9.4.05

O Liberace de Bagdá

Fonte: tenfootfilms.blogspot.com
Samir Peter em concerto nos EUA (2005). Fonte da imagem: Blog do diretor Sean McAllister.

O excêntrico Wladziu Liberace figura no Guinness como o pianista mais bem pago do mundo. Seu estilo misturava clássicos e jazz. Foi um exímio marqueteiro da sua própria imagem. Usava roupas extravagantes, e esbanjava de sua riqueza. Ganhou vários prêmios e criou uma fundação para o ensino da música. Mas este post não é sobre esse Liberace.

Samir Peter foi o maior pianista do Iraque. Tocava para a Orquestra Sinfônica de Bagdá. Era um showman. Carismático e popular, tocava de Chopin a Cole Porter. No seu mundo, isolado do resto do mundo, foi rico e famoso. Se autodenominava o Chopin do Iraque, ou, o Liberace de Bagdá. Estudou música na Itália e na Hungria e nos anos 80, viveu o auge de sua carreira. Tinha hospedagem gratuita no Sheraton onde ganhava cento e trinta dólares por noite tocando para hóspedes ilustres e ocasionalmente para o próprio Saddam Hussein. Trabalhava também como professor de música. Tinha muitos alunos e era um homem rico. Casou-se com uma médica com quem teve quatro filhos. Boêmio incorrigível, vivia sempre envolvido em aventuras com outras mulheres.

Em 1991, na noite em que Bagdá foi bombardeada durante a guerra do golfo, ele compôs uma música triste e dramática. O Iraque isolou-se mais ainda do resto do mundo, e Samir caiu no ostracismo ao desentender-se com o regime de Saddam Hussein. Sua esposa - que foi responsável pelo parto de uma das filhas de Saddam - o deixou (por causa de suas aventuras extraconjugais) e mudou-se com dois dos seus filhos para os Estados Unidos.

Essa é a história que Samir contou no ano passado a Sean McAllister, jornalista que fora a Bagdá fazer um documentário sobre a vida no Iraque pós-Saddam Hussein. Sean encontrou Samir tocando em um hotel onde hospedavam-se jornalistas estrangeiros, mercenários e soldados. Tinha 56 anos e morava sozinho no porão do hotel em um quarto com janelas fechadas com tijolos. Não parecia em nada com um Liberace, mas continuava carismático. Falando inglês com sotaque italiano, revelou-se um homem simples e uma companhia agradável. O encontro e a amizade entre os dois motivou o filme cuja produção se estendeu pelos oito meses seguintes. Sean McAllister e sua câmera não largaram o pé de Samir, revelando o cotidiano de um decadente e outrora famoso artista iraquiano no meio de um país em guerra civil.

O encontro mudou a vida de Samir, que sonha em conseguir um visto para os Estados Unidos e levar a família junto. No filme, seu filho e sua filha, ambos com mais de 30 anos e solteiros, vivem na sua mansão de sete quartos num bairro cada vez menos tranquilo de Bagdá. Mas sua filha não quer sair do país. Ela sente falta de Saddam Hussein e culpa os americanos pela tragédia do país. Samir é anti-Saddam, mas também não é um ingênuo defensor da ocupação. A situação no Iraque se agrava muito durante a produção do filme, e os riscos de morte aumentam para Samir e principalmente para Sean. Quase todos os colegas de Sean foram seqüestrados. Depois de oito meses, Samir pediu a Sean que fosse embora, pois ele não tinha mais como garantir a sua segurança.

Fonte: tenfootfilms.blogspot.com
Samir e Sean recebendo prêmio no Sundance Festival
O resultado foi um filme cru, real, porém emocionante e belo. Na minha opinião, um dos melhores do festival É Tudo Verdade. Vale a pena ser visto. Ganhou vários prêmios pelo mundo afora, entre eles o prêmio especial do júri do Sundance Festival em janeiro deste ano. Além de tudo, teve um impacto positivo na vida de Samir e sua família. Samir esteve presente no festival. Conseguiu um visto de visitante e viajou com Sean pela Europa e Estados Unidos. Apresentou-se em quase todos os lugares que visitou. Aproveitou também para rever sua esposa e filhos que não via há cinco anos. Ele não está mais no Iraque. Mudou-se para em Amã, na Jordânia, com seu filho e sua filha, onde espera a obtenção do visto de imigrante americano. A história continua, mas agora é narrada no blog do diretor.

O 10º. Festival Internacional de Documentários: É Tudo Verdade, acaba em São Paulo neste domingo. Os ingressos são de graça. O Liberace de Bagdá será reexibido sábado (dia 09), às 19h00, no CineSESC. Vale a pena ver.

The Liberace of Baghdad
(Reino Unido, 2004)

75 minutos.
Diretor: Sean McAllister
Música: Samir Peter

Sites:
Blog do diretor: continua a história de Samir Peter e sua imigração para os EUA.
Site oficial
BBC - Storyville - The Liberace of Baghdad: entrevistas e video com Sean e Samir.

5 comentários:

Dina disse...

Que bela resenha, Hélder. Fácil fácil entraria na Veja :). E qual artista não se sente refém de seus líderes governamentais - ainda mais quando são ditadores? Agora surgiu uma dúvida: dada a condição dele, já famoso, ele só cobrava 130 dólares pra se apresentar no Sheraton? Tem certeza de que só isso?

Dina disse...

Que bela resenha, Hélder. Fácil fácil entraria na Veja :). E qual artista não se sente refém de seus líderes governamentais - ainda mais quando são ditadores? Agora surgiu uma dúvida: dada a condição dele, já famoso, ele só cobrava 130 dólares pra se apresentar no Sheraton? Tem certeza de que só isso?

Helder da Rocha disse...

Oi Dina. Ele também falou que ganhava dez mil dólares por mês (ele dava aulas para alunos), que também não é grande coisa, mas no Iraque talvez seja. Eu também não sei o quanto do que ele disse é verdade. O documentário deu todo o poder a ele dizer o que ele queria.

Marianne disse...

Helder...
Acho que chegou o momento...
Venho acompanhando seu blog, suas idéias, sua inteligência, suas viagens...
Eu gosto de muitas coisas que vc também gosta... e percebo que temos muitas afinidades e coisas em comum, muito embora eu não o conheça pessoalmente. Sinto que minha intuição feminina está latejando para que eu te escreva...
Enfim...
O máximo que pode acontecer é você nem me responder... Não tem problema...
Um Beijo
Marianne

Regina Araujo disse...

Que legal encontrar o seu blog. Assisti a este documentário e gostei demais... daí estava procurando na internet e o achei através de você. Convido-o a entrar em meus blogs www.comendadoraregina.multiply.com; www.comendadoraregina.blospot.com
Sou alguém que ama idéias, palavras, pensamentos e liberdade de escolha. Shalom!
Regina Araujo