18.6.05

Ressurreição



Não havia mais o que escrever, então a página ficou vazia. Não apenas a página. A página era apenas um reflexo da mente, cuja imaginação aparentemente se esgotara. As idéias não mais se expunham. Tinham vergonha de aparecer por não conseguirem fazer-se completas. Não cresciam. Eram fragmentos de imaginações inverossímeis; produtos de um absurdo sem referências, do qual não consegui extrair quaisquer conexões. Era um absurdo quase lógico, branco de tão perfeito. Era estéril. Talvez fosse eu mesmo o inventor desse mundo, do qual agora eu era escravo.

O vazio não era absoluto. Se fosse, até que daria uma boa história. Era um ruído branco, quase cinza, com fragmentos de poeira soltos pelo ar. Talvez, se não fossem tão sem graça, eu tivesse vontade de agitá-los. Mas não. Esperei. Um dia a poeira assenta, pensei. E assim esta página ficou vazia. Ficou vazia por falta de esforço para consumir uma estranha entropia que só aumentava a cada dia (que eu fazia questão de não ver). Não enxergava mais caminhos. Criá-los não fazia mais sentido, pois não via além da palavra objetiva e clara. As dimensões foram sumindo pouco a pouco. Dificilmente passavam de duas, quando muito três. Achei que era melhor ficar onde estava, e então, fiquei esperando o dia da tempestade.

Não sei se ela veio (acho que eu não sabia mais o que era uma tempestade). Todos os ventos só agitavam a poeira convencional que mais e mais se homogeneizava. A visão ficava mais opaca, mais dura, e o espaço parecia solidificar-se, limitando as possibilidades. Havia um certo prazer nisso. Havia uma certa segurança, uma certa felicidade em acomodar-se. Uma parede se formava, e nela eu pude escorar-me. Parecia um bloco de concreto (será que não era o tal do writer's block?) Ah, e como era pesado esse bloco! Se antes já não havia vontade suficiente para limpar o ar da poeira que se acomodava, e agora, onde buscaria forças para vencer um bloco tão sólido e tão rígido, mesmo que viesse a vontade? E o bloco era liso como diamante; não havia uma ranhura sequer para se começar uma história. Não dava nem mesmo para escalar. Chegou uma hora em que a consciência dessa falta de liberdade começou a incomodar.

Preguiça tem limite. Tem uma hora em que é preciso levantar-se e voltar a viver. Mas, e se for tarde demais? Tentei mover um braço, e vi que o concreto já havia imobilizado-o. Não havia mais espaço. Dois ou três centímetros diante dos olhos, eu acho. Não podia virar a cabeça. Mal podia piscar (creio que pude, mas somente antes de pensar que podia.) O movimento cessou.

Cessou? Eu já estava parado há muito, muito tempo, mas só agora eu percebi. O mundo movia-se e eu estava imóvel por vontade própria! Agora esse vazio que engessava minhas idéias já me incomodava. Em algum lugar eu sentia um ardor por não conseguir imaginar dor alguma. Tentei piscar os olhos, mas a pedra já encostava na córnea e não pude mais fechá-los. Tentei gritar, mas a garganta já estava petrificada. A asfixia era insuportável. Quis respirar, mas não pude sequer mover o ar. Esperei a morte, mas ela não veio. Tornei-me uma estátua, com a dolorosa consciência de sua imobilidade.

Só a consciência vivia, para me atormentar. Era o inferno. Quando tive liberdade, poderia ter ocupado todos os espaços e dimensões, poderia ter criado muitos mundos imaginários, em palavras, em imagens, em movimentos, em sensações. Ah, poderia! Pude mas não o fiz. Por que? Ora, porque eu estava livre. Tinha livre-arbítrio. Não tinha regras, não tinha pressões, não tinha limites. Poderia fazer qualquer coisa a qualquer hora. Então, deixei a poeira acomodar-se. Deixei que a correnteza do mundo me levasse. Não fiz esforço algum para vencer a névoa, que pouco a pouco, solidificou-se, formando um molde em minha volta no qual eu me encaixei perfeitamente. Agora, sou igual a todos. Posso apoiar-me firmemente nas convicções (que acredito serem minhas), sem medo de cair no abismo da incerteza. Para que arriscar-se em novas idéias? Para que agitar o ar empoeirado? Por que arriscar a infelicidade e a solidão se a vida é tão curta?

Não durou muito. Quem come do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal não consegue mais permanecer no doce Éden. A curiosidade é invencível. A loucura é uma doença degenerativa; não tem cura nem alívio; só ilusões. Descobri que o molde não era de concreto, mas de gesso. Que ilusão! Num grito selvagem movi todos os meus músculos. Foram-se cacos para todos os lados, que sumiram (acho que nem de gesso eram). Rompeu-se a placenta e meu grito escapou, ocupando todo o espaço. A luz cegou-me. Na ânsia por respirar, o ar incendiou meus pulmões. Inconsciente, caí de um alto precipício num rio de pedras cortantes. Não sei como sobrevivi. Talvez não tenha sobrevivido. Ainda não sei onde estou, pois tudo é muito novo. Acordei em outro mundo, sozinho e nu. Senti dor intensa ao respirar, talvez, por nunca ter respirado antes.