12.10.05

Metamorfoses



(Duas mulheres jovens chegam e sentam-se num banco de uma praça urbana, daqui a uns 200 anos, talvez mais, talvez menos.)

TIREZA – Aqui não tem perigo... ele não vai conseguir rastrear.

GAIA – Eu tenho medo.

TIREZA – Não, não vai não... Isso foi tudo raqueado... os caras detonaram o sistema. Daqui só sai ruído, e eles nem ligam muito... É uma praça esquecida.

GAIA – Eu não agüento mais essa situação... não posso mais ficar fingindo ser quem eu não sou. Quero voltar à minha vida normal, quero esquecer tudo...

TIREZA – Quer mesmo? Duvido!

GAIA – Quero! Eu cheguei no meu limite... queria esquecer tudo e voltar a ser como os outros.

TIREZA – É patético ouvir isso... mas eu não tenho uma boa notícia para você... Não tem como! Não tem como voltar no tempo... Você não vai conseguir viver na farsa... Memória não se apaga. Essas drogas todas mexem com a memória, vão deixá-la louca, mas não vão resolver o seu problema. Você tem que enfrentá-lo.

GAIA – Mas como? Eu não agüento mais isso. Ele me obriga a ler aquele livro todas as noites... Já sei um monte de trechos decorados... A consciência dessa vida vai me deixar louca...

TIREZA – Eu já disse... caia fora!

GAIA – Não posso...

TIREZA – Pode sim... tenha coragem.

GAIA – Não posso... ele vai me achar... Não existe nenhum lugar para onde eu possa ir... Já pensei em trocar de identidade de novo, mas hoje em dia eles rastreiam tudo...

TIREZA – Você pode entrar com um processo... você não é obrigada a seguir a religião dele; isto justificaria proteção caso você quisesse pular fora.

GAIA – Não ia funcionar... ele tem poder... eu desconfio que ele sabe que eu não sou inocente... já pensei em tudo; comprar uma identidade, escapar da cidade...

TIREZA – Trocar de sexo?

GAIA – Não.

TIREZA – É uma opção... e é perfeitamente legal. Aliás, é a única forma legal de mudar de identidade, e se você conseguir comprar uma identidade e trocar de sexo com ela, ele não vai te achar de jeito nenhum...

GAIA – Mas eu não quero trocar de sexo...

TIREZA – Não é traumático... além do mais, é reversível...

GAIA – Não... eu não me sinto homem...

TIREZA – É só temporário! Você não precisa mudar de sexo para sempre... Depois de um tempo, quando você não aparecer mais nos registros, você arranja uma identidade e faz o caminho inverso?

GAIA – Mas... isso não é complicado?

TIREZA – Não... hormônios, células-tronco, regeneração, próteses cultivadas... não tem nada de metal, nada elétrico... tudo orgânico. A cirurgia é rápida e tem uma comunidade virtual onde você consegue um código de autorização e liberação para a cirurgia.

GAIA – Como você sabe tudo isto? ... eu não tenho dinheiro...

TIREZA – A chave de liberação inclui autorização de pagamento.

GAIA – É de graça? Eu sempre pensei que essas cirurgias custassem uma fortuna...

TIREZA – Não... não é de graça, várias pessoas pagam... nós desviamos dinheiro de suas contas... pequenas quantidades e ninguém percebe.

GAIA (assustada) – Nós? … Você está envolvida com isto?

TIREZA – Não exatamente...

GAIA – Mas como você sabe de tudo isto? Você tem ligações com os terroristas digitais...

TIREZA – Você está invertendo as coisas... pensei que ele fosse o terrorista...

GAIA – Não tem nada a ver... eu não gosto dele, mas ele não é terrorista... só porque é religioso vocês sempre pensam que é terrorista. Se for olhar por esse lado, eu sou mais delinqüente que ele... eu sei coisas que ele não sabe...

TIREZA – Mas ele está no controle do seu mundo... (silêncio) Mas e aí?

GAIA – Não sei... quais os riscos?

