29.1.05

Mapa mundi

Elefantes sob as ondas

Eram imaginários, os elefantes roxos. Eram imaginários, mas eram tudo o que interessava. Os elefantes cinzas eram reais, eram imediatos, mas ninguém queria sê-los. Eram o atraso. O mundo era dos elefantes roxos. O mundo era roxo, e imaginário, como tudo que é roxo. O mundo era certo, preciso, planejável, calculado. O roxo poderia ser decomposto, estudado. Quem não tinha convicção de que o roxo era toda a verdade, estudava, filosofava e pesquisava a sua essência, dividia seus componentes, extraia seus reflexos, elaborava teorias roxas para explicar a natureza do mundo cinza. O mundo cinza era duro. Era duro e incerto. Era duro, incerto e sujo. Sujo, porque não era previsível, porque não era certo, nem preciso, nem calculável. Era um território concreto, um chão, uma fundação. O mundo roxo era leve. E praticamente todos os educados, os elefantes, obviamente roxos, viam no mundo roxo o mundo completo, absoluto. Para eles, a vida tinha explicações, tinha regras, tinha caminhos definidos. A incerteza diminuía dia após dia. O mundo roxo era um mapa, mas era um mapa muito bom. Era um mapa perfeito, tão perfeito que os elefantes cinzas podiam ser ignorados o tempo todo. Quase. O fim, nunca era roxo. Era cinza mesmo. Não havia fim no mapa roxo. Suas teorias eram perfeitas. Eram previsíveis. O mundo cinza era imperfeito. Era sujo. E o fim era sempre sujo. Um dia, esse mundo cinza tremeu sob as águas profundas e o mar levantou-se sobre a terra. Os elefantes cinzas correram para o alto das colinas. Os elefantes roxos padeceram sob ondas cinzas de um mundo imperfeito, sujo. Ondas que não existiam nas letras precisas de seu mapa roxo.

28.1.05

Provas da invasão

Disco em chamas
Concepção artística da entrada do disco na atmosfera (ESA)
O último texto que eu publiquei neste blog não era um conto de ficção, mas aparentemente isto não ficou muito claro (poucas pessoas entenderam). É fácil desvendar o mistério seguindo os links. A foto é uma boa dica também, para quem tem acompanhado as notícias. O desenho ao lado não é uma foto, mas um desenho mostrando a bola de fogo que se formou em torno do disco. E que tal a foto abaixo, mostrando alguns alienígenas em volta da sonda há sete anos, antes de sua queda na atmosfera em 14 de janeiro de 2005? Alguma dúvida que a história seja real?

Alienígenas em volta do disco
Foto da ESA (Agência Espacial Européia)

Alienígena é quem não pertence a um certo lugar. Atmosfera não existe só na Terra. Eu simplesmente narrei a história como se fosse um observador residente em Titã, a maior lua do Sistema Solar, e não na Terra, como normalmente se faz. Titã é grande. É quase do tamanho de Marte e tem uma atmosfera, nuvens, montanhas, mares. Em Titã, os alienígenas são os terráqueos. O disco voador é a nave que os terráqueos chamaram de Huygens.

Saturno, Cassini, Huygens e Titã. Desenho da NASA.
Ela tem forma de disco e possui uma câmera (o olho) por onde tirou umas trezentas fotos, a maioria dos mesmos lugares. Uma das fotos da Huygens é a que ilustra o artigo anterior. As fotos pertencem à ESA (Agência Espacial Européia). A Huygens pousou na lama, próximo de um oceano de Titã, provavelmente composto de metano líquido. Água, em Titã, só existe em forma de gelo. Após o pouso, Huygens fotografou uma paisagem "marciana" onde aparecem várias pedras de gelo, mas suas baterias acabaram logo (bem antes que os habitantes de Titã chegassem para ver o que tinha ocorrido). A nave mãe chama-se Cassini e ela ainda está nas redondezas. Os humanos voltarão no futuro. É uma invasão.

21.1.05

A estrela cadente

Vista aérea de um litoral
Vista aérea do local da queda do OVNI. Foto: European Space Agency - ESA (retocada).

Há poucos dias, aconteceu um fato muito raro, que talvez, nunca tenha acontecido antes. No dia 14 de janeiro de 2005, um objeto voador não identificado atravessou a atmosfera como um meteoro, formando uma bola de fogo que rasgou o céu com um estrondo de trovão. O objeto foi localizado perto do mar, atolando-se na lama, entre pedras de gelo. Veja um relato da ocorrência.
Já escurecia, mas decidimos mesmo assim atravessar a baía e tentar descobrir o que havia caído na praia. A princípio pensei que fosse um meteorito. Cheguei a temer que caísse sobre nós, mas pouco depois que a bola de fogo apagou ela produziu uma fumaça esquisita e sumiu entre as nuvens. Foi levada pelo vento e caiu do outro lado da baía. Quando chegamos ao local da queda, já havia umas cem pessoas em volta do objeto. Era um disco metálico, redondo. Em um dos lados, tinha uma lente, como se fosse um olho. Se alguém me contasse, eu jamais acreditaria. Eu acredito porque vi tudo, desde o princípio. Se vem de outro planeta eu não sei. Acho que não. Eu não acredito em discos voadores.
Mas o fato é que era mesmo um disco voador. E trata-se mesmo de uma nave alienígena. Isto está comprovado1 . (Tudo bem, o relato acima eu inventei, mas todo o resto é verdade! Isto não é um conto de ficção2!) E tem mais: é provável que seja o início de uma invasão. Muito se acredita conhecer sobre a natureza desses alienígenas, seu planeta e sua história. Se eles não se destruírem antes (eles têm uma tendência crônica a auto-destruição), certamente retornarão a este mundo, que eles batizaram de filho do tempo3.

