22.12.05

O retorno



Quem é você? O que você quer a esta hora? Francisco! É você mesmo! Desculpe, não vi. Está tão escuro. Não fique aqui em pé na porta. Entre por favor! Por onde você andou esses dias todos? Será que é você mesmo? Acho que nem você sabe direito. Esta casa esteve vazia por muito tempo e eu achava que você não voltaria mais por isto eu ocupei o seu quarto e dei as suas coisas. Mas se você quiser eu o desocupo e vou atrás de suas coisas. Desculpe-me se eu realmente achava que você não iria voltar mais. Você saiu sem dizer nada, sem deixar bilhete, sem aviso. Não vou perguntar porque você partiu. Foi duro no início mas depois aprendemos a viver sem você. Agora você reaparece e me olha mudo com um olhar de morto e eu também não sei o que dizer. Não tenho coragem de lhe tocar. Você era nosso sangue mas agora é quase um estranho. O tempo deve ter mudado seu sangue. Você ainda gosta de fava com rapadura? Eu posso fazer hoje no almoço. Faz tempo que eu não cozinho, mas hoje eu abro uma exceção. Os meninos vêm almoçar mais tarde. Você não fala. Você só olha. Os olhos são os mesmos, mas a pele está tão dura. Parece carvão. É você mesmo? E esse cheiro de fumaça, de queimado? Você não parece a mesma pessoa que deixou este lugar naquela tarde de chuva. Pensando bem, talvez seja. Você saiu e não me chamou de Nanita nem beijou as crianças. Você já não era mais você. Você já sabia para onde ia, não é Francisco? Será que esse ainda é o seu nome? Talvez não importe mais. Seus cabelos estão brancos. Sua pele está rachada, que nem a minha. Seus olhos parecem os mesmos, mas o mundo é outro. Talvez o mundo que seus olhos estão vendo seja o mesmo de vinte anos atrás, Francisco, mas o meu mundo é outro. Meu tempo é outro. As crianças não são mais crianças e os outros já se foram. E você não fala nada. Só me olha como se eu fosse uma estátua falante. Você está morto, Francisco, acorda! Por que não volta ao seu caixão? Por que não se mexe? Não, eu não me casei de novo. Poderia ter casado. Deveria. Teria sido mais feliz. A vida ficou muito dura e tive que cuidar das crianças. A vida ficou muito seca. Tango ainda esperava por você toda noite. Sentava do lado da porta e balançava o rabo quando dava dez horas. Fez isto até morrer. Já faz tanto tempo! Mas agora a vida está voltando, Francisco. Você vai ser avô. Não sei se isto faz diferença. O avô é o morto que está naquele retrato. É o único retrato seu que eu tenho. Se não fosse ele eu não lembraria mais do seu rosto. E se ele não for mais você é melhor nem ficar. Vai só atrapalhar. Você não vai falar nada? Eu estou começando a duvidar que você existe, Francisco. Se eu fechar os olhos e abrir de novo será que você vai estar aqui, me olhando, com esse olhar de pedra? O dia está clareando e está frio. Você não quer entrar? Não é bom ficar aqui no sereno. Ninguém vai reconhecê-lo. Os meninos não moram mais aqui. Vivo sozinha. Seu rosto está tão pálido, Francisco. Você está fugindo de novo? Não faça isto, por favor! Por que você veio se vai fugir outra vez? Poderia pelo menos ter entrado, seu velho chato! Fiquei aqui esse tempo todo conversando com um fantasma. Por que? E agora você desaparece como fumaça. Parece que reflete fogo. Você está no inferno, Francisco? Meu Deus do céu a casa está pegando fogo! Ai! Valha me Deus, esta velha louca estava falando sozinha com um fantasma de fumaça! Você me acordou para buscar o resto da sua fumaça, Francisco? Foi isto? Ai, que dor! Minha casa! Você não quis que me levar junto seu cretino! Onde está você, desgraçado? Não dá mais para salvar sua foto. Ela já virou cinzas. Como vou lembrar do seu rosto, Francisco? Os vizinhos estão chegando. Tenho que parar de chorar. Vá embora, Francisco! Se você ficar vou continuar falando com você e vão achar que eu fiquei gagá. A casa era sua. Sempre foi. Você tinha o direito de levá-la embora. Desculpe-me por ter dado as suas coisas e por ter ocupado o seu quarto. Prometo não contar nada a seus netos. Não se preocupe comigo. Seus filhos me darão abrigo. Você está perdoado. Adeus Francisco.

8 comentários:

Alessandra disse...

É uma linda história, com os enigmas, a tristeza e a loucura que estão escondidas nas boas histórias. É meio Mozart, meio Poe, meio Shyamalan. Gostei.

Taty Anna disse...

Oies,
Ainda nem li o teu blog, passei para dizer que adorei o " ghost writer que psicografa as idéias alheias" que você escreveu no blog do Xicó.


Pois é...
Eu vejo gente morta que rouba idéias alheias.

Que triste!!!!

Taty Anna disse...

Xicó= Xico sá.

Eu o apelidei assim por ser mais fofo.

:D

Taty Anna disse...

Ah, e desculpe-me pela invasão...
Eu e esta mania de comentar em blog de gente que não conheço.

xico sá disse...

rapaz, belo texto. assim vai chover maria-teclado. muito boa a historia do texto ghost para enlouquecer musas falsas!
abraxxxx

Vanessa Morelli disse...

que saudades, Helder!
UMA SEMANA!!! Apenas UMA semana!! E já sinto deficiência e angústia por estar tão longe do meu destino.
Minha vida é andar por este país, guardando recordações, de peças que apresentei rssssss
hahaha beijinhos até mais!!

Julliana Veloso disse...

Foi um post psicografado, aquele no meu blog, não ? Sempre leonino, Hélder :)
Como vc está?
Houve um surto do blogspot e aí eu perdi todo meu conteúdo. MAs das coisas que tinha salvas em word, resolvi postar e pedir "um minuto" da atenção dos traseuntes da net.

Fui bem sucedida? Feliz Ano Novo por estas bandas de Campina! Abços em Herlon. Garoto prodígio :D

Julliana Veloso disse...

q mistério... meu posto n aparece...

oxe.