TIREZA – Você vai ter que voltar a tomar os sincronizadores, por uns três dias... moderadamente... você não vai perder a noção das coisas, mas vai ficar mais à vontade; troca de identidade é só uma reação química... não tem nenhum efeito colateral... só faz mudar a freqüência que seu cérebro irradia para fora, mas não afeta nada internamente. A cirurgia dura cinco minutos e faz efeito em duas horas.

GAIA – E depois?

TIREZA – Depois você pode curtir a vida como homem, e estará livre dele para sempre.

GAIA – Não tem mesmo como rastrear?

TIREZA – Não.

GAIA – Eu não sei... eu tenho medo.

TIREZA – De que ele te ache?

GAIA – Não... de ser homem… eu não sei se é isso que quero... não sei se vale a pena...

TIREZA – Eu já fiz duas vezes...

GAIA – Como assim? Você era homem?

TIREZA – Fui... por um tempo... mas eu nasci mulher.

GAIA – Mas... você é linda... perfeita...

TIREZA – Só troquei de sexo, não de corpo... além do mais, voltei a ser mulher...

GAIA – Por que? … Você não gostou de ser homem?

TIREZA – Não foi isso... fui homem durante sete meses... foi até divertido.

GAIA – E por que você voltou a ser mulher?

TIREZA – Passou... enjoei... não me sentia mais homem... comecei a ficar com nojo de mim mesma...

GAIA – Então porque você decidiu ser homem na primeira vez?

TIREZA – Não quis...

GAIA – Não?

TIREZA – Tive que fugir de um homem que dizia ser meu pai...

GAIA – Que louco! Mas... porque você teve que fugir, e não ele?

TIREZA – Você ainda acha que esse mundo é justo, não é mesmo? O poder não evoluiu através dos tempos... continua do mesmo jeito... quem é amigo do rei, está sempre por cima... Nós sabemos de tudo mas eles continuam no controle... é uma merda. Você é prova disso...

GAIA – Quando começamos?

TIREZA (distraída) – O que?

GAIA – Eu quero ser homem…

TIREZA – Bem... (confusa) eu tenho que ver se os meus contatos estão atualizados...

GAIA – Então veja! (eufórica) Veja logo! Qual é o endereço do lugar?

TIREZA – Não lembro... vou ter que pesquisar... o símbolo é um ícone com duas cobras...

GAIA (confiante) – Eu vou matá-lo!

TIREZA – O que?

GAIA (valente) – Um homem vai matá-lo... (Sorri.)

TIREZA – Tenha calma... ainda estamos na praça... e não pense em besteira.

GAIA – Me leve lá... agora.

TIREZA – Olha... faz muito tempo...

GAIA (agressiva) – Me leve lá agora! Eu não posso esperar...

TIREZA – Tudo bem... primeiro se acalme... relaxe... (Gaia relaxa) ... eu vou pesquisar isto para você, prometo, mas espere até amanhã...

GAIA – Não! (levanta-se) Eu não volto mais lá! Não, não e não!

TIREZA – Veja... sente-se. Sente-se! (Gaia senta-se) Seja racional... não é uma coisa tão simples assim. Temos que conseguir as identidades, achar a porra do lugar, tenho que ir atrás dos códigos... se você agüentou até hoje agüenta mais uns dias... faça um esforço...

GAIA (chora) – Ele vai descobrir tudo...

TIREZA – Não se você mantiver a calma... fingir que nada aconteceu... decorar seus versos e deixá-lo feliz...

GAIA – Você não entende... ele sabe tudo... às vezes eu acho que ele lê a minha mente...

TIREZA – Então é melhor você tomar uma dose dupla de Nepenthe...

GAIA – Odeio esquecer.... odeio, odeio!

TIREZA – Ninguém esquece tudo... é impossível... mas não tem outro jeito. Vá para casa agora e amanhã nos falamos.

GAIA – Sabe o que eu pensei agora?

TIREZA – Sei sim... que eu poderia ser informante dele... Bobagem...

GAIA – É... tem razão... (pausa) Eu vou embora... (levanta-se)

TIREZA – Até amanhã.

(Gaia sai.)

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