A Adoração dos Magos, de Rafael
Hoje, no ocidente, comemora-se a véspera de Natal (interessante que se comemora mais a véspera que o dia), uma festa que tem significados diversos, inclusive nos países de maioria cristã. Tenho que confessar que não sou muito fã do Natal (nem da maior parte das festas religiosas que foram impostas ao calendário civil). Eu acho o Natal uma festa hipócrita, cujo significado já se perdeu há muito tempo. Mas não é meu objetivo falar mal do Natal, apesar de estar meio sem inspiração para escrever hoje. Vou contar algumas histórias sobre o Natal, que não são aquelas óbvias que todo mundo já conhece. Eu não garanto que sejam verdadeiras, mas também, quem garante que as outras são?
Para começar, por que 25 de dezembro? Não sei, mas um pouco de astronomia poderá ajudar. Dia 21 de dezembro é o dia que se comemora o início do verão, no hemisfério sul. Para nós, é o solstício de verão. Desde o equinócio de primavera (21 de setembro), onde o dia tinha a mesma duração que a noite (equinócio = equi nox = noite igual) os dias tem ficado mais longos e as noites mais curtas. O solstício de verão é o auge dessa diferença (é o dia mais longo e a noite mair curta). Depois do dia 21, os dias começam a ficar mais curtos até se igualarem à noite novamente no equinócio de outono, no dia 21 de março. Perto do equador não dá para notar grande diferença, mas longe dos trópicos essa variação é o que provoca as estações. Por essa razão, essas datas tinham no passado grande importância na agricultura e nas religiões, e motivaram a criação de observatórios (como Stonehenge, na Inglaterra) que fossem capazes de calculá-las com precisão. Os equinócios hoje caem nos dias 21 dos meses em que ocorrem, mas nem sempre foi assim.
Várias tradicionais festas religiosas contemporâneas acontecem nos equinócios e solstícios, principalmente nas religiões influenciadas de alguma forma por calendários solares. Os cristãos comemoram o Natal no dia 25 de dezembro como sendo a data de nascimento de Jesus, mas na verdade, ninguém sabe sequer o ano em que ele nasceu, quanto mais o dia e o mês. Os cristãos da Rússia, por exemplo, comemoram o nascimento de Cristo no dia 6 de janeiro. Teólogos de diversas correntes do cristianismo calculam seu nascimento em março, coincidentemente próximo do equinócio de primavera (no hemisfério norte), que marca o início do calendário.
Há várias teorias sobre a escolha da data e, como se trata de um assunto religioso, há muita polêmica sem fim que nem adianta discutir. Durante o império de Aureliano (270-275 d.C.) foi instituída uma festa da religião romana chamada Sol Invictus, que celebrava a volta do Sol (no hemisfério norte, os dias voltam a ficar mais longos depois do solstício de inverno, que na época caía em 25 de dezembro). Alguns religiosos que rejeitam as origens pagãs do Natal, defendem que Aureliano criou essa festa para coincidir com o Natal já comemorado pelos cristãos, já que ele era adversário do cristianismo. Há poucas evidências que sustentam essa hipótese. Durante o seu mandato, o papa Júlio I (337-352) teria determinado que a data do nascimento de Cristo era 25 de dezembro, exatamente para aproveitar a festa pagã em homenagem ao Sol e tornar a aceitação menos dolorosa para os romanos. Há mais evidências (nenhuma prova) que sustentam esta segunda hipótese, inclusive discursos de Agostinho e do papa Leão.
Mas isto não tem nada a ver com a comemoração do Natal como conhecemos hoje. Isto começou mais de mil anos depois, na Alemanha (século XVI). Não há, na Bíblia, nenhuma ordem ou sugestão para que se comemore o Natal. Antes, os cristãos só comemoravam a Páscoa. A festa alemã acabou misturando-se com o dia de São Nicolau (Saint Nicolaus, Sintra Klaus) que acontecia no dia 6 de dezembro, daí o Papai Noel. Nicolau é o padroeiro dos desesperados e de mais um monte de coisas. Ele foi um bispo da Igreja Católica e nasceu na Turquia, acho que por volta do século V (depois eu verifico). É também santo padroeiro da Rússia, de onde vieram suas renas e trenós. A história mais famosa sobre Nicolau conta que ele teria ajudado um homem pobre a casar suas três filhas (naquela época, era preciso ter dinheiro para o dote), jogando um saquinho contendo ouro pela chaminé da casa do homem sempre que suas filhas estavam na idade de casar. Nicolau tornou-se um santo muito popular. A história se popularizou no mundo todo, principalmente na Alemanha (onde foi difundida com o protestantismo), depois na Holanda. Quando finalmente chegou nos Estados Unidos, São Nicolau - que sempre fora retratado em trajes de bispo - popularizou-se em seus atuais trajes vermelhos numa garrafa de Coca-Cola.
É isso... Como falei, não sei se é tudo verdade, nem o que é meia-verdade, mas isto não interessa tanto, não é? Desejo a todos os leitores de todas as crenças ótimas festas de final de ano, seja qual for a história escolhida.












