30.10.05

A última aula



(A voz é opcional. Só o professor ouve e reage a ela. Ninguém mais ouve, nem quem assiste.)

(VOZ – Por que você não presta atenção ao que estou dizendo?)

PROFESSOR – Estou dando aula, você não está vendo?

(VOZ – Eu sou o vazio que está dentro de você. Eu sei tudo, sei o que você vai querer. Eu sou o seu querer.)

ALUNA – Professor, eu não entendi nada. Para que serve esse troço?

PROFESSOR – Você tem que mandar a cabeça separada do corpo, e no destino, os dois se encontrarão.

ALUNO – Para que diabos serve isto? Nós não estamos na Lua. Isto não vai voar, tampouco vai girar.

PROFESSOR – Girar vai. Leia direito a questão.

(VOZ – Preste atenção e me ouça.)

PROFESSOR – Me deixe em paz, por favor, já me bastam os alunos.

ALUNA – O que você disse, professor?

PROFESSOR – Nada, eu estava falando com o nada.

(VOZ – Eu sou o nada, mas se eu morrer, você será o nada. Eu sou você, eu sou seu vazio, mas eu estou fora, e vejo tudo. Eu sou sua existência.)

PROFESSOR – Olhe pessoal, estas duas têm que girar. Vocês têm que recortar igual. As setas precisam apontar para fora.

ALUNA – Professor, e o terceiro?

PROFESSOR – Eu já disse. A cabeça...

ALUNA – Eu sei, mas não consigo. Não é para aparecer em cima do sexo?

PROFESSOR – Não era para ter sexo, como você conseguiu isto?

ALUNO – Ela só pensa em sexo.

PROFESSOR – Você trocou os exercícios. Era para usar apenas os que eu indiquei.

(VOZ – Escute aqui, professor, você vai morrer hoje.)

PROFESSOR – Eu devia ter tomado os remédios...

(VOZ – Eu quero que você saiba. Vai estourar uma artéria no seu cérebro, à noite, no meio da peça, e você vai morrer.)

PROFESSOR – Tudo bem, eu não vou para peça alguma.

ALUNA – Professor, você vai ver minha peça?

PROFESSOR – Quando é?

ALUNA – Hoje a noite. É de graça.

PROFESSOR – Bem... eu não sei...

ALUNA – Ah, professor... o que você vai fazer hoje a noite? É curtinha. Pôxa... todo mundo vai.

PROFESSOR – Vou pensar.

ALUNO – Olhe aqui, eu não consegui fazer. Esse exercício não tem pé nem cabeça. Quem elaborou essa merda?

PROFESSOR – Venha cá por favor.

ALUNO – Como?

PROFESSOR – Venha cá! Vou lhe explicar.

ALUNO – Tudo bem.

PROFESSOR – Eu vou falar baixo e você vai me entender. Essa merda foi criada no início dos tempos. Foi criada por ele. E eu, sou o filho da mãe que achou que valia a pena ensinar como funciona, entendeu? Se você não quiser aprender, não tem problema. Faça do jeito que você quiser, mas eu vou logo avisando que a lei da gravidade provavelmente está certa.

ALUNO – Cara grosso.

PROFESSOR – Vá com calma.

ALUNO – Grosso! Quem contratou esse cara?

PROFESSOR – Pronto, começou!

(VOZ – Já começou há séculos e você não percebeu, mas hoje é seu último dia, então curta sua existência breve.)

PROFESSOR – Me deixe em paz! Droga!... Já me bastam os alunos!

ALUNA – Professor, você está bem?

PROFESSOR – Sim, desculpe.

ALUNA – Com quem você está falando, professor?

ALUNO – Ele é louco. Ouve vozes e fala sozinho.

ALUNO – É um grosso. Eu não sei fazer esse troço. Mandei duas cabeças e não chegou nenhum corpo.

ALUNA – Professor, está girando! Ih... está caindo... apagou.

(VOZ – Você vai me ouvir agora. Eu preciso que você tome uma decisão. É para o nosso bem. Você precisa sobreviver... )

PROFESSOR – Como assim... eu não ia morrer? O que foi, mudou de idéia?

ALUNA – Quem vai morrer professor?

(VOZ – Não sou eu quem decide. É você. Morrer é uma escolha. Você pode escolher outro caminho. Se você não me ouvir, você vai morrer... )

ALUNO – Professor! Não está funcionando. As letras estão sumindo. Vou embora.

ALUNO – Ele é uma cópia; só pode ser. Um clone.

PROFESSOR – Ninguém vai embora. Ainda faltam vinte minutos.

(VOZ – Daqui a alguns minutos você não terá mais volta. As letras vão acabar.)

PROFESSOR – Me deixe em paz, por favor.

ALUNO – Ele está falando sozinho.

ALUNA – Acho melhor irmos embora.

PROFESSOR – Ninguém sai! Volte para o seu lugar, agora! E você, sente-se! Agora!

ALUNA – Nossa... o que deu nele?

