7.10.05

Entrevista com o mendigo



(Uma moça entrevista um mendigo louco numa uma praça urbana, semi-deserta e abandonada. Talvez daqui a duzentos anos, talvez mais, talvez menos.)

MOÇA – Tudo bem. Vou falar uma língua que você entende. Quem é você?

MENDIGO – ... eu já disse tudo o que eu sabia. Você é da polícia?

MOÇA – Veja bem, eu não me incomodo que vocês não liguem para o resto de nós, nem que prefiram viver a vida assim, sem sincronismo, sem proteção e sem registro. Mas assumir uma identidade que não lhe pertence não só é crime, como pode lhe trazer muitos problemas. Você não imagina as conseqüências do seu ato?

MENDIGO (entediado) – Eu só queria dormir.

MOÇA – Eu entendo. Mas você confundiu centenas de pessoas, causou danos psicológicos graves em pelo menos uma pessoa e forçou o desperdício de milhares de yenes. Você tem que entender que não pode simplesmente gerar quaisquer freqüências que desejar. O mundo tem um equilíbrio, e isso que você pensa ser uma pequena transgressão abala profundamente o equilíbrio do mundo... (pausa)

MENDIGO – ...

MOÇA – Veja bem, eu estou do seu lado. O mundo está contra você. Eu estou fazendo o possível para que nós nos entendamos. Eu também não concordo com o controle que eles estão querendo impor à humanidade, à natureza. Mas, certas coisas são tão... básicas, e é incrível que você insista em se opor a tudo, em quebrar todas as regras... Você é egoísta. Você não facilita as coisas.... Eu estou quase desistindo de você.

MENDIGO – ...

MOÇA – Você não vai dizer nada?

MENDIGO – ... Eu só quero ser eu mesmo. Não quero nenhuma identidade digital. Não quero ligar para freqüências, sincronismos. Não quero ser controlado. Abro mão de todos os benefícios. Deixem-me ser marginal. Eu os deixo em paz.

MOÇA – ...

MENDIGO – Por que você me olha?... Não entende?... Claro que não... Veja, eu não tenho células estranhas na minha cabeça, moça! Se meus sonhos interferem nos seus mundos imaginários, não é culpa minha!

MOÇA – É sim! É sim! Puxa, como você não entende uma coisa tão simples?...

MENDIGO – Simples...

MOÇA – Eu não vou conseguir ajudar você se você continuar com esses pontos de vista, cara! Não é possível que você não entenda. Você faz de conta que não entende... Por que você freqüenta a cidade se não concorda com nenhuma de nossas regras? Por que não faz sequer a sincronização obrigatória dos animais?...

MENDIGO – ... o que é isso? ...

MOÇA (discursa sem ligar para o que ele fala)– Tudo bem que não aceite equalização automática... muitos não aceitam. Mas se você decidiu pelo primitismo, não pode simplesmente ocupar lugares públicos controlados, entende?

MENDIGO – ... primitismo eu não sei o que é, mas primata eu sou, com muito orgulho...

MOÇA (ignorando-o) – E você entende tudo isso... Pessoas sofrem, pessoas morrem, a economia sofre. Você causa danos à nossa sociedade.

MENDIGO – ... por estar vivo.

MOÇA – Você sabe disto desde criança, pois você estudou aqui e não é nenhum selvagem ignorante!...

MENDIGO – ... vocês inventam palavras muito difíceis...

MOÇA (veemente) – Você deliberadamente causa transtornos sociais. Ocupar um espaço controlado como a praça, sem registro e passando por um animal clandestino já é ilegal. Gerar freqüências cerebrais em um ambiente urbano, para as quais você não tem licença é crime. Não só você tem feito isso constantemente, como já provocou conflitos e invadiu sistemas de identidade.

MENDIGO – Incrível... foi só um sonho!

MOÇA – E você entende disso tudo que eu sei! Não é ignorante. Porque você insiste em permanecer aqui na praça? Porque não vai para uma reserva? Você tem direito de sonhar o que você quiser numa reserva...

MENDIGO – Eu não sou louco, nem criminoso...

MOÇA – Você não tem medo da morte? (pausa)

MENDIGO – Ah... que bom que você parou de falar... É uma boa pergunta. Por que ainda estou vivo?

MOÇA – Como?

MENDIGO – É! Por que? Se vocês têm tanto controle, porque não me detectaram desde o início como virus no seu sistema perfeito e me descartaram? Eu vim para a praça porque queria me matar. Eu quis morrer. Não era minha intenção chamar atenção de ninguém. Se chamei atenção, se continuo vivo, é porque interesso a alguém, ou então tem algo de errado com vocês, com o mundo, e não comigo. O mundo como eu achava que ele era já teria me eliminado... talvez o mundo não seja tão ruim assim, afinal...

MOÇA – ...

MENDIGO – Desculpe... você não vai me entender... eu sou louco, sabe?

MOÇA – ...

MENDIGO – Mas falando sério, você, aqui, conversando comigo... isto me deu uma certa esperança de que um dia isto tudo pode mudar... Pode ser uma ilusão passageira. Mas eu gosto de ilusões passageiras. Por um instante, eu perdi minha vontade de morrer. Mas se eu morrer, terei cumprido o que vim fazer.

MOÇA – ...

MENDIGO – Porque você não deixa, por um instante, a imaginação livre. Solte sua imaginação! Viaje!

MOÇA – N... n... não faça isto!

MENDIGO – Sim! Por que não? Deixe-a fluir, ocupar os espaços da sua mente. Você consegue! Deixe-se imaginar outro mundo. Como é seu nome?

MOÇA – Seu cretino! Como pode fazer uma pergunta dessas? (triste) Eu... confiei em você.

MENDIGO (irônico) – E agora eu devo estar lhe corrompendo...

MOÇA – E ainda fala com a maior naturalidade! Você não tem jeito...

MENDIGO – Não tenho mesmo, graças a Deus. E tenho um nome!

MOÇA (nervosa) – Você é louco! Louco! Louco!

MENDIGO – Eu avisei! Mas, obrigado pela companhia. Você foi muito gentil, moça sem nome.

MOÇA (triste) – ...

MENDIGO – Que pena que você não pode chorar.

MOÇA (chora) – ...

MENDIGO (surpreso) – Não, não faça isto... Você não iria sobreviver no meu mundo... Por que você parou de tomar seus remédios? Volte para o seu mundo! Você não suportaria a infelicidade de viver sem um nome. A depressão vai lhe matar. Você é muito nova... Você não se lembra de como era antes... Vá, não pense muito; seja feliz; um dia isto muda, e vai doer. Vá, e deixe-me morrer em paz. Vá!

MOÇA – Não.

MENDIGO – Vá... eu já sou uma ameaça social, e se eu corromper você aí sim que as coisas ficarão pior. Vão matar você, mas me manterão vivo. Vá!

MOÇA – Não.

MENDIGO – Pois bem, então ficaremos aqui. Já que vai ficar, pode me chamar de Aram... Falta pouco para o Sol se por. Amanhã talvez chova.

MOÇA – Eu quero um nome. Me dê um nome!... Mas sem número e sem arroba!

MENDIGO – Que tal Amanda? É chuva em Tupi, uma língua antiga, de um povo livre, já extinto.

MOÇA – Eu! Eu sou Amanda.

Um comentário:

ueidson disse...

percebo que a entrevista abordada fez parte de um contexo.um texto inaudito ou seja que nunca se ouviu falar em um mendigo que se expressa tao bem,com sua variaçao linguistica tao perto da norma culta e sua opinaiao formada diante a sociedade. pois com sua palavras tao ricas em portugues.ele intriga a entrevistadora de forma contudente o entrevistado passa ser o entrevistador e vice versa.