUNO – Está tremendo... acho que vai surtar.

(VOZ – Agora feche a porta e desligue a luz.)

PROFESSOR – Eu não vou fazer isto. Você não existe. Me deixe.

(VOZ – Então faça como quiser. Termine a aula, vá para casa e morra na peça.)

PROFESSOR – Eu não vou para essa maldita peça!

ALUNA – Ai... desculpa, se soubesse não teria convidado, desculpa, não precisa ir.

PROFESSOR – Desculpe, eu não estava falando com você.

ALUNO – Ô... professor! Tudo bem que você tenha seus problemas, mas nós não temos nada a ver com isto. Se você não se sente bem, termine a aula e continuamos depois. O que vocês acham?

ALUNO – É, acho que é o melhor. O despertador parou de girar.

ALUNO – Então vamos.

ALUNA – Sim.

PROFESSOR – Não! Ninguém vai sair daqui!

ALUNA – Ai... estou com medo.

ALUNO – Quem é esse cara? Eu vou sair e quero ver alguém me impedir. Sai do meio. Eu quero passar... Que é isso, meu?... Você é louco? Calma aí... eu volto, calma...

ALUNA – Ai... ai...

ALUNO – Ele surtou. É um psicopata. Vamos embora que o relógio parou.

ALUNA – Ele vai nos matar.

PROFESSOR – Silêncio! Eu não vou matar ninguém. Ainda faltam dez minutos para terminar. Nós vamos ficar aqui, em silêncio até passar esses dez minutos, certo? Eu vou apagar a luz. Não quero ouvir um pio. Quando terminar, eu abro os olhos e vocês poderão acordar.

ALUNA – Ai... tenho medo do escuro.

PROFESSOR – Silêncio! E você fique sentado. Vou ficar na porta. Se alguém tentar passar, não vai conseguir.

ALUNO – Você vai me matar?

PROFESSOR – Eu não vou deixar você passar.

ALUNO – Então vai me matar.

PROFESSOR – Interprete como quiser. Se ficar onde está nada vai acontecer. Acalme-se e durma.

ALUNO – Eu vou denunciar você ao conselho acadêmico, à polícia. Você é louco! Tem que ser internado. É um risco à sociedade. Você vai ser preso.

PROFESSOR – Silêncio!

ALUNO – Louco!

PROFESSOR – Cale a boca e fique onde está, em silêncio.

(Escuro.)

(VOZ – Está na hora.)

PROFESSOR – Eu sei.

(VOZ – Mas o que você está esperando? O despertador não vai tocar.)

PROFESSOR – Não consigo acordar.... abri os olhos e estou cego.

(VOZ – Os alunos estão saindo. Não deixe. Mate-os.)

ALUNOS – Mate-nos, professor.

PROFESSOR – O que está acontecendo? Por que estão saindo? Eu não estou vendo nada. Tirem-me daqui... Estou ficando tonto.

ALUNOS – Acorde, professor.

PROFESSOR – Minha cabeça! Devolva minha cabeça!

ALUNA – É para colocar em cima do sexo, professor?

ALUNO – Não, sua boba, é para fazer girar. Girar, entendeu?

PROFESSOR – Está girando. Está tudo girando.

ALUNA – Fique calmo. É só uma peça. Vai acabar logo, logo.

ALUNO – Você não recortou direito, foi isso. Duas cabeças com setas apontando para dentro. Nenhum corpo... tsc, tsc.

PROFESSOR – Minha cabeça vai explodir... que dor... Estou caindo.

ALUNO – A lei da gravidade provavelmente está certa. Você errou, professor.

ALUNA – Você fez o exercício errado, professor. As setas deviam ficar para fora.

ALUNA – Era uma peça tão curta, tão curtinha...

PROFESSOR – Quero acordar... me tirem daqui. Me ajudem, por favor.

ALUNA – Não há mais sonhos, professor. Parou de girar faz dez minutos.

PROFESSOR – Não estou vendo nada... não quero mais brincar.

ALUNA – Nunca ouve olhos. As setas, lembra? Tinha que ser para fora! Para fora!

ALUNA – A peça já terminou... não há mais nada para ver. Não há cabeça.

PROFESSOR – Então acorde-me, por favor... Não me deixe... Volte!... Para onde foram todos? Onde estou? Liberte-me, por favor... Me tirem daqui... agora!

ALUNO – As letras estão acabando.

PROFESSOR – Não me sinto, não me penso, não existo... Tenho que acordar... Onde está meu corpo?... não sinto minha mente. Quero sentir... pelo menos a dor! Me cortem!...

ALUNA – Acabou.

PROFESSOR – Eu quero acordar! Aaaaargh! Eu quero acordar! Eu quero existir!...

(Asfixia sem voz. Silêncio.)

14.10.05

O poço sem fundo



Personagens:
MIX - o caos ou a loucura criadora.
MAX - o supremo ou a natureza.
NUX - o povo ou a ignorância.
NOX - a noite ou a crítica realista.
LUX - a luz ou a curiosidade sonhadora.
LEX - a lei ou os costumes.
REX - o rei ou o governo.
ROX - o rebelde ou a alienação.
SAX - o sacerdote ou a igreja.
SEX - o libertino ou o instinto.

(Os dez estão perdidos em lugar e tempo indefinidos.)

MIX – Vamos recomeçar.

LUX – Ainda não é o fim... há muito mais. Vamos procurar.

SAX – É pecado.

LEX – É proibido.

SEX – Que tesão...

ROX – Que viagem...

NOX – É o fim do mundo...

REX – Só prossiga se eu autorizar...

MAX – O fim é sempre o começo. Deixe viver!

NUX – Eu quero mais.

MIX – Atrás de você tem elefantes e moscas.

LUX – Nunca vamos começar, se o caos continuar.

MIX – Eu não tenho nada a ver com isto.

SAX – Tem que haver ordem. Ordem!

LEX – Concordo.

REX – Mas eu preciso aprovar antes que seja liberado.

MAX – Vamos jogar de novo. É muito divertido esse mundo!

ROX – Tem que liberar geral... loucura total... vamos detonar galera!

SEX – É isso aí... eu quero mais... mais!

NOX – Tem que ser mais escuro... tá muito arrumado, muito claro, muito igual.

ROX – É... tem que deixar rolar... pirar... enlouquecer.

NUX – Já sei... vou me foder de novo. Vocês sempre fodem comigo.

SAX – Não está certo... não tem nada aí. Se não está escrito então não é verdade.

LUX – Talvez seja um caminho para revelar o desconhecido.

REX – Vocês precisam me mostrar isto antes. Eu conheço o mundo inteiro. Eu estou aqui para isto.

MAX – Menos, menos... você é apenas mais um. Deixe os outros brincarem também.

SAX – Se tudo for permitido, vamos nos corromper e nossa sociedade vai entrar em colapso.

MAX – Não vai não.

SAX – Isto é um grave pecado aos olhos Dele.

MAX – Não... eu não sou tão cruel assim.

SAX – É o diabo!

NOX – O diabo é legal.

MAX – É um rival, nada mais.

NOX – Os demônios tocam um rock do caramba... marginal!

ROX – É... é do caralho!

NOX – É o satanás, é o Lucifér.

LUX – Não confunda as coisas. A luz é boa.

SEX – É a luxúria, é a tentação! Yes!

LUX – Não é a mesma coisa. A curiosidade é boa.

NOX – Esqueça! É tudo igual.

LUX – Duvide! Nem tudo é mau.

SAX – Creia! Não se desvie do caminho.

NUX – No meio do caminho, eu me perdi numa selva. Era escura.

NOX – Eu conheço essa história, mas prefiro a Teogonia.

SEX – Poderíamos juntar todo mundo numa grande orgia... que tal?

LEX – Desde que esteja dentro da lei... apresente um projeto.

SAX – É um pecado...

ROX – Foda-se o pecado.

NOX – O pecado... o beijo da morte... é linda a morte, não é?

NUX – Assim não quero... eu quero bolo... eu quero.

MIX – Bolo é música, chuva é argumento. Você não deseja árvores?

NUX – Por que?

MIX – Porque elas descem como serpentes, e sobem como correntes.

NUX – Eu gostei. Por que você não solta tudo.

MIX – Os nomes não batem, e as palavras são ocas. Tem muita letra sobrando.

NUX – Tem que deixar falar... Não pare.

MIX – Vou ter que esperar, puxaram a corda, o controle se fez...

LEX – Fiz sim. Não se pode corromper a idéia. O texto é sagrado, a lei é clara.

SAX – Está errada. Ela permite muito. Precisa ser mais rígida.

LEX – É flexível, porque eles mudam... a lei é de todos.

SAX – Não deviam permitir que mude. Ela é uma só. É eterna. É de Deus.

MAX – Podem ficar com ela se quiserem.

SAX – Esta é a verdadeira lei, a lei Dele.

MAX – Não é minha não... Já te falei... Se você não fosse tão surdo...

SAX – Eu falo com Ele todos os dias.

MAX – Fala, mas não me entende... Muito menos me ouve.

LEX – A lei não é dele, é de todos nós.

ROX – É isso aí... a lei é foda... a lei é muito foda.

SEX – Foda? Eu quero. Onde foram todos? Ninguém quer?

ROX – A lei é uma merda... foda-se a lei!

SEX – Alguém tá a fim? Tô suando... Quem tá dentro?

ROX – Eu tô dentro... eu tô fora, mas depois tô dentro de novo.

SEX – Legal... você espera e eu entro, que tal?

ROX – Sei não maluco, sei não... faz do outro jeito, vai.

MIX – Mistura tudo, troca os pares, os nomes, os dedos, o sexo e os crucifixos.

REX – O que está havendo? Eu não disse que não começassem sem mim?

SEX – Fudeu, majestade, fudeu... Não deu pra segurar. Vai ter que esperar...

REX – Que insubordinação... onde é que eu entro?

SEX – Não entra, não entra... nós entramos. Abaixe-se, ó majestade!

REX – Onde está a rainha?

SEX – Às suas ordens... mas antes vamos começar com a República, pois o Senado está esperando desde ontem.

REX – E o povo. Cadê o povo.

NUX – Dá um tempo, majestade, não tenho mais o que dar.

LUX – Não enxergam. São mais cegos que eu imaginei que fossem.

NOX – No fim, acordarão, mas será noite.

LUX – Sempre no escuro. É tudo opaco, oculto. Nada é transparente.

NOX – Luz demais cega... é pior que escuro, é permanente.

LUX – Só porque aceitam com olhos fechados. É só cara. É só fachada. A palavra é falsa. Tudo fazem às escondidas.

NOX – Não faz diferença... a morte é a meta final. Todos irão alcançá-la.

LUX – Mas o espaço é vasto!... Deveria ser usado. É um desperdício.

NOX – A morte é a razão de tudo. Resolve todos os enigmas, apara todas as desigualdades.

LUX – Mas e o tempo que corre?... Deveria ser apreciado. É uma pena.

NOX – O que é a vida?

LUX – É o único caminho para a morte.

MAX – Não permite bagagem. Aproveite e curta a paisagem.

REX – Mas é preciso planejar direito, ou você vai se arrepender. Fale sempre comigo antes. Não é tão fácil viver.

MAX – Não existe segredo. É só não ter medo. Sonhos são possíveis. Não pergunte a eles, pergunte a si mesmo.

REX – É preciso tomar decisões, assumir compromissos.

SEX – Nada de compromisso. Eu não tô afim.

LEX – Seguir os costumes, as convenções.

ROX – Que nada! Fodam-se as convenções.

LEX – Sem elas o mundo seria anarquia. Um caos!

MIX – O caos é o princípio de tudo. Eu sou caos, tu és caos, Ele é caos.

MAX – O caos é bom. Mas é melhor acompanhado.

LEX – Sem a lei nada se preserva.

SAX – É preciso manter as tradições, a família, as propriedades, religiões.

LEX – Não foi isto que eu disse.

SAX – Eu sei... sua lei é secular.

LEX – É preciso para haver harmonia, para que haja paz entre os povos.

ROX – Foda-se a harmonia. O mundo é guerra, os humanos matam, morrem.

NUX – A guerra é uma merda.

ROX – É uma merda. Tudo é uma merda.

NUX – Você é uma merda.

ROX – Vá tomar no cu!

SAX – Ó boca suja... o mundo está perdido.

ROX – Vá tomar no cu você também!

SAX – As leis foram feitas por vocês, pecadores, por isto não funcionam.

LEX – Mas ninguém conhece as leis divinas. São inalcançáveis aos mortais.

SAX – Está escrito... Elas foram reveladas.

LEX – Mas não é você a revelação, tampouco esse livro antigo. A revelação está na luz, na noite, na natureza.

MAX – É verdade.

LUX – É só procurar. Não acredite em quem diz ter a verdade.

NUX – É tudo um bando de mentiroso.

LEX – É preciso que haja um juiz imparcial.

NUX – Todo juiz é ladrão. Eu vi quando ele roubou o pênalti!

LUX – É preciso buscar a luz na ciência para deixar de ser sombra.

NOX – Mas é preciso ter sombra. A sombra é a diferença. O poder cega, mesmo com ciência, e cria leis onde não há.

LEX – Não lembro dessas leis.

LUX – A lei da gravidade.

NOX – Teorias! Ninguém conhece as verdadeiras leis. A perfeição está cheia de manchas escuras, mas só a noite tem pontos claros! O negro é lindo.

NUX – Eu gosto mais do louro. O programa dele dá prêmio todo sábado. É muito bom. Você não pode perder!

MIX – O bom mesmo é comer amendoim. Mas é preciso tirar a casca.

NUX – Eu como a casca.

MIX – Tirei oito, você tirou quantos?

NUX – Nunca sei.

MIX – As vacas são de papel, mas elas não se molham. Talvez seja porque o Sol nunca esteve tão perto. Dizem que tem manchas.

NUX – As vacas?

MIX – Não. O Sol.

NUX – Trinta e seis.

MIX – Não vale. Você escolheu a cesta errada. Precisa decifrar os outros também. O rei não vai gostar.

REX – Não vou mesmo. Isto tudo não está me agradando em nada.

SEX – Quer trocar de lado?

REX – Não. Quero ser respeitado. Eu não gostei do seu tamanho. A espessura não foi aprovada.

SEX – Talvez com a língua.

REX – É muito fina. Eu quero algo maior.

SAX – Quando as autoridades estão corrompidas, como pode-se esperar que a população respeite qualquer coisa que seja?

LEX – As autoridades acreditam estar acima de tudo e de todos. Isso não é lei. É dogma. Se a lei é ilegítima não vai funcionar.

SAX – Mas existem verdades absolutas que estão acima de tudo e de todos. Diante delas, as autoridades civis são nada.

LEX – São humanas, assim como as outras, que são ainda mais ilegítimas.

SAX – Como você sabe disso?

MAX – Eu contei para ele.

SAX – E quem é você?

MAX – Aquele quem você diz representar.

SAX – Blasfêmia. Você é como nós. Igual a nós. Que pretensioso...

MAX – Eu já havia falado isto antes. Está escrito. Você deveria saber.

SAX – Você devia ser preso, crucificado. Falso profeta!... Onde está a lei?

LEX – Eu lavo minhas mãos.

SAX – É preciso dar exemplo. Isto não pode ficar assim.

LEX – Então pergunte a eles. Há tantos delinqüentes.

ROX – Eu não sou delinqüente.

LEX – Ou você ou ele. O que vocês acham?

NUX – O grandão é muito chato. Solta o mano.

SEX – O grandão é muito feio. O mano é bonitão.

REX – Esse é o subversivo? Ele merece uma lição. Ordeno que o executem. Soltem o moleque e mande ele já para o meu gabinete.

NOX – A noite cairá sobre o mundo, que adormecerá num sono profundo.

NUX – Eu não tenho nada a ver com isto. Não fui eu quem roubou a maçã.

SEX – Todos comemos inclusive você. Assume mané!

NUX – É uma pouca vergonha...

MAX – Deixem disso. Não me façam mártir... não vai ser bom para vocês.

ROX – Martírio é uma merda.

NOX – As trevas se espalharão por toda a Europa.

LUX – Mas um dia, quem sabe, haverá iluminados.

NOX – As trevas estão voltando. É por isto que ele está entre nós.

SAX – Eu?

LUX – Sim, você! Você é o portador das trevas. Quem espalhou a morte nas fogueiras? Você mente. Você impede que eles O vejam.

SAX – Mas... eu sou o caminho...

ROX – Caminho, o caralho! Abre alas que eu quero passar!

MAX – O caminho não tem intermediários.

SAX – Você não morreu ainda?

MAX – Não consegui... vocês me ressuscitaram! Mas fizeram errado! Isto não sou eu. De onde você tirou isto? Essa lei não é minha!

SAX – Claro que não... é o caminho verdadeiro. Você é o inimigo. Você é a besta.

NOX – A besta é demais. Viva a besta!

NUX – Eu vou rezar, eu prometo!

ROX – A besta é do caralho!

REX – Assim não dá! Assim não dá! Não autorizei ninguém a me chamar de besta.

SEX – Eu não quero mais... não com você, sua besta. Fique com seu povinho.

NUX – Povinho não!

REX – Me respeite, seu moleque! Eu financio a sua igreja... não vou permitir isto.

SAX – Eu criarei um novo pecado.... deixe comigo!

NUX – Por que não deixam tudo como estava antes? Era tão bom.

LUX – Não me surpreende que sejam todos cegos.

MIX – Os cegos são muito sábios. Conseguem ver até o que não existe.

NUX – Ei, esta frase é minha.

MIX – Frases são letras e letras são riscos e riscos são manchas e manchas são nada.

NOX – Sem o nada, nada haveria. Viva o nada!

LUX – Os cegos estão vencendo. E agora? O que será de nós?

LEX – A justiça é cega. É bom que seja assim.

REX – É surda. Falta autoridade. Falta pulso firme; competência! Me dê suas armas, que eu cuido de vocês.

SAX – Olha só quem fala... Me passem as crianças, que eu as educarei para o futuro, na virtude, para a plenitude.

SEX – Sei.

LUX – Nada é transparente. Tudo é complicado. Quem sabe mais adiante possamos nos livrar dessas regras?

NOX – A justiça tem que conhecer a noite. Quem sabe assim vai conseguir enxergar melhor o que acontece nas caladas.

ROX – Vamos acabar logo com esse papo chato... eu quero é curtir a noite. Vamos lá, galera!

NOX – Estão todos cegos. São as trevas da ignorância.

ROX – Ignorante é a mãe. Eu quero festa! Eu quero circo! Vamos lá, porra! E aí, meu Rei?

REX – Não me chame de rei, pega mal. Isto aqui é uma democracia.

NOX – Governo do demo! É o cão!

REX – Do cão não. É do polvo! Eu sou o grande polvo... veja meus tentáculos como são pegajosos.

MAX – Não é um polvo. Só parece. Não olhe só os tentáculos. A cabeça é diferente.

ROX – Chega de nhém-nhém-nhém. E a festa, como é que fica?

NUX – Pois é... o polvo sempre leva tudo e a gente fica sem nada. Onde está minha festa?

SEX – É... e a festa? Eu quero sexo! Eu quero doce! Eu quero, eu quero!

REX – Vai ser uma grande festa popular. Venha exercer seu direito e viva a democracia!

NUX – Político é tudo igual. Tudo corrupto. Odeio política. Quero a festa. Não vai ter festa?

MAX – Que gire o mundo!

NUX – Mundo, que mundo?

MIX – A roda-viva.

NUX – A roda da fortuna? Se tiver dinheiro eu quero!

MIX – Não. O poço sem fundo. Há-há!

NUX – Você não diz coisa com coisa, cara.

MIX – Eu sou o alfa e o ômega, eu sou o pato e a galinha, o traço e o branco.

NUX – Louco...

MIX – Escreva! Não vai doer. O fim está próximo. Vamos girar!

NUX – E onde ele está?

MIX – Na sua frente, veja!

NUX – Onde?

MIX – Vamos recomeçar.

13.10.05

Crepúsculo



(Dois cegos conversam num banco de uma praça urbana, daqui a duzentos anos, talvez mais, talvez menos.)

CEGO 1 – Ela se foi.

CEGO 2 – Para onde?

CEGO 1 – Ninguém sabe... Já tinha ido, na verdade... Faz tempo... Mesmo me tocando eu sabia que ela não estava mais. Eu só sentia que ela me tocava. Não conseguia vê-la.

CEGO 2 – É delírio.

CEGO 1 – Não é não. Ela deixa marcas... às vezes fere. Eu sinto o cheiro dela... é cheiro de sangue. Ela grita, implora para ser vista... me arranha e me derruba.

CEGO 2 – Não tem mais volta?

CEGO 1 – Não.

CEGO 2 – Como você sabe?

CEGO 1 – Porque… porque eu não quero que tenha... se eu voltar a tomar essas coisas ela volta, mas eu não quero viver com a imagem de quem só existe quando estou delirando.

CEGO 2 – Ah... entendo.

CEGO 1 – Ela só existe lá... talvez seja uma simulação, um programa, uma idéia...

CEGO 2 – Mas se ela arranha... se grita...

CEGO 1 – Essa é a minha dúvida... Pode ser o contrário... Ela existe, mas não no sistema. Se eu me desligar do sistema eu não vejo mais nada, nem ela, nem você, nem ninguém. Como agora. Ela talvez tenha se desligado, e eu não a vejo.

CEGO 2 – Mas ela é real, então...

CEGO 1 – Provavelmente... possivelmente.

CEGO 2 – É como se fosse... um fantasma.

CEGO 1 – Não... Um corpo sem face. Um corpo sem alma, talvez.

(Pausa.)

CEGO 2 – Que silêncio.

CEGO 1 – É a calmaria. Em breve virá a tempestade.

CEGO 2 – Talvez seja melhor irmos embora.

CEGO 1 – Não... eu vou esperar.

CEGO 2 – Entendo... você se incomoda se eu não ficar?

CEGO 1 – Não... mas eu garanto que é mais seguro você ficar aqui.

CEGO 2 – Por que?

CEGO 1 – Porque este lugar não existe no sistema. Não tem como lhe roubarem...

CEGO 2 – O que podem me roubar?

CEGO 1 – A identidade, a presença, a existência...

CEGO 2 (assustado) – Eu não sabia que isso era possível... mas... se for assim, são todos vulneráveis.

CEGO 1 – Quase... aqui é seguro, mas na passagem existem singularidades.

CEGO 2 – O que são singularidades?

CEGO 1 – Falhas de continuidade. O mapa não representa o território... Este território ninguém controla, mas quando se passa de um lado para o outro, a transição fica exposta. Ela deve estar por aqui... e se você atravessar, ela pode lhe atacar.

CEGO 2 (aterrorizado) – Ela?... o que ela é? Me parece um tipo de demônio... um vampiro.

CEGO 1 – Eu não sei no que ela se transformou... Pode ser apenas um defeito no sistema. Talvez ela tenha uma vida normal fora dele... mas, como falei, pode ser o contrário... pode ser que ela não exista mesmo... seja só ilusão provocada por essas drogas, e por essas coisas que têm no nosso cérebro. Por isso eu estou aqui. Aqui é um dos poucos lugares onde se pode sentir a escura realidade. Talvez nada aconteça, talvez eu não volte mais...

CEGO 2 (nervoso) – E se ela não vier... quando posso sair daqui com segurança?

CEGO 1 – Com segurança não se pode viver neste mundo. Fique mais um pouco. Não tenha medo. Tudo isso é ilusão... o medo inclusive.

CEGO 2 – Porque você me trouxe aqui.

CEGO 1 – Eu achei que você talvez quisesse enxergar.

CEGO 2 – Como assim, enxergar? Aqui não enxergo nada.

CEGO 1 – Enxerga mais que lá no seu mundo... Aqui as ilusões são nossas... Ninguém injeta nada na sua mente.

CEGO 2 – Você prefere nunca mais enxergar nada?

CEGO 1 – Enxergar? De que me serve a visão em um mundo onde sou apenas sombra? Lá não tenho liberdade. O que eu vejo, o que eu ouço, a dor que sinto, o prazer... nada é real. Aqui eu posso sonhar, e ninguém vai interferir nos meus sonhos...

CEGO 2 – A cidade não é real?

CEGO 1 – Talvez seja, mas não é o que parece.

CEGO 2 – O meu rosto... as pessoas... as cores...

CEGO 1 – Somos cegos... nossa visão é artificial. Você acha que ela é completamente fiel à realidade? Se os que vêem naturalmente já não enxergam, imagine os que nunca viram.

CEGO 2 (desolado) – Isso é meio absurdo...

CEGO 1 – É absurdo.

CEGO 2 – E quem será que controla tudo isso?

CEGO 1 – Ninguém.

CEGO 2 – Ninguém?

CEGO 1 – Não sei... mas não precisa que alguém controle... um monte de cegos corre rumo ao precipício e cada um deles acha que os outros sabem para onde estão indo... Por compartilharem das mesmas ilusões, confudem-nas com a realidade. Os que não se iludem ou são loucos ou são cegos.

(Um barulho, como um zumbido de curto-circuito.)

CEGO 2 – O que é isso? (assustado) Será que ela chegou?

CEGO 1 (pensativo) – Não sei... sinto uma vibração.

CEGO 2 – Vibração?

CEGO 1 – Ouça!

(Permanecem em silêncio.)

CEGO 2 – Que silêncio... Ainda não é a tempestade.

CEGO 1 – Talvez um trovão distante.

CEGO 2 – Alguém pode ter atravessado a passagem... pode ter sido atacado.

CEGO 1 – Pode ser.

CEGO 2 (assustado) – Talvez já esteja aqui, entre nós...

CEGO 1 – Pode ser.

CEGO 2 (inquieto) – Acho que... talvez dê para eu ir embora... Você não pode me acompanhar até a torre?

CEGO 1 – Você quer mesmo voltar para lá?

CEGO 2 – Se eu não for, para onde irei? Não posso ficar aqui para sempre...

CEGO 1 – Você nunca saiu daqui.

CEGO 2 – Não entendi.

CEGO 1 – Você está querendo ir ao encontro da sua ilusão... mas você nunca saiu do lugar, entende?

CEGO 2 – Não... não sei... é muita coisa para a minha cabeça... você está me deixando muito confuso. Isto é muito complicado... Eu não sei o que pensar. Minha cabeça dói.

CEGO 1 – Tudo bem. Eu sei que não é fácil.

CEGO 2 – Eu acho que eu vou embora.

CEGO 1 – Sim, está na hora.

CEGO 2 – Você vem comigo?

CEGO 1 – Não precisa.

(Cego 2 hesita)

CEGO 1 – Não tem perigo mais... você pode ir.

CEGO 2 (hesitante) – Mas... e se ela chegar?

CEGO 1 – Ela não vai mais chegar.

CEGO 2 – Como você sabe?

(Cego 1 permanece em silêncio.)

CEGO 2 (horrorizado, olha para os lados, como se visse) – Ela está aqui...

CEGO 1 – Sempre esteve.

CEGO 2 (em pânico) – Onde?

CEGO 1 – Não é onde... é quem.

CEGO 2 – Quem?

CEGO 1 – Sim, é quem. Procure no espelho.

CEGO 2 – Espelho? Que espelho? O que tem no espelho?...

CEGO 1 – Tem o que você procura.

CEGO 2 – ... quem é você?

CEGO 1 – Exatamente! (Sorri.) Você já pode ir, se desejar.

CEGO 2 (ainda confuso) – Eu não entendi nada...

CEGO 1 (ajudando o outro a levantar-se) – Venha, levante-se... pegue sua bengala.

CEGO 2 – Me explique, por favor... o que ... o que está acontecendo?

CEGO 1 – Nada. Tudo o que tinha de acontecer, já aconteceu.

CEGO 2 – Já aconteceu?

CEGO 1 (sorrindo) – Ah, sim! A noite já está entre nós. Em breve nascerá outro dia.

CEGO 2 – Não entendo suas respostas...

CEGO 1 – Não precisa... É assim que é a vida. É preciso que exista a morte, para que possa haver o renascimento.

CEGO 2 (assustado) – A morte...

CEGO 1 – Sim... às vezes estamos tão envolvidos em nossas ilusões que nem percebemos que ela já chegou, não é mesmo?

CEGO 2 – Eu não estou vendo nada.

CEGO 1 – Não há mais nada para ver.

12.10.05

Metamorfoses



(Duas mulheres jovens chegam e sentam-se num banco de uma praça urbana, daqui a uns 200 anos, talvez mais, talvez menos.)

TIREZA – Aqui não tem perigo... ele não vai conseguir rastrear.

GAIA – Eu tenho medo.

TIREZA – Não, não vai não... Isso foi tudo raqueado... os caras detonaram o sistema. Daqui só sai ruído, e eles nem ligam muito... É uma praça esquecida.

GAIA – Eu não agüento mais essa situação... não posso mais ficar fingindo ser quem eu não sou. Quero voltar à minha vida normal, quero esquecer tudo...

TIREZA – Quer mesmo? Duvido!

GAIA – Quero! Eu cheguei no meu limite... queria esquecer tudo e voltar a ser como os outros.

TIREZA – É patético ouvir isso... mas eu não tenho uma boa notícia para você... Não tem como! Não tem como voltar no tempo... Você não vai conseguir viver na farsa... Memória não se apaga. Essas drogas todas mexem com a memória, vão deixá-la louca, mas não vão resolver o seu problema. Você tem que enfrentá-lo.

GAIA – Mas como? Eu não agüento mais isso. Ele me obriga a ler aquele livro todas as noites... Já sei um monte de trechos decorados... A consciência dessa vida vai me deixar louca...

TIREZA – Eu já disse... caia fora!

GAIA – Não posso...

TIREZA – Pode sim... tenha coragem.

GAIA – Não posso... ele vai me achar... Não existe nenhum lugar para onde eu possa ir... Já pensei em trocar de identidade de novo, mas hoje em dia eles rastreiam tudo...