PROFESSOR – Cale a boca!

ALUNO – Está tremendo... acho que vai surtar.

(VOZ – Agora feche a porta e desligue a luz.)

PROFESSOR – Eu não vou fazer isto. Você não existe. Me deixe.

(VOZ – Então faça como quiser. Termine a aula, vá para casa e morra na peça.)

PROFESSOR – Eu não vou para essa maldita peça!

ALUNA – Ai... desculpa, se soubesse não teria convidado, desculpa, não precisa ir.

PROFESSOR – Desculpe, eu não estava falando com você.

ALUNO – Ô... professor! Tudo bem que você tenha seus problemas, mas nós não temos nada a ver com isto. Se você não se sente bem, termine a aula e continuamos depois. O que vocês acham?

ALUNO – É, acho que é o melhor. O despertador parou de girar.

ALUNO – Então vamos.

ALUNA – Sim.

PROFESSOR – Não! Ninguém vai sair daqui!

ALUNA – Ai... estou com medo.

ALUNO – Quem é esse cara? Eu vou sair e quero ver alguém me impedir. Sai do meio. Eu quero passar... Que é isso, meu?... Você é louco? Calma aí... eu volto, calma...

ALUNA – Ai... ai...

ALUNO – Ele surtou. É um psicopata. Vamos embora que o relógio parou.

ALUNA – Ele vai nos matar.

PROFESSOR – Silêncio! Eu não vou matar ninguém. Ainda faltam dez minutos para terminar. Nós vamos ficar aqui, em silêncio até passar esses dez minutos, certo? Eu vou apagar a luz. Não quero ouvir um pio. Quando terminar, eu abro os olhos e vocês poderão acordar.

ALUNA – Ai... tenho medo do escuro.

PROFESSOR – Silêncio! E você fique sentado. Vou ficar na porta. Se alguém tentar passar, não vai conseguir.

ALUNO – Você vai me matar?

PROFESSOR – Eu não vou deixar você passar.

ALUNO – Então vai me matar.

PROFESSOR – Interprete como quiser. Se ficar onde está nada vai acontecer. Acalme-se e durma.

ALUNO – Eu vou denunciar você ao conselho acadêmico, à polícia. Você é louco! Tem que ser internado. É um risco à sociedade. Você vai ser preso.

PROFESSOR – Silêncio!

ALUNO – Louco!

PROFESSOR – Cale a boca e fique onde está, em silêncio.

(Escuro.)

(VOZ – Está na hora.)

PROFESSOR – Eu sei.

(VOZ – Mas o que você está esperando? O despertador não vai tocar.)

PROFESSOR – Não consigo acordar.... abri os olhos e estou cego.

(VOZ – Os alunos estão saindo. Não deixe. Mate-os.)

ALUNOS – Mate-nos, professor.

PROFESSOR – O que está acontecendo? Por que estão saindo? Eu não estou vendo nada. Tirem-me daqui... Estou ficando tonto.

ALUNOS – Acorde, professor.

PROFESSOR – Minha cabeça! Devolva minha cabeça!

ALUNA – É para colocar em cima do sexo, professor?

ALUNO – Não, sua boba, é para fazer girar. Girar, entendeu?

PROFESSOR – Está girando. Está tudo girando.

ALUNA – Fique calmo. É só uma peça. Vai acabar logo, logo.

ALUNO – Você não recortou direito, foi isso. Duas cabeças com setas apontando para dentro. Nenhum corpo... tsc, tsc.

PROFESSOR – Minha cabeça vai explodir... que dor... Estou caindo.

ALUNO – A lei da gravidade provavelmente está certa. Você errou, professor.

ALUNA – Você fez o exercício errado, professor. As setas deviam ficar para fora.

ALUNA – Era uma peça tão curta, tão curtinha...

PROFESSOR – Quero acordar... me tirem daqui. Me ajudem, por favor.

ALUNA – Não há mais sonhos, professor. Parou de girar faz dez minutos.

PROFESSOR – Não estou vendo nada... não quero mais brincar.

ALUNA – Nunca ouve olhos. As setas, lembra? Tinha que ser para fora! Para fora!

ALUNA – A peça já terminou... não há mais nada para ver. Não há cabeça.

PROFESSOR – Então acorde-me, por favor... Não me deixe... Volte!... Para onde foram todos? Onde estou? Liberte-me, por favor... Me tirem daqui... agora!

ALUNO – As letras estão acabando.

PROFESSOR – Não me sinto, não me penso, não existo... Tenho que acordar... Onde está meu corpo?... não sinto minha mente. Quero sentir... pelo menos a dor! Me cortem!...

ALUNA – Acabou.

PROFESSOR – Eu quero acordar! Aaaaargh! Eu quero acordar! Eu quero existir!...

(Asfixia sem voz. Silêncio.)

Um comentário:

Berttoni Licarião disse...

Vertiginoso até o sufoco. Intrigante construção.

Parabéns, você acaba de ganhar um assíduo leitor. =D