10.10.05

Um encontro



(Dois homens chegam e sentam-se em um banco de praça urbana, semi-deserta e abandonada. Talvez daqui a duzentos anos, talvez mais, talvez menos)

PIX – Como é que você tem certeza que aqui é seguro.

SET – Eu vi ontem, na rede... o cara que foi pego aqui. Fazia dias que ele perambulava por aqui e ninguém percebeu...

PIX – Sim, mas pegaram ele.

SET – Pegaram por azar... ele pegou no sono e deu conflito com a freqüência de sincronização.

PIX – Ainda não estou seguro... tem guardas lá do outro lado, olhe...

SET – Sim, mas eles são autômatos. Você não viu aquela louca? Faz dias que ela não saía daqui. Pegaram ela e deixaram lá, deitada... nem se preocuparam em levá-la embora.

PIX – E as câmeras? Você disse que elas estariam desligadas, mas elas se movem...

SET – Eu disse que elas foram adulteradas, é diferente… Se elas tivessem desligadas aí sim seria um problema pois isto seria registrado e eles viriam consertar. Adulteradas, elas perdem os dados... não há risco... vão demorar um tempão para descobrir, isto se tiverem interesse. Eles abandonaram isto aqui, por isso é que é seguro.

PIX – E os insetos? Se formos picados por insetos não temos seguro...

SET (irônico) – Insetos? Ficou louco? Quem lhe contou isto? Se houvesse animais vivos por aqui isso tava lotado de gente... Inseto vivo vale ouro. É mais fácil ser contaminado por nanobots...

PIX (assustado) – Aqui tem nanobots?

SET – Não... acho que não.

PIX – Quando eu era criança eu tinha vontade de conhecer este lugar... mas tinha medo... minha mãe dizia que era um lugar muito perigoso...

SET – Você tinha mãe, Pix?

PIX – N... não... quis dizer...

SET – Pode falar... eu não tenho nada contra...

PIX – Eu tenho vergonha...

SET – Não se preocupe... eu não ligo, já disse...

PIX (com medo) – Se a gente morrer aqui ninguém vai saber...

SET – Não vai... isto não é fantástico? Você entra aqui e o sistema ignora que você existe...

PIX – Nem tanto... ele percebe sua falta...

SET – Percebe, mas é só não ficar aqui tempo demais, por isso que precisamos de objetividade!

PIX – A gente pode falar de tudo, aqui? Qualquer coisa?

SET – Sim, mas não use termos técnicos ou vocabulário underground... eu não confio nesses filtros. Eles conhecem os codinomes.

PIX (distraindo-se) – Veja, o que é aquilo?

SET – É um cachorro.

PIX – De verdade? Eu nunca vi um… o que ele está fazendo?

SET – Claro que não... é sincronizado. Pra começar, se fosse de verdade não agüentaria a aridez... Mas vamos ao que interessa. Temos pouco tempo. O contato que você me conseguiu não tinha passes, mas eu consegui 12 mil códigos. Todos limpos e livres de qualquer suspeita!

PIX – Doze mil? É muito... e se tiver vírus no meio?

SET – Não fale vírus...

PIX – Hã? ... desculpe... mas não é termo underground...

SET – Sei lá... parece... pode ser que peguem...

PIX – Dá para aproveitar quantos?

SET – Talvez uns 20. Eu consigo testar dois mil em uma hora... Preciso de seis horas... Estão prevendo uma tempestade elétrica para os próximos dias... talvez seja suficiente.

PIX – Vinte! E se tiver...

SET – Não tem! É limpo... Peguei de uma mesquita...

PIX – Ah... A gente fica com os vinte?

SET – Não, tenho que pagar metade para os caras... mas não preciso informar as identidades. Dá pra usar cinco dias seguidos ou uns 30 avulsos, talvez mais se a gente não se expor demais. Aqui levaram dez dias para descobrir um conflito de identidade. É só não pegar o metrô e ficar longe do distrito árabe. E você está me devendo um, então vou lhe passar quatro.

PIX – Certo.

SET – Agora não pense mais nesse assunto. Tome uma dose de Nepenthe ou Lethe quando sair daqui e ligue o sincronizador para voltar daqui a três dias.

PIX – E agora?

SET – Agora você pode ir.

(pausa)

PIX – Você não vai?

SET – Não.

PIX – Por que?

