24.12.04

A invenção do Natal


A Adoração dos Magos, de Rafael

Hoje, no ocidente, comemora-se a véspera de Natal (interessante que se comemora mais a véspera que o dia), uma festa que tem significados diversos, inclusive nos países de maioria cristã. Tenho que confessar que não sou muito fã do Natal (nem da maior parte das festas religiosas que foram impostas ao calendário civil). Eu acho o Natal uma festa hipócrita, cujo significado já se perdeu há muito tempo. Mas não é meu objetivo falar mal do Natal, apesar de estar meio sem inspiração para escrever hoje. Vou contar algumas histórias sobre o Natal, que não são aquelas óbvias que todo mundo já conhece. Eu não garanto que sejam verdadeiras, mas também, quem garante que as outras são?

Para começar, por que 25 de dezembro? Não sei, mas um pouco de astronomia poderá ajudar. Dia 21 de dezembro é o dia que se comemora o início do verão, no hemisfério sul. Para nós, é o solstício de verão. Desde o equinócio de primavera (21 de setembro), onde o dia tinha a mesma duração que a noite (equinócio = equi nox = noite igual) os dias tem ficado mais longos e as noites mais curtas. O solstício de verão é o auge dessa diferença (é o dia mais longo e a noite mair curta). Depois do dia 21, os dias começam a ficar mais curtos até se igualarem à noite novamente no equinócio de outono, no dia 21 de março. Perto do equador não dá para notar grande diferença, mas longe dos trópicos essa variação é o que provoca as estações. Por essa razão, essas datas tinham no passado grande importância na agricultura e nas religiões, e motivaram a criação de observatórios (como Stonehenge, na Inglaterra) que fossem capazes de calculá-las com precisão. Os equinócios hoje caem nos dias 21 dos meses em que ocorrem, mas nem sempre foi assim.

Várias tradicionais festas religiosas contemporâneas acontecem nos equinócios e solstícios, principalmente nas religiões influenciadas de alguma forma por calendários solares. Os cristãos comemoram o Natal no dia 25 de dezembro como sendo a data de nascimento de Jesus, mas na verdade, ninguém sabe sequer o ano em que ele nasceu, quanto mais o dia e o mês. Os cristãos da Rússia, por exemplo, comemoram o nascimento de Cristo no dia 6 de janeiro. Teólogos de diversas correntes do cristianismo calculam seu nascimento em março, coincidentemente próximo do equinócio de primavera (no hemisfério norte), que marca o início do calendário.

Há várias teorias sobre a escolha da data e, como se trata de um assunto religioso, há muita polêmica sem fim que nem adianta discutir. Durante o império de Aureliano (270-275 d.C.) foi instituída uma festa da religião romana chamada Sol Invictus, que celebrava a volta do Sol (no hemisfério norte, os dias voltam a ficar mais longos depois do solstício de inverno, que na época caía em 25 de dezembro). Alguns religiosos que rejeitam as origens pagãs do Natal, defendem que Aureliano criou essa festa para coincidir com o Natal já comemorado pelos cristãos, já que ele era adversário do cristianismo. Há poucas evidências que sustentam essa hipótese. Durante o seu mandato, o papa Júlio I (337-352) teria determinado que a data do nascimento de Cristo era 25 de dezembro, exatamente para aproveitar a festa pagã em homenagem ao Sol e tornar a aceitação menos dolorosa para os romanos. Há mais evidências (nenhuma prova) que sustentam esta segunda hipótese, inclusive discursos de Agostinho e do papa Leão.

Santo Nicolau, padroeiro da Russia (Santa Klaus)Mas isto não tem nada a ver com a comemoração do Natal como conhecemos hoje. Isto começou mais de mil anos depois, na Alemanha (século XVI). Não há, na Bíblia, nenhuma ordem ou sugestão para que se comemore o Natal. Antes, os cristãos só comemoravam a Páscoa. A festa alemã acabou misturando-se com o dia de São Nicolau (Saint Nicolaus, Sintra Klaus) que acontecia no dia 6 de dezembro, daí o Papai Noel. Nicolau é o padroeiro dos desesperados e de mais um monte de coisas. Ele foi um bispo da Igreja Católica e nasceu na Turquia, acho que por volta do século V (depois eu verifico). É também santo padroeiro da Rússia, de onde vieram suas renas e trenós. A história mais famosa sobre Nicolau conta que ele teria ajudado um homem pobre a casar suas três filhas (naquela época, era preciso ter dinheiro para o dote), jogando um saquinho contendo ouro pela chaminé da casa do homem sempre que suas filhas estavam na idade de casar. Nicolau tornou-se um santo muito popular. A história se popularizou no mundo todo, principalmente na Alemanha (onde foi difundida com o protestantismo), depois na Holanda. Quando finalmente chegou nos Estados Unidos, São Nicolau - que sempre fora retratado em trajes de bispo - popularizou-se em seus atuais trajes vermelhos numa garrafa de Coca-Cola.