TIREZA – Você pode entrar com um processo... você não é obrigada a seguir a religião dele; isto justificaria proteção caso você quisesse pular fora.

GAIA – Não ia funcionar... ele tem poder... eu desconfio que ele sabe que eu não sou inocente... já pensei em tudo; comprar uma identidade, escapar da cidade...

TIREZA – Trocar de sexo?

GAIA – Não.

TIREZA – É uma opção... e é perfeitamente legal. Aliás, é a única forma legal de mudar de identidade, e se você conseguir comprar uma identidade e trocar de sexo com ela, ele não vai te achar de jeito nenhum...

GAIA – Mas eu não quero trocar de sexo...

TIREZA – Não é traumático... além do mais, é reversível...

GAIA – Não... eu não me sinto homem...

TIREZA – É só temporário! Você não precisa mudar de sexo para sempre... Depois de um tempo, quando você não aparecer mais nos registros, você arranja uma identidade e faz o caminho inverso?

GAIA – Mas... isso não é complicado?

TIREZA – Não... hormônios, células-tronco, regeneração, próteses cultivadas... não tem nada de metal, nada elétrico... tudo orgânico. A cirurgia é rápida e tem uma comunidade virtual onde você consegue um código de autorização e liberação para a cirurgia.

GAIA – Como você sabe tudo isto? ... eu não tenho dinheiro...

TIREZA – A chave de liberação inclui autorização de pagamento.

GAIA – É de graça? Eu sempre pensei que essas cirurgias custassem uma fortuna...

TIREZA – Não... não é de graça, várias pessoas pagam... nós desviamos dinheiro de suas contas... pequenas quantidades e ninguém percebe.

GAIA (assustada) – Nós? … Você está envolvida com isto?

TIREZA – Não exatamente...

GAIA – Mas como você sabe de tudo isto? Você tem ligações com os terroristas digitais...

TIREZA – Você está invertendo as coisas... pensei que ele fosse o terrorista...

GAIA – Não tem nada a ver... eu não gosto dele, mas ele não é terrorista... só porque é religioso vocês sempre pensam que é terrorista. Se for olhar por esse lado, eu sou mais delinqüente que ele... eu sei coisas que ele não sabe...

TIREZA – Mas ele está no controle do seu mundo... (silêncio) Mas e aí?

GAIA – Não sei... quais os riscos?

TIREZA – Você vai ter que voltar a tomar os sincronizadores, por uns três dias... moderadamente... você não vai perder a noção das coisas, mas vai ficar mais à vontade; troca de identidade é só uma reação química... não tem nenhum efeito colateral... só faz mudar a freqüência que seu cérebro irradia para fora, mas não afeta nada internamente. A cirurgia dura cinco minutos e faz efeito em duas horas.

GAIA – E depois?

TIREZA – Depois você pode curtir a vida como homem, e estará livre dele para sempre.

GAIA – Não tem mesmo como rastrear?

TIREZA – Não.

GAIA – Eu não sei... eu tenho medo.

TIREZA – De que ele te ache?

GAIA – Não... de ser homem… eu não sei se é isso que quero... não sei se vale a pena...

TIREZA – Eu já fiz duas vezes...

GAIA – Como assim? Você era homem?

TIREZA – Fui... por um tempo... mas eu nasci mulher.

GAIA – Mas... você é linda... perfeita...

TIREZA – Só troquei de sexo, não de corpo... além do mais, voltei a ser mulher...

GAIA – Por que? … Você não gostou de ser homem?

TIREZA – Não foi isso... fui homem durante sete meses... foi até divertido.

GAIA – E por que você voltou a ser mulher?

TIREZA – Passou... enjoei... não me sentia mais homem... comecei a ficar com nojo de mim mesma...

GAIA – Então porque você decidiu ser homem na primeira vez?

TIREZA – Não quis...

GAIA – Não?

TIREZA – Tive que fugir de um homem que dizia ser meu pai...

GAIA – Que louco! Mas... porque você teve que fugir, e não ele?

TIREZA – Você ainda acha que esse mundo é justo, não é mesmo? O poder não evoluiu através dos tempos... continua do mesmo jeito... quem é amigo do rei, está sempre por cima... Nós sabemos de tudo mas eles continuam no controle... é uma merda. Você é prova disso...

GAIA – Quando começamos?

TIREZA (distraída) – O que?

GAIA – Eu quero ser homem…

TIREZA – Bem... (confusa) eu tenho que ver se os meus contatos estão atualizados...

GAIA – Então veja! (eufórica) Veja logo! Qual é o endereço do lugar?

TIREZA – Não lembro... vou ter que pesquisar... o símbolo é um ícone com duas cobras...

GAIA (confiante) – Eu vou matá-lo!

TIREZA – O que?

GAIA (valente) – Um homem vai matá-lo... (Sorri.)

TIREZA – Tenha calma... ainda estamos na praça... e não pense em besteira.

GAIA – Me leve lá... agora.

TIREZA – Olha... faz muito tempo...

GAIA (agressiva) – Me leve lá agora! Eu não posso esperar...

TIREZA – Tudo bem... primeiro se acalme... relaxe... (Gaia relaxa) ... eu vou pesquisar isto para você, prometo, mas espere até amanhã...

GAIA – Não! (levanta-se) Eu não volto mais lá! Não, não e não!

TIREZA – Veja... sente-se. Sente-se! (Gaia senta-se) Seja racional... não é uma coisa tão simples assim. Temos que conseguir as identidades, achar a porra do lugar, tenho que ir atrás dos códigos... se você agüentou até hoje agüenta mais uns dias... faça um esforço...

GAIA (chora) – Ele vai descobrir tudo...

TIREZA – Não se você mantiver a calma... fingir que nada aconteceu... decorar seus versos e deixá-lo feliz...

GAIA – Você não entende... ele sabe tudo... às vezes eu acho que ele lê a minha mente...

TIREZA – Então é melhor você tomar uma dose dupla de Nepenthe...

GAIA – Odeio esquecer.... odeio, odeio!

TIREZA – Ninguém esquece tudo... é impossível... mas não tem outro jeito. Vá para casa agora e amanhã nos falamos.

GAIA – Sabe o que eu pensei agora?

TIREZA – Sei sim... que eu poderia ser informante dele... Bobagem...

GAIA – É... tem razão... (pausa) Eu vou embora... (levanta-se)

TIREZA – Até amanhã.

(Gaia sai.)

11.10.05

Viagens no tempo e o espaço



(Duas pessoas de sexo indefinido sentadas numa praça, urbana, daqui a duzentos anos, talvez menos, talvez mais; acabaram de tomar drogas alucinógenas diferentes.)

URAN – Ela não tem limites. É uma singularidade no sistema. Não sei o que houve. Os códigos foram corrompidos e realimentados. O sistema entrou em colapso e começou a devorar os blocos vizinhos.

KRON – Dilatou o tempo. Eu já consigo ver as árvores, e a igreja?

URAN – Igreja?

KRON – Sim... parece uma igreja... ali onde fica a torre.

URAN – Eu quero provar este... quero ver a igreja...

KRON – Não foi o que combinamos... hoje o tempo é meu... eu também vou querer provar o seu, mas não hoje...

URAN – Eu não estou sentindo nada...

KRON – É que demora mais para fazer efeito... essa visão dos códigos e singularidades eu não tive... deve ser a sua fazendo efeito.

URAN – É... pode ser... era para dilatar o espaço... não estou vendo nada disso...

KRON – Tem gente... muita gente... tem luzes... a claridade dói.

URAN – Está formando uma espiral... (perde o equilíbrio e quase escorrega) vou cair...

KRON – Ai... (cobrindo os olhos) ... ai! (levantando-se) Fiquei cego! (desesperado, põe a mão nos olhos) Não!! (chora) Não!