SET –... porque... eu estou esperando alguém.

PIX – Quem?

SET – … uma pessoa… não tem nada a ver com o que a gente falou.

PIX – Posso ficar?

SET – Não... é um assunto particular.

PIX – Eu não gosto disso...

SET – Veja... pegue (entrega dois adesivos) ... vá... pegue!

PIX – Eu não quero esquecer...

SET – Você ficou maluco? Se você sair daqui com essas informações, vão lhe matar... Tome seu Nepenthe agora!

PIX – Não... você vai me denunciar...

SET – Por que diabos eu ia denunciar você? Ficou louco? Você não confia em mim, Pix? Eu fiz a cortesia de dividir isto com você, e agora você acha que eu vou denunciar você...

PIX – Quem é que você vai encontrar?

SET – Uma amiga...

PIX – Quem?

SET – Você não conhece... é uma prestadora de serviços... decidi aproveitar e me divertir um pouco, já que vim até aqui e não serei detectado até o fim do dia.

PIX – V... você vai... vai fazer...

SET – Sim, vou!

PIX (contrariado) – Mas... p... por que?

SET – O que é que você tem, Pix? Eu não tenho muito tempo... Vá... tome logo esse Nepenthe... (descasca o adesivo e tenta colocá-lo no braço do Pix, que se levanta assustado. Set levanta-se e o agarra violentamente... para evitar que ele fuja) Veja bem, Pix... (nervoso) você está alterado... se continuar assim, vai colocar em risco a minha vida, e a sua também... entendeu? Eu não vou deixar você sair daqui... tem nanobots na sua mão. (solta Pix) Se você se afastar sem tomar esse Nepenthe, eu aciono...

PIX (quase chorando) – É mentira... se você acionar eles vão nos descobrir...

SET (tranquilamente) – Mas antes disso você morre e eu dou o fora.

PIX (desespera-se e chora) –Pensei que você gostasse de mim... você é cruel...

SET – Pix, Pix... meu caro Pix... você está mal, hein?... (aproximando-se dele) Olha só... era brincadeira, não tem nanobots... mas é melhor você passar uns dias na cidade e recarregar; você não vai durar muito desse jeito.

(Pix tenta abraçar Set desesperadamente, que o repele)

SET – O que é isso... (empurra-o) Sai! Sai! Você ficou louco?

PIX (implorando) – Não me deixe... por favor... fique comigo...

SET – Eu não vou lhe deixar... de onde você tirou essa idéia?

PIX – Você vai... você vai fazer... (chora)

SET – Vou... mas não é nada demais... Mais tarde nos encontraremos... Tome seu Nepenthe que tudo vai dar certo (tira uma ampola e uma seringa do bolso; prepara sem que Pix veja).

PIX (parando de chorar) – Eu não vou... vou fic...

(Set agarra Pix por trás, que começa a gritar... cobre sua boca e aplica-lhe a injeção entorpecente... ele reage, esperneia, grita, derruba Set e tenta fugir, mas logo começa a enfraquecer e cai sentado.)

SET (depois de um momento) – E então, Pix, como estão as coisas?...

PIX (ri como criança) – He... hehe.... legal, ... he... eu quero mais...

SET – Me dê sua mão, Pix... tenho um presente pra você

PIX – Um presente?

SET – Sim... me dê a mão...

(Pix dá a mão. Set descasca um adesivo de Nepenthe e cola na mão dele. Pix ri.)

PIX – P... presente... (ri)

SET – Bom menino... Você sabe ir para casa, daqui, Pix?

PIX – Hmmm... s...s... sei não...

SET – Eu vou lhe ensinar... venha cá... Está vendo aqueles homens de branco, ali...

PIX (rindo, como um idiota) – He... hehe...

SET – Ótimo... vá até eles, e pergunte como chegar em casa, e eles vão levá-lo... Vá... Diga que você se perdeu da sua mamãe... Eles são legais; não tenha medo, Pix... Vão lhe mostrar o caminho...

PIX – He... he... obrigado! Então eu vou pra casa... pra casa!... Você é um homem legal...

SET – Vá sim, Pix... qualquer dia nos veremos de novo... tchau!

PIX – Tchau...

(Pix fica em dúvida sobre para que lado ir; Set levanta-se para mostrar-lhe o caminho e ele sai de cena).

Nenhum comentário: