11.9.05

O sonho



Vez ou outra o sonho se repetia. Não lembro quando começou, mas eu ainda era criança. Acordava na sala vazia de uma casa antiga, abandonada, sem móveis e com apenas duas portas no centro das paredes mais afastadas da sala. As portas eram de madeira antiga e daquele tipo que abre em duas laterais. Estavam sempre fechadas. Nas paredes laterais havia janelas altas lacradas com tijolos. Eram três janelas de cada lado, eu acho, e os tijolos apareciam no reboco que caía. As colunas (não lembro quantas) também eram aparentes. Mas o teto não era muito alto. O chão, de uma cerâmica trabalhada, estava totalmente coberto de poeira.

Não estava escuro. Uma luz azulada iluminava a sala pelas rachaduras e frestas nas tábuas antigas que cobriam o teto. Era uma luz suave, como luar ou crepúsculo.

Houve umas três ocasiões em que uma das portas estava aberta. Na primeira, olhei para aquele caminho escuro e não me atrevi a chegar perto. Na segunda vez a luz da sala maior iluminou um pequeno espaço vazio, de pouco mais de um metro quadrado. A porta levava a lugar nenhum. Na terceira vez, havia um oratório. Velas acesas e santos ocupavam todo o espaço. Acho que isto foi na penúltima vez que estive lá.

Um dia, no fim da tarde, adormeci e acordei lá. A sala estava repleta de objetos pelos cantos. Livros velhos no chão, móveis quebrados. Eu peguei um dos livros e tentei ler o que estava escrito, mas a luz era muito fraca. Olhei para a outra porta. Ela estava fechada, mas uma luz vazava pelo espaço entre elas. A luz ofuscava, e me atraia. Eu sabia que a porta estava aberta. Estava só encostada, e algum segredo que eu muito desejava conhecer estaria ali, do outro lado. No momento em que eu estava diante da porta, prestes a abri-la, uma vibração e uma suave música barroca começou a tomar o ambiente. E não parava. Quanto mais aumentava e repetia, mais o ambiente se distorcia e eu não conseguia me mover. Fiquei paralizado.

Até que... eu acordei! Mas o celular já havia parado. Nunca mais voltei àquela sala, tampouco descobri quem havia me ligado.