URAN – Fique calmo, seu idiota... Sente-se (puxa Kron para o banco)... é o efeito... nossa... como você ficou pequeno... está sumindo... que louco...

KRON – Era a luz... agora estou vendo de novo... o dia é muito claro; eu só tolero as luzes da noite.

URAN – Eu só não estou gostando desse zumbido nos meus ouvidos... está ficando insuportável... ai... lá vem outro redemoinho... (põe as mãos na cabeça e quer gritar... cai no chão em posição fetal e tem convulsões).

KRON (com o olhar vesgo... delirante) – Pessoas... muitas pessoas... eu quero pegar (tenta levantar-se para pegar algo)... passarinhos... (ri, como um idiota)... isso são o que? (confuso) … Uran, isso são carros? (assusta-se) Ele vai me pegar… Aaaii!! (cai, como se tivesse sido atropelado).

URAN (levantando-se) – Nossa... (ri) ... o mundo está girando... como é boa essa sensação de queda... (cambaleia e cai novamente) O que foi que você disse, Kron?

KRON (imóvel, falando com voz grogue) – Eu vou morrer...

URAN – Deixa disso... nossa... que tesão... vou gozar...

KRON – Que dor...

URAN (gozando) – Ah... ah... eu vou morrer de tesão... ai...

KRON (levantando-se, cego) – Está tudo escuro... Uran... onde está você?

URAN (saciado, sorrindo) – Aaahhh...

KRON (grita) – Uran!!

URAN (baixo) – Estou aqui... ah... fui tragado pelo buraco negro... (ri) renasci num Big Bang... Eu sou o todo... sou o Universo... (sente uma pontada de dor ou prazer) ai...

KRON (desesperado) – Uran... eu não estou vendo nada... o tempo não passa... não passa... Uran, faça alguma coisa...

URAN – O que você quer que eu faça, meu filho? Eu não estou mais no seu universo... eu comi o seu universo... (sempre feliz, rindo) isso aqui é muuito louco... muito louco... nossa... quantas cópias de mim... (ri) que engraçado... sou infinitos...U-hu!

KRON (chorando) – Uraaan! Não me deixe sozinho... (chora até ficar sem ar) Eu não sei onde estou... Eu não consigo me tocar... eu não existo mais... Uraaan!

URAN – Calma, calma... logo, logo vai passar... tenha calma... curta a inexistência, meu... ah, se o tempo não passasse...

KRON – Eu não quero... quero sair... eu quero falar!...

URAN – Ora... eu estou lhe ouvindo... ah... que delícia... lá vem outro buraco negro...

KRON – Mas... não sou eu! O pensamento não é meu! Eu não consigo pensar o que eu quero... Eu não sei onde estou... (arrastando-se, cego) eu não penso, eu não existo...

URAN – Ai... este está queimando...

KRON (chora) – Eu sou o nada!

URAN – Ai, ai, ai... (grita) a..a..a...aaaiii!!! (cai e entra em convulsão violenta, revira os olhos, bate a cabeça) Ah... ah...

KRON – Achei um... peguei! Peguei!

URAN (em transe) – Ur...

KRON (grita, mas sem terror) – Aaa.... estou caindo! Eu vou girar mais rápido...

(Uran treme como se em febre intensa. Kron tenta levantar-se, mas escorrega)

KRON (tonto) – E...eu... n...não... p...páro... d...de g...gi...raaar.... (som de hélice girando cada vez mais rápido até virar um apito estridente... Kron levanta-se... tapa os ouvidos e grita sem fazer som.)

(Kron cai no chão. O som pára. Transforma-se em um tic-tac de relógio...)

URAN (exausto) – Morri...

KRON – Eu sonhei que você tinha me devorado...

(pausa)

URAN (levantando-se) – Que dor de cabeça... que ressaca...

KRON – Como foi rápido...

URAN (restabelecendo-se) – Pois é... hoje em dia essas coisas não duram...

KRON – É melhor a gente ir embora... daqui a pouco vão nos achar...

URAN – Não... acham não... aqui é o fim do mundo... aqui ninguém acha ninguém.

10.10.05

Um encontro



(Dois homens chegam e sentam-se em um banco de praça urbana, semi-deserta e abandonada. Talvez daqui a duzentos anos, talvez mais, talvez menos)

PIX – Como é que você tem certeza que aqui é seguro.

SET – Eu vi ontem, na rede... o cara que foi pego aqui. Fazia dias que ele perambulava por aqui e ninguém percebeu...

PIX – Sim, mas pegaram ele.

SET – Pegaram por azar... ele pegou no sono e deu conflito com a freqüência de sincronização.

PIX – Ainda não estou seguro... tem guardas lá do outro lado, olhe...

SET – Sim, mas eles são autômatos. Você não viu aquela louca? Faz dias que ela não saía daqui. Pegaram ela e deixaram lá, deitada... nem se preocuparam em levá-la embora.

PIX – E as câmeras? Você disse que elas estariam desligadas, mas elas se movem...

SET – Eu disse que elas foram adulteradas, é diferente… Se elas tivessem desligadas aí sim seria um problema pois isto seria registrado e eles viriam consertar. Adulteradas, elas perdem os dados... não há risco... vão demorar um tempão para descobrir, isto se tiverem interesse. Eles abandonaram isto aqui, por isso é que é seguro.

PIX – E os insetos? Se formos picados por insetos não temos seguro...

SET (irônico) – Insetos? Ficou louco? Quem lhe contou isto? Se houvesse animais vivos por aqui isso tava lotado de gente... Inseto vivo vale ouro. É mais fácil ser contaminado por nanobots...

PIX (assustado) – Aqui tem nanobots?

SET – Não... acho que não.

PIX – Quando eu era criança eu tinha vontade de conhecer este lugar... mas tinha medo... minha mãe dizia que era um lugar muito perigoso...

SET – Você tinha mãe, Pix?

PIX – N... não... quis dizer...

SET – Pode falar... eu não tenho nada contra...

PIX – Eu tenho vergonha...

SET – Não se preocupe... eu não ligo, já disse...

PIX (com medo) – Se a gente morrer aqui ninguém vai saber...

SET – Não vai... isto não é fantástico? Você entra aqui e o sistema ignora que você existe...

PIX – Nem tanto... ele percebe sua falta...

SET – Percebe, mas é só não ficar aqui tempo demais, por isso que precisamos de objetividade!

PIX – A gente pode falar de tudo, aqui? Qualquer coisa?

SET – Sim, mas não use termos técnicos ou vocabulário underground... eu não confio nesses filtros. Eles conhecem os codinomes.

PIX (distraindo-se) – Veja, o que é aquilo?

SET – É um cachorro.

PIX – De verdade? Eu nunca vi um… o que ele está fazendo?

SET – Claro que não... é sincronizado. Pra começar, se fosse de verdade não agüentaria a aridez... Mas vamos ao que interessa. Temos pouco tempo. O contato que você me conseguiu não tinha passes, mas eu consegui 12 mil códigos. Todos limpos e livres de qualquer suspeita!

PIX – Doze mil? É muito... e se tiver vírus no meio?

SET – Não fale vírus...

PIX – Hã? ... desculpe... mas não é termo underground...

SET – Sei lá... parece... pode ser que peguem...

PIX – Dá para aproveitar quantos?

SET – Talvez uns 20. Eu consigo testar dois mil em uma hora... Preciso de seis horas... Estão prevendo uma tempestade elétrica para os próximos dias... talvez seja suficiente.

PIX – Vinte! E se tiver...

SET – Não tem! É limpo... Peguei de uma mesquita...

