29.1.05

Mapa mundi

Elefantes sob as ondas

Eram imaginários, os elefantes roxos. Eram imaginários, mas eram tudo o que interessava. Os elefantes cinzas eram reais, eram imediatos, mas ninguém queria sê-los. Eram o atraso. O mundo era dos elefantes roxos. O mundo era roxo, e imaginário, como tudo que é roxo. O mundo era certo, preciso, planejável, calculado. O roxo poderia ser decomposto, estudado. Quem não tinha convicção de que o roxo era toda a verdade, estudava, filosofava e pesquisava a sua essência, dividia seus componentes, extraia seus reflexos, elaborava teorias roxas para explicar a natureza do mundo cinza. O mundo cinza era duro. Era duro e incerto. Era duro, incerto e sujo. Sujo, porque não era previsível, porque não era certo, nem preciso, nem calculável. Era um território concreto, um chão, uma fundação. O mundo roxo era leve. E praticamente todos os educados, os elefantes, obviamente roxos, viam no mundo roxo o mundo completo, absoluto. Para eles, a vida tinha explicações, tinha regras, tinha caminhos definidos. A incerteza diminuía dia após dia. O mundo roxo era um mapa, mas era um mapa muito bom. Era um mapa perfeito, tão perfeito que os elefantes cinzas podiam ser ignorados o tempo todo. Quase. O fim, nunca era roxo. Era cinza mesmo. Não havia fim no mapa roxo. Suas teorias eram perfeitas. Eram previsíveis. O mundo cinza era imperfeito. Era sujo. E o fim era sempre sujo. Um dia, esse mundo cinza tremeu sob as águas profundas e o mar levantou-se sobre a terra. Os elefantes cinzas correram para o alto das colinas. Os elefantes roxos padeceram sob ondas cinzas de um mundo imperfeito, sujo. Ondas que não existiam nas letras precisas de seu mapa roxo.

6 comentários:

Anônimo disse...

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{{Dina;http://www.reporterfrustrada.weblogger.com.br;}}

Anônimo disse...

Eu%20havia%20retirado%20esse%20par%E1grafo%21%21%21%20Eu%20o%20acrescentei%20hoje%20de%20manh%E3%2C%20mas%20ao%20ler%20o%20texto%20mais%20tarde%20achei%20que%20n%E3o%20tinha%20nada%20a%20ver%20e%20tirei%20%28vivo%20mexendo%20nos%20textos%20do%20blog.%29%20O%20trecho%20%E9%20confuso%20porque%20tenta%20dar%20uma%20explica%E7%E3o.%20Como%20o%20texto%20admite%20mais%20de%20uma%20interpreta%E7%E3o%2C%20qualquer%20explica%E7%E3o%20confunde%20e%20banaliza%20o%20que%20foi%20escrito.%20As%20cores%20roxa%20e%20cinza%20foram%20escolhidas%20arbitrariamente%2C%20ou%20talvez%2C%20por%20causa%20dos%20elefantes%20reais%2C%20que%20s%E3o%20cinzas.%20O%20roxo%20foi%20a%20cor%20que%20apareceu%20na%20hora%20da%20inspira%E7%E3o.%20Escolha%20outras%20cores%20que%20o%20resultado%20%E9%20o%20mesmo%21
{{Helder da Rocha;http://www.helderdarocha.com.br/blog/;helder.darocha@gmail.com}}

Anônimo disse...

O roxo cai melhor do que as outras cores, não sei bem porquê. Talvez porque o roxo é uma cor não tão comum quanto o vermelho, amarelo, azul e verde, porém tão vivo quanto essas.
Amei esse texto.


{{Magaly Miná;www.fotolog.net/magalyminah;magalyminah@gmail.com}}

Julliana disse...

Primeiro, você me deixa sem graça com o elogio...Aí eu venho aqui pra agradecer, e dou de cara com esse texto! Roxo ? Como assim Hélder... Por mais hermetismo que exista nestas linhas, eu compreendi direitinho o que vc quis dizer. Parece até que eu tava advinhando e por isso demorei a te fazer essa visita. É um Ctrl+V de uma das conversas mais digamos´...catárticas q eu já tive. Ó: nem azul nem vermelho... roxo, rs. E o origami ainda tá na minha bolsa. Roxinho.

Helder da Rocha disse...

O roxo veio de um sonho. Julliana me lembrou que eu falara do roxo antes, da fronteira entre o dia e a noite, nem vermelho, nem azul, nos extremos do arco-íris. Isto talvez tenha inspirado o sonho.

Depois tem o deserto do real, as sombras das cavernas platônicas ou os simulacros de Jean Baudrillard. A cultura é uma película roxa sobre uma realidade dura e cinza, a natureza nua, crua e de leis desconhecidas. As teorias científicas roxas pretendem explicar o possível das cinzas leis desconhecidas, mas para muitos roxos, as teorias são leis, as probabilidades ou são tudo ou nada, as aproximações são esquecidas. Mas elas não explicam o fim.

Me inspirei nos elefantes da Índia e Indonésia que salvaram-se do tsunami que aconteceu no final do ano, na Ásia. Os humanos que acreditaram neles também se salvaram.

Anônimo disse...

Eu particularmente adoro viajar na leitura. Muito subjetivo este "roxo" texto, mas gosto deste tipo de expressão.