1A ESA (European Space Agency) e a NASA confirmam esta história. Visite os sites ESA e NASA.
2Eu estou falando sério. Se você não entendeu, considere que a história pode não estar sendo narrada a partir do mesmo ponto do espaço no qual você está lendo. Se você acha que é fantasia, veja a reportagem da Folha.
3Para os gregos, Tempo chamava-se Chronos; para os romanos era Saturno. Os titãs eram filhos de Saturno.

8.1.05

Soneto de Iracema

Praia de Iracema, Fortaleza, CE

Ele veio como onda no mar
Percorrendo as curvas, espumantes
Lambendo suas costas ao chegar
Rolando como o vento dos amantes

Voltou à vida dela de repente
Intenso, misterioso, surgiu
Depois de sete anos, diferente
Deixou-se seduzir, e seduziu

No verso do poeta florentino
Seu desejo de luxúria ardia
Por Helena, em louco desatino

Acordou Elizabeth que dormia
E propagou o seu fogo divino
Nos corpos nus até nascer o dia.

(São Paulo, 7 de abril de 2000.)

5.1.05

Como encontrar Saturno

Saturno fotografado usando webcam através de telescópio refletor - aumento de aprox. 60x
Em um artigo passado, prometi escrever um guia sobre como achar o planeta Saturno. Agora é a melhor época. Numa noite sem nuvens, mesmo no meio das luzes de uma cidade como São Paulo, é possível localizar a olho nu e até ver alguns detalhes do planeta (usando um bom binóculo). Neste mês Saturno nasce pouco depois do pôr do Sol, portanto é visível a noite inteira. Próximo da meia-noite, está no Zênite, então basta olhar para cima para encontrá-lo sem querer. Mas como distingui-lo dentre as outras estrelas?

Os planetas são relativamente fáceis de distinguir de estrelas porque geralmente brilham mais e não piscam. Vênus e Júpiter são os pontos mais brilhantes da noite depois da Lua. O primeiro, a "Estrela d'Alva"está aparecendo pouco antes do amanhecer. Júpiter nasce por volta das duas da madrugada (horário de Brasília). Saturno tem um brilho semelhante às estrelas mais brilhantes. Com uma cor levemente amarelada, é fácil de encontrar se você souber onde procurar.

O primeiro passo é saber localizar-se no céu. Este mês podemos partir de uma das constelações mais conhecidas, a constelação de Órion, que possui três estrelas popularmente conhecidas como "As Três Marias". Para quem nunca tentou se localizar no céu, achar as três marias é o melhor ponto de partida. Órion nasce no nordeste pouco antes do pôr do Sol e perto da meia-noite está no Zênite. Distinguir as três marias de outros grupos de três estrelas é questão de prática e paciência (não tente descobrir tudo em cinco minutos). Depois que se acha uma vez, será difícil esquecer. Depois que achar as três marias, localize também as estrelas em volta. Traçando uma linha a partir das três marias é possível achar Sirius, que é a estrela mais brilhante. Veja o desenho (e tente achá-lo no céu).

Localização da constelação de Órion
Localização da constelação de Órion. No início da noite, olhe para o nordeste. Perto da meia noite, olhe para cima.

Uma vez encontrada a constelação de Órion, podemos agora procurar por Saturno, que está bem próximo das duas mais brilhantes estrelas da constelação de Gêmeos. Não é preciso saber desenhar Gêmeos no céu, mas é fácil localizar Castor e Pollux e outras duas estrelas brilhantes que estão alinhadas em um pequeno arco. Imagine uma linha que passa pelas duas estrelas de Órion mostradas no desenho abaixo. A linha passará entre duas estrelas. Uma delas é Procyon, e a outra não é estrela. É Saturno! Se você prestar atenção verá que ele não pisca (ou pisca menos) e que tem um tom levemente amarelado.

Localizando Gêmeos e Saturno a partir de Órion
Localizando Gêmeos e Saturno a partir de Órion. Saturno está se movendo em relação às estrelas, portanto este mapa tem prazo de validade.

É isso. Achamos Saturno! Não acredita? Uma boa forma de tirar a dúvida é usar um binóculo. Usando um binóculo 7x50 ou 10x50 (5 cm de abertura por 7 ou 10 vezes de aumento) qualquer já é possível ver alguma coisa. Nos piores binóculos é possível ver um ponto oval, maior que as estrelas em volta (estrelas não são ampliadas). Usando um binóculo de boa qualidade ótica, e com um pouco de paciência (para acostumar a vista) é possível ver um pouco mais.

Visão simulada de Saturno visto com um binóculo de 10x de aumento e abertura 50 e ótica de boa qualidade. O pontinho acima é Titã
Saturno visto com um binóculo de 10x de aumento e abertura 50 (e ótica de boa qualidade) numa noite sem nuvens.

Há algum tempo eu comecei a escrever um guia para quem quisesse aprender as constelações. Não é preciso ter binóculo, telescópio ou qualquer instrumento, apenas disposição de passar algumas horas olhando para o céu. Eu nunca terminei o guia, mas a maior parte dos slides em PowerPoint que eu usei foram disponibilizados para download no meu site na seção de astronomia. Os slides falam não somente da astronomia, mas também dos mitos por trás dos nomes das constelações.