9.3.05

A preguiça



- Passe a água.
- Não alcanço.
- Então empurre a mesa.
- Não consigo. É muito pesada.
- E o vento não ajuda.
- Não mesmo.
- E esse silêncio.
- É.
- O calor.
- É.
- Ninguém se mexe.
- Nem fala.
- Nem diz nada.
- Nem fala.
- Nem se cala!
- ...
- Que preguiça!
- É.
- Cansa.
- Cansa?
- A preguiça.
- É?
- É!
- Como?
- Como assim? Cansa, ora!
- É?
- É sim!
- E então?
- Então o quê?
- E agora?
- Não entendi.
- O que vamos fazer?
- Sei lá? Ficar aqui, eu acho.
- Tô com sede.
- Então bebe água.
- Não alcanço; passe a água.
- Eu também não alcanço.
- Então empurre a mesa.
- Não consigo; é muito pesada.
- E o vento não ajuda.
- Não mesmo, não mesmo.

(22-01-2005)

4.3.05

O siri

Montagem com o caranguejo Heike, com rosto de Samurai na casca, e siri das praias brasileiras

- O que é isto? Você voltou? O que houve?
- O siri! Eu não posso continuar!
- Como assim, o siri?
- Um siri me beliscou, aqui, no calcanhar.
- Um siri?
- Sim, um siri.
- Mas que absurdo, como é possível?
- Foi na praia.
- Como na praia? Você não tinha ido viajar? Eu vi quando pegou um taxi...
- O siri tentou me matar!
- O quê?
- É... Ela me empurrou do penhasco. Cai entre as pedras, entre corais. Quase perfuro o crânio.
- Minha nossa…
- Foi o siri.
- Mas o que diabos você foi fazer na praia, a esta hora? Você poderia ter morrido! E pelo que eu sei você tinha um vôo para Xangai hoje à noite. Não devia estar no aeroporto?
- Precisava recuperar minhas roupas. Estavam na casa dela... acho que caíram da mala.
- Onde está sua mala?
- Não sei. Talvez tenha sido arrastada pelo mar. Não lembro de tê-la levado comigo. Tem algo a ver com o mar, ou com uma sela. Isto! As roupas estavam na sela!
- Sela? Que sela?
- A sela do cavalo, ora!
- Cavalo? Que cavalo?
- Exatamente! Foi tudo culpa dele, lembra?... Mas, que cara é essa? Presta atenção! Eu estou falando sério!
- Sério?
- Pense um pouco. Tente lembrar.
- Eu, lembrar? O que eu tenho a ver com isso tudo? Você chega aqui com um papo de louco e eu que tenho que lembrar de alguma coisa?
- Sim!... O que houve com você? Você não está bem?
- É para rir? Claro que não estou bem! Devo estar louco, né? Devo ter batido a cabeça em algum coral por causa de algum siri, ou de um cavalo... O que você quer que eu invente, hein? Mas, afinal, o que você foi fazer na praia?
- Eu já disse, fui pegar minhas roupas... a sela me derrubou; o cavalo...
- E a viagem? O que você vai fazer agora? Ainda vai para a China? E a moça lá, como é o nome dela...
- Eu já lhe falei do mar, da sela, do cavalo chinês... Eu fui para onde deveria ter ido. O que você quer mais?
- Ah, entendi... O cavalo... é chinês! Que interessante! Então, fale mais desse cavalo!
- Como assim? Você o conhece há mais tempo que eu!
- Hã? Ah, sim, claro... É meu parente. Mas… onde está ele, esse seu cavalo?
- Você é cego? Se fosse cobra teria lhe picado! O que é isto, para você?
- Meu Deus! É um cavalo mesmo! Onde você o arranjou?
- Acho que você está trabalhando demais, meu amigo. Vamos entrar; você anda com uns papos muito estranhos. Não reconhece o próprio cavalo. Vamos entrar e tomar um café....
- O que está acontecendo aqui? E o avião? E o taxi? O cavalo!... Espere! Eu quero que você me explique o que está havendo!
- Olha, eu não entendo nada do que você fala. Nunca vi um avião, muito menos um taxi. Acho que por hoje chega. Amanhã, a gente continua; vamos entrar.
- Continua? Continua o que?
- Você acha que estou louco, não é? Que tudo é uma grande brincadeira...
- O que você quer que eu pense? Que isto é sério? Que eu é que estou ficando louco? Ah, acho que vou precisar desse seu siri também. Onde encontro?
- Siri? Que siri?
- O siri, que tentou lhe matar.
- Siri? Que história é essa?
- Como que história é essa? Ora... você me contou agora há pouco! Foi na praia...
- Praia? Como praia? A praia fica a milhares de quilômetros daqui! Vamos entrar.
- Espere, e o cavalo chinês.
- Cavalo chinês?
- Agora chega! Você quer me enlouquecer! Esse... Cadê o cavalo?
- Eu não disse? Você ainda não está bem. Vai levar uns dias.
- Eu... é... não tem cavalo? Mas... tinha! Tinha um cavalo aqui! Eu tenho certeza absoluta! Eu vi! Para onde ele foi? Você o soltou, não foi?
- Não tem cavalo, não tem mar. Isto é passado. Vamos entrar! Amanhã, quem sabe...
- Amanhã? Como amanhã? Não estou entendendo nada!
- Ontem também não, mas hoje você está melhor...
- O que? Pelo amor de Deus me diga o que está acontecendo!
- Vamos... fique calmo!
- Espere! Já sei! O mar... É o mar do Japão? Da Coréia?
- Já tentamos esse caminho. Não funcionou. Isso às vezes é assim mesmo. Demora.
- Estou vendo tudo agora. Mar. Eu pensei em chinês e vi um cavalo. Agora entendi.
- Entendeu? Entendeu o que? Fala!
- Isto é um espelho. Eu nunca voltei da China. E eu já sei quem você é.
- Sabe mesmo? Quem sou eu?
- Eu lembro do siri! Bem de perto. Seus olhos levantados me encarando. Quando a onda veio ele sumiu entre as pedras. Eu não sentia mais a água; apenas o frio na cabeça. O sangue embaçava minha vista.
- Quase... Continue!
- Quando acordei, ela ainda estava lá, no alto, olhando para as minhas roupas presas nos corais. Acho que não eram apenas as roupas. Ela parecia triste, mas não chorava. Eu fiquei do seu lado; gritei no seu ouvido. Ela não ouviu! Ela só olhava para as roupas. Depois ele veio e levou-a embora.
- Até que enfim! Estava demorando! Faz dias que estamos esperando por você. Deu muito trabalho esse parto.
- Que bom estar aqui. E os outros?
- Parecem dias mas foram meses. Quase tudo já voltou ao normal. Mas sua mãe ainda sonha com siris que têm rosto de samurai.
- E ela?
- Ninguém desconfia da Marcela. Todos acham que foi um acidente, uma fatalidade.

(28 de janeiro de 2005)