13.10.05

Crepúsculo



(Dois cegos conversam num banco de uma praça urbana, daqui a duzentos anos, talvez mais, talvez menos.)

CEGO 1 – Ela se foi.

CEGO 2 – Para onde?

CEGO 1 – Ninguém sabe... Já tinha ido, na verdade... Faz tempo... Mesmo me tocando eu sabia que ela não estava mais. Eu só sentia que ela me tocava. Não conseguia vê-la.

CEGO 2 – É delírio.

CEGO 1 – Não é não. Ela deixa marcas... às vezes fere. Eu sinto o cheiro dela... é cheiro de sangue. Ela grita, implora para ser vista... me arranha e me derruba.

CEGO 2 – Não tem mais volta?

CEGO 1 – Não.

CEGO 2 – Como você sabe?

CEGO 1 – Porque… porque eu não quero que tenha... se eu voltar a tomar essas coisas ela volta, mas eu não quero viver com a imagem de quem só existe quando estou delirando.

CEGO 2 – Ah... entendo.

CEGO 1 – Ela só existe lá... talvez seja uma simulação, um programa, uma idéia...

CEGO 2 – Mas se ela arranha... se grita...

CEGO 1 – Essa é a minha dúvida... Pode ser o contrário... Ela existe, mas não no sistema. Se eu me desligar do sistema eu não vejo mais nada, nem ela, nem você, nem ninguém. Como agora. Ela talvez tenha se desligado, e eu não a vejo.

CEGO 2 – Mas ela é real, então...

CEGO 1 – Provavelmente... possivelmente.

CEGO 2 – É como se fosse... um fantasma.

CEGO 1 – Não... Um corpo sem face. Um corpo sem alma, talvez.

(Pausa.)

CEGO 2 – Que silêncio.

CEGO 1 – É a calmaria. Em breve virá a tempestade.

CEGO 2 – Talvez seja melhor irmos embora.

CEGO 1 – Não... eu vou esperar.

CEGO 2 – Entendo... você se incomoda se eu não ficar?

CEGO 1 – Não... mas eu garanto que é mais seguro você ficar aqui.

CEGO 2 – Por que?

CEGO 1 – Porque este lugar não existe no sistema. Não tem como lhe roubarem...

CEGO 2 – O que podem me roubar?

CEGO 1 – A identidade, a presença, a existência...

CEGO 2 (assustado) – Eu não sabia que isso era possível... mas... se for assim, são todos vulneráveis.

CEGO 1 – Quase... aqui é seguro, mas na passagem existem singularidades.

CEGO 2 – O que são singularidades?

CEGO 1 – Falhas de continuidade. O mapa não representa o território... Este território ninguém controla, mas quando se passa de um lado para o outro, a transição fica exposta. Ela deve estar por aqui... e se você atravessar, ela pode lhe atacar.

CEGO 2 (aterrorizado) – Ela?... o que ela é? Me parece um tipo de demônio... um vampiro.

CEGO 1 – Eu não sei no que ela se transformou... Pode ser apenas um defeito no sistema. Talvez ela tenha uma vida normal fora dele... mas, como falei, pode ser o contrário... pode ser que ela não exista mesmo... seja só ilusão provocada por essas drogas, e por essas coisas que têm no nosso cérebro. Por isso eu estou aqui. Aqui é um dos poucos lugares onde se pode sentir a escura realidade. Talvez nada aconteça, talvez eu não volte mais...

CEGO 2 (nervoso) – E se ela não vier... quando posso sair daqui com segurança?

CEGO 1 – Com segurança não se pode viver neste mundo. Fique mais um pouco. Não tenha medo. Tudo isso é ilusão... o medo inclusive.

CEGO 2 – Porque você me trouxe aqui.

CEGO 1 – Eu achei que você talvez quisesse enxergar.

CEGO 2 – Como assim, enxergar? Aqui não enxergo nada.

CEGO 1 – Enxerga mais que lá no seu mundo... Aqui as ilusões são nossas... Ninguém injeta nada na sua mente.

CEGO 2 – Você prefere nunca mais enxergar nada?

CEGO 1 – Enxergar? De que me serve a visão em um mundo onde sou apenas sombra? Lá não tenho liberdade. O que eu vejo, o que eu ouço, a dor que sinto, o prazer... nada é real. Aqui eu posso sonhar, e ninguém vai interferir nos meus sonhos...

