20.12.05

Água parada



- Ela foi embora e não me avisou.

- Mas ela esteve aqui o tempo todo. Você sabia que ela iria embora.

- Mas não assim, de repente, sem avisar. Todos os dias ela estava aqui, olhando o mar. Será que ainda dá para alcançá-la?

- Agora? Talvez dê, mas vai ser muito mais difícil. Os riscos serão bem maiores. Mas vá! Você tem chances.

- Eu não sei se entro neste.

- Entre, pois pode ser que nunca mais passe outro. O mar está ficando revolto. Talvez chova.

- E se não der certo?

- É um risco, mas se você ficar aqui pensando, nunca vai dar certo. Antes o risco era menor, mas você não quis enfrentá-lo. Agora ele aumentou. Você vai precisar de mais coragem.

- Eu vou deixar para pegar o próximo barco. Talvez venha um maior e mais veloz.

- Está com medo?

- Não.

- Então qual é o problema?

- Não sei... ficou muito mais difícil. Não estava preparado para tomar essa decisão. Da forma como estava antes era tudo mais simples. Não sei como vou justificar.

- Justificar? O que há para justificar? Alguém justificou o mundo para você?

- Seria uma decisão inesperada e repentina.

- Assim como a partida dela foi inesperada.

- Fiz tantos planos, e tudo estava indo tão bem.

- E deixou as escolhas mais difíceis para o final. Agora as condições mudaram. Seus planos não mudam? Eles têm que mudar rápido. Se pensar demais as condições irão mudar de novo. Olhe só, já começou a chover.

- Não posso voltar. É o que eu sempre quis. Tenho que ir atrás dela.

- Será que era mesmo o que você sempre quis? O que você estava fazendo este tempo todo? Como é que você não percebeu que ela estava escapando?

- Não sei. Ela estava sempre lá.

- Estamos todos sempre escapando, mas vivemos nos iludindo achando que temos tudo sob controle. Por que você não falou, por que você não perguntou, por que você não entrou no barco na hora em que ele estava aqui parado?

- Achei que poderia viver as duas vidas. Não queria perder esta, mas também não queria perder a outra. Agora sinto como se tivesse perdido as duas.

- É sempre melhor correr os riscos o quanto antes. A vida só acontece porque a qualquer momento se pode morrer. O medo tem que ser enfrentado sem pensar. Se você fugir ele só cresce.

- Mas não era medo.

- Era medo sim. Medo de escolher um caminho irreversível. O mundo é irreversível. A vida é irreversível. Se você não escolhe seus caminhos, você vai ter que aceitar os caminhos que lhe restarem. Você perdeu o caminho mais fácil, mas ainda existem outros.

- A chuva está aumentando.

- Mas vem vindo um barco. Deve ser o último.

- Talvez seja melhor esperar a chuva passar.

- Talvez. Se você pegar este barco talvez possa alcançá-la.

- Você acha que devo?

- Não sei. A vida é sua. Faça o que você desejar. Eu vou ter que embarcar neste.

- Por que?

- Sempre sonhei em navegar pelo mundo, mas nunca tive a coragem de comprometer-me com um desses barcos. Teria sido tão fácil embarcar no primeiro, mas achei que ainda não era a hora. Nunca foi a hora. Sempre teria sido. Ela chegou.

- Ela quem?

- Eu vou ter que ir.

- Mas quem é ela?

- Ela é o caminho irreversível que me resta.

- A chuva está muito forte. Espere até amanhã e pegaremos o primeiro barco juntos.

- Não posso mais. Não tenho mais escolha. Mas eu estou aliviado.

- Você vai morrer?

- Não. Eu não vou morrer porque já morri há muito tempo. Você está morto quando você não tem mais como arriscar perder a própria vida. Depois que eu morri, tive que ficar aqui, esperando ela chegar. Ela demorou muito.

- E agora ela está chegando.

- Ainda bem. Quando eu nasci, eu era nascente. Cresci e tornei-me um lago. À medida em que eu crescia, formavam-se rios que levavam minha água para o mar. Um dia, depois de uma longa seca, tive medo da morte. Muito medo. Temia que os rios levassem toda a minha água embora para o mar. Então fechei-me e não deixei que novos rios se formassem. Sem rios, minha água movia-se em calmas ondas sem crises e sem violência. As tempestades diminuíram, as chuvas ficaram mais raras, até que um dia cessaram e minha água parou. Foi nesse dia que eu descobri que havia morrido. Em minha volta nasceu um deserto e comecei a evaporar lentamente.

- O cais está deserto. Não há mais ninguém aqui.

- Mas você ainda tem chance. O próximo barco é uma pequena canoa e o mar está muito agitado. Vai ser uma aventura, mas não fique aqui esperando. Vale a pena correr o risco. Corra atrás dela e não tenha medo. Ela vai voltar mais cedo ou mais tarde, mas pode demorar muito.

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