21.12.05

Desfragmentação


Flávio Barros (óleo sobre tela, João Pessoa, PB)

O gancho não engancha no próximo. A idéia não se fixa. Não tem estrutura. O texto dissolve-se e seu rumo é incerto. A humanidade simplesmente segue. Os pilares se pulverizam e nem as ruínas restam. Surge outra coisa mas não dá tempo entendê-la. Os autores são muitos e todos valorizam partes diferentes. Isto é uma teoria para explicar o problema, mas temo que o problema seja mais sério. Acho que o autor é um só e não tem capacidade para manter todas as suas partes juntas. Também não sei se faz tanta diferença. O carro entrou no teatro e pisou no prego. Era um prego de borracha mas me furou mesmo assim. Fiquei seco. Ela estava lá, rolando sobre um canteiro da praça, aos beijos e abraços com um desconhecido. Havia festa em torno do teatro. Nós éramos nada. Nós éramos fragmentos de vento. Espalhados. Mostraram-me uma planta composta de coisas, coisas comuns, coisas do dia-a-dia. Ganchos, bengalas e outras coisas das quais eu não mais me lembro. Era algo inútil, como as histórias, como os caminhos, como os projetos, como os pilares. Uma coisa que mistura as coisas do mundo. A mala estava cheia de pregos e outras coisas. Hoje há mil coisas a fazer. Mas ninguém deve nada a ninguém. As relações estão fragmentadas. As ligações são de teia de aranha, e a aranha estava anêmica. São frágeis. O telefone toca de madrugada. A ligação é frágil e cai. Escorrego sobre um chão de giletes. O sangue é frio e quente. Ainda estou fragmentado. As linhas estão todas soltas sem um nó sequer. Não sei como imaginei que poderia ligá-las; desfragmentá-las. Tudo era sono. O tempo era um sopro e o Universo um ponto em cima de um grão de areia qualquer que escapuliu e caiu da minha janela.

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