CEGO 2 – A cidade não é real?

CEGO 1 – Talvez seja, mas não é o que parece.

CEGO 2 – O meu rosto... as pessoas... as cores...

CEGO 1 – Somos cegos... nossa visão é artificial. Você acha que ela é completamente fiel à realidade? Se os que vêem naturalmente já não enxergam, imagine os que nunca viram.

CEGO 2 (desolado) – Isso é meio absurdo...

CEGO 1 – É absurdo.

CEGO 2 – E quem será que controla tudo isso?

CEGO 1 – Ninguém.

CEGO 2 – Ninguém?

CEGO 1 – Não sei... mas não precisa que alguém controle... um monte de cegos corre rumo ao precipício e cada um deles acha que os outros sabem para onde estão indo... Por compartilharem das mesmas ilusões, confudem-nas com a realidade. Os que não se iludem ou são loucos ou são cegos.

(Um barulho, como um zumbido de curto-circuito.)

CEGO 2 – O que é isso? (assustado) Será que ela chegou?

CEGO 1 (pensativo) – Não sei... sinto uma vibração.

CEGO 2 – Vibração?

CEGO 1 – Ouça!

(Permanecem em silêncio.)

CEGO 2 – Que silêncio... Ainda não é a tempestade.

CEGO 1 – Talvez um trovão distante.

CEGO 2 – Alguém pode ter atravessado a passagem... pode ter sido atacado.

CEGO 1 – Pode ser.

CEGO 2 (assustado) – Talvez já esteja aqui, entre nós...

CEGO 1 – Pode ser.

CEGO 2 (inquieto) – Acho que... talvez dê para eu ir embora... Você não pode me acompanhar até a torre?

CEGO 1 – Você quer mesmo voltar para lá?

CEGO 2 – Se eu não for, para onde irei? Não posso ficar aqui para sempre...

CEGO 1 – Você nunca saiu daqui.

CEGO 2 – Não entendi.

CEGO 1 – Você está querendo ir ao encontro da sua ilusão... mas você nunca saiu do lugar, entende?

CEGO 2 – Não... não sei... é muita coisa para a minha cabeça... você está me deixando muito confuso. Isto é muito complicado... Eu não sei o que pensar. Minha cabeça dói.

CEGO 1 – Tudo bem. Eu sei que não é fácil.

CEGO 2 – Eu acho que eu vou embora.

CEGO 1 – Sim, está na hora.

CEGO 2 – Você vem comigo?

CEGO 1 – Não precisa.

(Cego 2 hesita)

CEGO 1 – Não tem perigo mais... você pode ir.

CEGO 2 (hesitante) – Mas... e se ela chegar?

CEGO 1 – Ela não vai mais chegar.

CEGO 2 – Como você sabe?

(Cego 1 permanece em silêncio.)

CEGO 2 (horrorizado, olha para os lados, como se visse) – Ela está aqui...

CEGO 1 – Sempre esteve.

CEGO 2 (em pânico) – Onde?

CEGO 1 – Não é onde... é quem.

CEGO 2 – Quem?

CEGO 1 – Sim, é quem. Procure no espelho.

CEGO 2 – Espelho? Que espelho? O que tem no espelho?...

CEGO 1 – Tem o que você procura.

CEGO 2 – ... quem é você?

CEGO 1 – Exatamente! (Sorri.) Você já pode ir, se desejar.

CEGO 2 (ainda confuso) – Eu não entendi nada...

CEGO 1 (ajudando o outro a levantar-se) – Venha, levante-se... pegue sua bengala.

CEGO 2 – Me explique, por favor... o que ... o que está acontecendo?

CEGO 1 – Nada. Tudo o que tinha de acontecer, já aconteceu.

CEGO 2 – Já aconteceu?

CEGO 1 (sorrindo) – Ah, sim! A noite já está entre nós. Em breve nascerá outro dia.

CEGO 2 – Não entendo suas respostas...

CEGO 1 – Não precisa... É assim que é a vida. É preciso que exista a morte, para que possa haver o renascimento.

CEGO 2 (assustado) – A morte...

CEGO 1 – Sim... às vezes estamos tão envolvidos em nossas ilusões que nem percebemos que ela já chegou, não é mesmo?

CEGO 2 – Eu não estou vendo nada.

CEGO 1 – Não há mais nada para ver.

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