PIX – Ah... A gente fica com os vinte?

SET – Não, tenho que pagar metade para os caras... mas não preciso informar as identidades. Dá pra usar cinco dias seguidos ou uns 30 avulsos, talvez mais se a gente não se expor demais. Aqui levaram dez dias para descobrir um conflito de identidade. É só não pegar o metrô e ficar longe do distrito árabe. E você está me devendo um, então vou lhe passar quatro.

PIX – Certo.

SET – Agora não pense mais nesse assunto. Tome uma dose de Nepenthe ou Lethe quando sair daqui e ligue o sincronizador para voltar daqui a três dias.

PIX – E agora?

SET – Agora você pode ir.

(pausa)

PIX – Você não vai?

SET – Não.

PIX – Por que?

SET –... porque... eu estou esperando alguém.

PIX – Quem?

SET – … uma pessoa… não tem nada a ver com o que a gente falou.

PIX – Posso ficar?

SET – Não... é um assunto particular.

PIX – Eu não gosto disso...

SET – Veja... pegue (entrega dois adesivos) ... vá... pegue!

PIX – Eu não quero esquecer...

SET – Você ficou maluco? Se você sair daqui com essas informações, vão lhe matar... Tome seu Nepenthe agora!

PIX – Não... você vai me denunciar...

SET – Por que diabos eu ia denunciar você? Ficou louco? Você não confia em mim, Pix? Eu fiz a cortesia de dividir isto com você, e agora você acha que eu vou denunciar você...

PIX – Quem é que você vai encontrar?

SET – Uma amiga...

PIX – Quem?

SET – Você não conhece... é uma prestadora de serviços... decidi aproveitar e me divertir um pouco, já que vim até aqui e não serei detectado até o fim do dia.

PIX – V... você vai... vai fazer...

SET – Sim, vou!

PIX (contrariado) – Mas... p... por que?

SET – O que é que você tem, Pix? Eu não tenho muito tempo... Vá... tome logo esse Nepenthe... (descasca o adesivo e tenta colocá-lo no braço do Pix, que se levanta assustado. Set levanta-se e o agarra violentamente... para evitar que ele fuja) Veja bem, Pix... (nervoso) você está alterado... se continuar assim, vai colocar em risco a minha vida, e a sua também... entendeu? Eu não vou deixar você sair daqui... tem nanobots na sua mão. (solta Pix) Se você se afastar sem tomar esse Nepenthe, eu aciono...

PIX (quase chorando) – É mentira... se você acionar eles vão nos descobrir...

SET (tranquilamente) – Mas antes disso você morre e eu dou o fora.

PIX (desespera-se e chora) –Pensei que você gostasse de mim... você é cruel...

SET – Pix, Pix... meu caro Pix... você está mal, hein?... (aproximando-se dele) Olha só... era brincadeira, não tem nanobots... mas é melhor você passar uns dias na cidade e recarregar; você não vai durar muito desse jeito.

(Pix tenta abraçar Set desesperadamente, que o repele)

SET – O que é isso... (empurra-o) Sai! Sai! Você ficou louco?

PIX (implorando) – Não me deixe... por favor... fique comigo...

SET – Eu não vou lhe deixar... de onde você tirou essa idéia?

PIX – Você vai... você vai fazer... (chora)

SET – Vou... mas não é nada demais... Mais tarde nos encontraremos... Tome seu Nepenthe que tudo vai dar certo (tira uma ampola e uma seringa do bolso; prepara sem que Pix veja).

PIX (parando de chorar) – Eu não vou... vou fic...

(Set agarra Pix por trás, que começa a gritar... cobre sua boca e aplica-lhe a injeção entorpecente... ele reage, esperneia, grita, derruba Set e tenta fugir, mas logo começa a enfraquecer e cai sentado.)

SET (depois de um momento) – E então, Pix, como estão as coisas?...

PIX (ri como criança) – He... hehe.... legal, ... he... eu quero mais...

SET – Me dê sua mão, Pix... tenho um presente pra você

PIX – Um presente?

SET – Sim... me dê a mão...

(Pix dá a mão. Set descasca um adesivo de Nepenthe e cola na mão dele. Pix ri.)

PIX – P... presente... (ri)

SET – Bom menino... Você sabe ir para casa, daqui, Pix?

PIX – Hmmm... s...s... sei não...

SET – Eu vou lhe ensinar... venha cá... Está vendo aqueles homens de branco, ali...

PIX (rindo, como um idiota) – He... hehe...

SET – Ótimo... vá até eles, e pergunte como chegar em casa, e eles vão levá-lo... Vá... Diga que você se perdeu da sua mamãe... Eles são legais; não tenha medo, Pix... Vão lhe mostrar o caminho...

PIX – He... he... obrigado! Então eu vou pra casa... pra casa!... Você é um homem legal...

SET – Vá sim, Pix... qualquer dia nos veremos de novo... tchau!

PIX – Tchau...

(Pix fica em dúvida sobre para que lado ir; Set levanta-se para mostrar-lhe o caminho e ele sai de cena).

7.10.05

Entrevista com o mendigo



(Uma moça entrevista um mendigo louco numa uma praça urbana, semi-deserta e abandonada. Talvez daqui a duzentos anos, talvez mais, talvez menos.)

MOÇA – Tudo bem. Vou falar uma língua que você entende. Quem é você?

MENDIGO – ... eu já disse tudo o que eu sabia. Você é da polícia?

MOÇA – Veja bem, eu não me incomodo que vocês não liguem para o resto de nós, nem que prefiram viver a vida assim, sem sincronismo, sem proteção e sem registro. Mas assumir uma identidade que não lhe pertence não só é crime, como pode lhe trazer muitos problemas. Você não imagina as conseqüências do seu ato?

MENDIGO (entediado) – Eu só queria dormir.

MOÇA – Eu entendo. Mas você confundiu centenas de pessoas, causou danos psicológicos graves em pelo menos uma pessoa e forçou o desperdício de milhares de yenes. Você tem que entender que não pode simplesmente gerar quaisquer freqüências que desejar. O mundo tem um equilíbrio, e isso que você pensa ser uma pequena transgressão abala profundamente o equilíbrio do mundo... (pausa)

MENDIGO – ...

MOÇA – Veja bem, eu estou do seu lado. O mundo está contra você. Eu estou fazendo o possível para que nós nos entendamos. Eu também não concordo com o controle que eles estão querendo impor à humanidade, à natureza. Mas, certas coisas são tão... básicas, e é incrível que você insista em se opor a tudo, em quebrar todas as regras... Você é egoísta. Você não facilita as coisas.... Eu estou quase desistindo de você.

MENDIGO – ...

MOÇA – Você não vai dizer nada?

MENDIGO – ... Eu só quero ser eu mesmo. Não quero nenhuma identidade digital. Não quero ligar para freqüências, sincronismos. Não quero ser controlado. Abro mão de todos os benefícios. Deixem-me ser marginal. Eu os deixo em paz.

MOÇA – ...

MENDIGO – Por que você me olha?... Não entende?... Claro que não... Veja, eu não tenho células estranhas na minha cabeça, moça! Se meus sonhos interferem nos seus mundos imaginários, não é culpa minha!

MOÇA – É sim! É sim! Puxa, como você não entende uma coisa tão simples?...

MENDIGO – Simples...

MOÇA – Eu não vou conseguir ajudar você se você continuar com esses pontos de vista, cara! Não é possível que você não entenda. Você faz de conta que não entende... Por que você freqüenta a cidade se não concorda com nenhuma de nossas regras? Por que não faz sequer a sincronização obrigatória dos animais?...

MENDIGO – ... o que é isso? ...

