11.10.05

Viagens no tempo e o espaço



(Duas pessoas de sexo indefinido sentadas numa praça, urbana, daqui a duzentos anos, talvez menos, talvez mais; acabaram de tomar drogas alucinógenas diferentes.)

URAN – Ela não tem limites. É uma singularidade no sistema. Não sei o que houve. Os códigos foram corrompidos e realimentados. O sistema entrou em colapso e começou a devorar os blocos vizinhos.

KRON – Dilatou o tempo. Eu já consigo ver as árvores, e a igreja?

URAN – Igreja?

KRON – Sim... parece uma igreja... ali onde fica a torre.

URAN – Eu quero provar este... quero ver a igreja...

KRON – Não foi o que combinamos... hoje o tempo é meu... eu também vou querer provar o seu, mas não hoje...

URAN – Eu não estou sentindo nada...

KRON – É que demora mais para fazer efeito... essa visão dos códigos e singularidades eu não tive... deve ser a sua fazendo efeito.

URAN – É... pode ser... era para dilatar o espaço... não estou vendo nada disso...

KRON – Tem gente... muita gente... tem luzes... a claridade dói.

URAN – Está formando uma espiral... (perde o equilíbrio e quase escorrega) vou cair...

KRON – Ai... (cobrindo os olhos) ... ai! (levantando-se) Fiquei cego! (desesperado, põe a mão nos olhos) Não!! (chora) Não!

URAN – Fique calmo, seu idiota... Sente-se (puxa Kron para o banco)... é o efeito... nossa... como você ficou pequeno... está sumindo... que louco...

KRON – Era a luz... agora estou vendo de novo... o dia é muito claro; eu só tolero as luzes da noite.

URAN – Eu só não estou gostando desse zumbido nos meus ouvidos... está ficando insuportável... ai... lá vem outro redemoinho... (põe as mãos na cabeça e quer gritar... cai no chão em posição fetal e tem convulsões).

KRON (com o olhar vesgo... delirante) – Pessoas... muitas pessoas... eu quero pegar (tenta levantar-se para pegar algo)... passarinhos... (ri, como um idiota)... isso são o que? (confuso) … Uran, isso são carros? (assusta-se) Ele vai me pegar… Aaaii!! (cai, como se tivesse sido atropelado).

URAN (levantando-se) – Nossa... (ri) ... o mundo está girando... como é boa essa sensação de queda... (cambaleia e cai novamente) O que foi que você disse, Kron?

KRON (imóvel, falando com voz grogue) – Eu vou morrer...

URAN – Deixa disso... nossa... que tesão... vou gozar...

KRON – Que dor...

URAN (gozando) – Ah... ah... eu vou morrer de tesão... ai...

KRON (levantando-se, cego) – Está tudo escuro... Uran... onde está você?

URAN (saciado, sorrindo) – Aaahhh...

KRON (grita) – Uran!!

URAN (baixo) – Estou aqui... ah... fui tragado pelo buraco negro... (ri) renasci num Big Bang... Eu sou o todo... sou o Universo... (sente uma pontada de dor ou prazer) ai...

KRON (desesperado) – Uran... eu não estou vendo nada... o tempo não passa... não passa... Uran, faça alguma coisa...

URAN – O que você quer que eu faça, meu filho? Eu não estou mais no seu universo... eu comi o seu universo... (sempre feliz, rindo) isso aqui é muuito louco... muito louco... nossa... quantas cópias de mim... (ri) que engraçado... sou infinitos...U-hu!

KRON (chorando) – Uraaan! Não me deixe sozinho... (chora até ficar sem ar) Eu não sei onde estou... Eu não consigo me tocar... eu não existo mais... Uraaan!

URAN – Calma, calma... logo, logo vai passar... tenha calma... curta a inexistência, meu... ah, se o tempo não passasse...

KRON – Eu não quero... quero sair... eu quero falar!...

URAN – Ora... eu estou lhe ouvindo... ah... que delícia... lá vem outro buraco negro...

KRON – Mas... não sou eu! O pensamento não é meu! Eu não consigo pensar o que eu quero... Eu não sei onde estou... (arrastando-se, cego) eu não penso, eu não existo...

URAN – Ai... este está queimando...

KRON (chora) – Eu sou o nada!

URAN – Ai, ai, ai... (grita) a..a..a...aaaiii!!! (cai e entra em convulsão violenta, revira os olhos, bate a cabeça) Ah... ah...

KRON – Achei um... peguei! Peguei!

URAN (em transe) – Ur...

KRON (grita, mas sem terror) – Aaa.... estou caindo! Eu vou girar mais rápido...

(Uran treme como se em febre intensa. Kron tenta levantar-se, mas escorrega)

KRON (tonto) – E...eu... n...não... p...páro... d...de g...gi...raaar.... (som de hélice girando cada vez mais rápido até virar um apito estridente... Kron levanta-se... tapa os ouvidos e grita sem fazer som.)

(Kron cai no chão. O som pára. Transforma-se em um tic-tac de relógio...)

URAN (exausto) – Morri...

KRON – Eu sonhei que você tinha me devorado...

(pausa)

URAN (levantando-se) – Que dor de cabeça... que ressaca...

KRON – Como foi rápido...

URAN (restabelecendo-se) – Pois é... hoje em dia essas coisas não duram...

KRON – É melhor a gente ir embora... daqui a pouco vão nos achar...

URAN – Não... acham não... aqui é o fim do mundo... aqui ninguém acha ninguém.

Um comentário:

Anônimo disse...

Oxe ...


SóOOo sei q nada sei!