É isso... Como falei, não sei se é tudo verdade, nem o que é meia-verdade, mas isto não interessa tanto, não é? Desejo a todos os leitores de todas as crenças ótimas festas de final de ano, seja qual for a história escolhida.

13.12.04

Ensaio sobre Nelson: últimas apresentações

Montagem com cenas da peça
Montagem com cenas da peça Ensaio sobre Nelson

Será hoje (segunda-feira, dia 13 de dezembro), a penúltima apresentação da peça Ensaio Sobre Nelson, na qual eu estou atuando. Todos os leitores deste blog que estiverem em São Paulo e puderem comparecer estão convidados. As últimas apresentações serão hoje, às 20:30 e sábado, dia 18, às 16h00, no teatro Espaço dos Satyros (praça Roosevelt, 214, centro - telefone: 3258 6345). Façam reservas pois várias apresentações têm lotado.

Ensaio sobre Nelson é a primeira peça do Núcleo Experimental da Companhia de Teatro Os Satyros, inaugurado pelos alunos das oficinas de interpretação. Nosso grupo passou nove meses estudando a vida e obra de Nelson Rodrigues, fazendo leituras de suas peças, estudando seus personagens e o cotidiano brasileiro no Rio de Janeiro nas décadas de 50 e 60. No primeiro semestre adaptamos, montamos e produzimos mini-peças* baseadas em cenas selecionadas de todas as 17 peças do dramaturgo e escritor pernambucano, que em suas obras expõe a hipocrisia da sociedade tradicional através de obras trágicômicas e míticas. Na segunda etapa, escolhemos personagens de peças diferentes e os colocamos em situações inspiradas nos temas rodrigueanos, adaptando e modificando as cenas e o texto ao longo do processo. O núcleo é coordenado pelo diretor Rodolfo Vásquez. Tivemos como professores os atores Ivam Cabral e Nora Toledo. O texto foi escrito pelos próprios atores, através de um processo colaborativo que contou com a orientação dramaturgica de Jarbas Capusso Filho. Como é um work in progress, o texto e as cenas têm mudado desde a estréia da peça, em 8 de novembro. Portanto, quem já assistiu encontrará novidades se for assistir de novo.

A peça é formada por nove cenas independentes**. O meu personagem é um padre, inspirado em Guilherme, da peça Álbum de Família. Eu contraceno com Geni (Teka Romualdo), personagem de Toda Nudez Será Castigada, que aparece na igreja de madrugada para fazer uma confissão sinistra. Na minha cena também aparece a personagem Glória (Marcela Pupatto), também de Álbum de Família, na forma de um fantasma.

Ainda contracenam Geni com Guilherme, com outros atores e outra trama, Jonas com Nonô (ambos da peça Álbum de Família), Maria Cecília (Bonitinha mas Ordinária) com Pimentel (A Falecida), Dorotéia (Dorotéia) com Sônia (Valsa no. 6) e Leleco (Boca de Ouro), Aracy (Os Sete Gatinhos) com Glorinha (Perdoa-me por me Traíres) e Moema (Senhora dos Afogados), Senhorinha (Álbum de Família) com Sônia (Valsa no. 6) e Moema (Senhora dos Afogados), Guigui (Boca de Ouro) com Edmundo (Álbum de Família) e Zulmira (A Falecida) com Olegário (Mulher sem Pecado). Não percam!

* Eu publiquei fotos, textos e adaptações da primeira etapa da oficina do Espaço dos Satyros no meu site, em
http://www.helderdarocha.com.br/teatro/nelson/ (as fotos e textos estão nas seções reservadas a cada peça; clique no nome da peça no poema para entrar)
** Fotos da peça estão publicadas no meu fotolog, em
http://www.fotolog.net/helder_da_rocha/


Cartaz da Peça
Ensaio sobre Nelson
Dramaturgia: os atores.
Orientação Dramatúrgica: Jarbas Capusso Filho.
Iluminação: Ronaldo Dias.
Direção: Nora Toledo.
Elenco: Ana Lúcia Felipe, Ana Pereira dos Santos, Andressa Cabral, Caroline Ribeiro, David Torrão, Débora Fernandes, Denise Janoski, Eduardo Castanho, Fabiana Souza, Helder da Rocha, Janaína Mello, Marcela Pupatto, Márcia Veiga, Márcio Cazuza, Maria Campanelli Haas, Paulo Maeda, Peterson Ramos, Regina Ciampi, Ricardo Socalschi, Rita Fernandes, Teka Romualdo e Wanderley Safir.
Estréia: 8 de novembro. Segundas-feiras, de 08/11 a 13/12 às 20h30. Sábados, de 04/12 a 18/12 às 16h00. Até 18 de dezembro. Duração: 70 minutos. Recomendado para maiores de 14 anos. Ingresso: pague quanto puder. Local: Espaço dos Satyros. Praça Roosevelt, 214 - Consolação - SP. Tel. 11 3258 6345. http://www.satyros.com.br. Capacidade: 70 lugares. Estacionamento: R$ 5,00. Acesso para deficientes. Aceita reservas por telefone.