MOÇA (discursa sem ligar para o que ele fala)– Tudo bem que não aceite equalização automática... muitos não aceitam. Mas se você decidiu pelo primitismo, não pode simplesmente ocupar lugares públicos controlados, entende?

MENDIGO – ... primitismo eu não sei o que é, mas primata eu sou, com muito orgulho...

MOÇA (ignorando-o) – E você entende tudo isso... Pessoas sofrem, pessoas morrem, a economia sofre. Você causa danos à nossa sociedade.

MENDIGO – ... por estar vivo.

MOÇA – Você sabe disto desde criança, pois você estudou aqui e não é nenhum selvagem ignorante!...

MENDIGO – ... vocês inventam palavras muito difíceis...

MOÇA (veemente) – Você deliberadamente causa transtornos sociais. Ocupar um espaço controlado como a praça, sem registro e passando por um animal clandestino já é ilegal. Gerar freqüências cerebrais em um ambiente urbano, para as quais você não tem licença é crime. Não só você tem feito isso constantemente, como já provocou conflitos e invadiu sistemas de identidade.

MENDIGO – Incrível... foi só um sonho!

MOÇA – E você entende disso tudo que eu sei! Não é ignorante. Porque você insiste em permanecer aqui na praça? Porque não vai para uma reserva? Você tem direito de sonhar o que você quiser numa reserva...

MENDIGO – Eu não sou louco, nem criminoso...

MOÇA – Você não tem medo da morte? (pausa)

MENDIGO – Ah... que bom que você parou de falar... É uma boa pergunta. Por que ainda estou vivo?

MOÇA – Como?

MENDIGO – É! Por que? Se vocês têm tanto controle, porque não me detectaram desde o início como virus no seu sistema perfeito e me descartaram? Eu vim para a praça porque queria me matar. Eu quis morrer. Não era minha intenção chamar atenção de ninguém. Se chamei atenção, se continuo vivo, é porque interesso a alguém, ou então tem algo de errado com vocês, com o mundo, e não comigo. O mundo como eu achava que ele era já teria me eliminado... talvez o mundo não seja tão ruim assim, afinal...

MOÇA – ...

MENDIGO – Desculpe... você não vai me entender... eu sou louco, sabe?

MOÇA – ...

MENDIGO – Mas falando sério, você, aqui, conversando comigo... isto me deu uma certa esperança de que um dia isto tudo pode mudar... Pode ser uma ilusão passageira. Mas eu gosto de ilusões passageiras. Por um instante, eu perdi minha vontade de morrer. Mas se eu morrer, terei cumprido o que vim fazer.

MOÇA – ...

MENDIGO – Porque você não deixa, por um instante, a imaginação livre. Solte sua imaginação! Viaje!

MOÇA – N... n... não faça isto!

MENDIGO – Sim! Por que não? Deixe-a fluir, ocupar os espaços da sua mente. Você consegue! Deixe-se imaginar outro mundo. Como é seu nome?

MOÇA – Seu cretino! Como pode fazer uma pergunta dessas? (triste) Eu... confiei em você.

MENDIGO (irônico) – E agora eu devo estar lhe corrompendo...

MOÇA – E ainda fala com a maior naturalidade! Você não tem jeito...

MENDIGO – Não tenho mesmo, graças a Deus. E tenho um nome!

MOÇA (nervosa) – Você é louco! Louco! Louco!

MENDIGO – Eu avisei! Mas, obrigado pela companhia. Você foi muito gentil, moça sem nome.

MOÇA (triste) – ...

MENDIGO – Que pena que você não pode chorar.

MOÇA (chora) – ...

MENDIGO (surpreso) – Não, não faça isto... Você não iria sobreviver no meu mundo... Por que você parou de tomar seus remédios? Volte para o seu mundo! Você não suportaria a infelicidade de viver sem um nome. A depressão vai lhe matar. Você é muito nova... Você não se lembra de como era antes... Vá, não pense muito; seja feliz; um dia isto muda, e vai doer. Vá, e deixe-me morrer em paz. Vá!

MOÇA – Não.

MENDIGO – Vá... eu já sou uma ameaça social, e se eu corromper você aí sim que as coisas ficarão pior. Vão matar você, mas me manterão vivo. Vá!

MOÇA – Não.

MENDIGO – Pois bem, então ficaremos aqui. Já que vai ficar, pode me chamar de Aram... Falta pouco para o Sol se por. Amanhã talvez chova.

MOÇA – Eu quero um nome. Me dê um nome!... Mas sem número e sem arroba!

MENDIGO – Que tal Amanda? É chuva em Tupi, uma língua antiga, de um povo livre, já extinto.

MOÇA – Eu! Eu sou Amanda.

1.10.05

O Uroborus


O Uroborus é a cobra mitológica que está eternamente a engolir o próprio rabo. Representa tudo o que há entre o início e o fim. É a dualidade viva e dinâmica, instável, fugaz e volátil. É o instante, é o presente. É o que está entre o passado e o futuro, o nascimento e a morte, a criação e a destruição, o tudo e o nada, o princípio e o fim. É o caminho que nunca termina.

Uroborus é também o nome de uma peça de teatro, sobre o teatro. A expressão corporal é a forma mais antiga de comunicação. Antes da fala havia o grito, o gesto, o que age, o que reage, o protagonista, o antagonista. No princípio, surgiu a arte, e a arte era o teatro. Nasce e morre em cada ator, e sempre renasce.

No teatro, Uroborus simboliza o nascimento, a morte e ressurreição. Não se cria nem se destrói. Tudo o que será falado, já foi falado antes, mas nunca foi falado igual. Frases foram ditas há dois mil e quinhentos anos, foram ditas há um dia, há uma hora, e serão ditas novamente em uma hora, mas serão outras frases, assim como serão outras horas, e outras vozes.

Esse Uroborus está vivo nas Satyrianas - evento cultural anual de saudação à primavera promovido pelo grupo de teatro Os Satyros, em São Paulo. O evento começou quinta-feira (dia 29 de setembro) e só termina domingo. Falta pouco. Não perca! O Uroborus é uma peça de 78 horas, que se repete 78 vezes, formada apenas pelos melhores trechos textos de 78 autores desde Ésquilo e Sófocles até os autores contemporâneos. 78 vezes acontecem cinco atos, onde há mainfestações de amor, de morte, de renascimento e de celebração. É a peça mais longa já produzida no Brasil.

O texto ficou pronto há apenas uma semana. Foi elaborado por vários colaboradores através de uma comunidade no Orkut coordenada pelo crítico da Folha de São Paulo, Sérgio Sálvia Coelho e está online no site dos Satyros (veja link abaixo). Eu fiz uma página no meu site com material do grupo e links para vários recursos..

A praça Roosevelt, no centro de São Paulo, está viva e não dorme durante as Satyrianas. Coisas acontecem a qualquer hora do dia, noite ou madrugada. Veja a programação no site do grupo de teatro Os Satyros, que está atualmente com três espaços na praça Roosevelt: o espaço 1 (no. 214), o espaço 2 (no. 421) e o espaço 1 1/2 (210) onde ocorre a peça Uroborus. Todos os eventos são de graça exceto as peças que ocorrem nos espaços 1 e 2, onde paga-se quanto puder.

Eu estou participando do Uroborus. Se quiserem me ver em cena, apareçam no espaço 1 1/2 no domingo, dia 02, antes das 08h00. Mas apareçam em qualquer horário também. Sempre há algo interessante para ver e fazer.

Satyrianas- Uma saudação à primavera
www.satyros.com.br
29 de setembro, 18h00 a 02 de outubro, 24h00.
Praça Franklin Roosevelt, Consolação, São Paulo.