3.12.04

Dionísio, o deus persa da guerra

Cortejo Triunfal de Dionpisio - Museu de Sousse

Após ler um trecho do primeiro livro de Heródoto - o "pai da História", conclui que os persas devem ter contratado um deus grego como conselheiro de guerra. Não era Ares (Marte), o deus da guerra, mas Dionísio (Baco), o deus do vinho. E, aparentemente, funcionou bem por muito tempo. Eis o que disse Heródoto:
"É costume entre os persas deliberar sobre assuntos de grande importância quando estão bêbados. No dia seguinte, quando sóbrios, a decisão a que chegaram na noite anterior é apresentada pelo dono da casa onde ela foi tomada, antes que comecem a beber novamente. Se for aprovada, eles a levam adiante. Se não for, abandonam o assunto. Às vezes, porém, acontece de estarem sóbrios durante a sua primeira deliberação. Neste caso sempre reconsideram a questão sob a influência do vinho."1
Os persas, uma pequena tribo de bárbaros montanheses, amantes da farra e do vinho, tomaram milionária Lídia, a poderosa Babilônia, o milenar império egípcio e estenderam seu império da Itália até a Índia. Dionísio, que na Grécia já acumulava funções de deus do teatro, da fertilidade, da embriaguez e do vinho, aparentemente quis brincar de guerra no teatro do mundo. Com sua ajuda etílica, os persas tornaram-se os donos do planeta por mais de dois séculos.

Mas o que é bom não dura para sempre. Um belo dia, o rei Dario, sucessor de Ciro, cismou de importunar os gregos. Estes, que nunca aceitaram o domínio persa, rebelaram-se e Dario declarou guerra a Atenas. Foi uma das piores idéias que alguém já teve em toda a história. Nessa hora, Dionísio deve ter feito as malas e se demitido. Deixou como presente (de grego) uma ressaca tremenda para os persas, que sofreram as derrotas mais espetaculares já vistas e nunca mais conseguiram pôr os pés em Atenas. Faltou embriaguez para concluir que um exército de 100 mil certamente perderia para um de 10 mil. Contra os deuses, não há razão que vença.

Moral da história: 1) não basta analisar as coisas à luz da razão, é preciso também testar sua viabilidade à luz da sabedoria etílica; 2) recomenda-se que decisões tomadas em estados alterados sejam reavaliadas nos estados racionais; 3) não se deve tomar decisões se estiver de ressaca, principalmente se as decisões atingirem atenienses, bêbados, atores e outros protegidos de Dionísio.

1 Heródoto, Histórias. Livro 1: Clio. Traduzi esse trecho de uma edição em língua inglesa traduzida por George Rawlingson.

1.12.04

O Senhor dos Anéis

Saturno Fotografado pela missão Cassini, da NASA
Sombra dos anéis de Saturno e sua lua Mimas. Foto: NASA

Vejam que imagem! Nós terráqueos estamos espionando um mundo distante. A imagem acima foi tirada no dia 7 de novembro pela nave Cassini, quando estava a cerca de 4 milhões de quilômetros do planeta Saturno. As sombras dos anéis fundem-se com o tom azulado da atmosfera superior do planeta ao anoitecer. Os anéis, de um tom amarelado transparente, aparecem na parte inferior da imagem. A luz que passa pela divisão de Cassini (espaço vazio entre os anéis) produz a faixa clara entre as sombras próximo da qual se vê a lua Mimas.

Saturno é como Júpiter: grande, gasoso, quase uma estrela. Suas luas são como planetas. Titã, a maior delas, é quase do tamanho de Marte. É maior que a Lua, que Plutão e que Mercúrio. Tem uma atmosfera. Talvez tenha mares, rios... vida? Em Janeiro, Cassini vai estar bem perto de Titã. Muito perto. Vai soltar uma sonda que irá penetrar na sua atmosfera. Às vezes eu me pergunto, se houver vida em Titã (não interessa o tipo), o que será que os seus habitantes vão achar dessa invasão?

Saturno e Titã. Foto da missão Cassini, da NASA
Saturno e Titã. Foto: missão Cassini, NASA
Há dois anos, quando ainda estava a 285 milhões de quilômetros de Saturno, Cassini tirou a foto ao lado que mostra o planeta ao lado de Titã. Além de Titã, já foram descobertos orbitando Saturno outros 32 satélites, a maior parte nas últimas décadas (principalmente pela missão Voyager, na sua passagem por Saturno nos anos 80). Alguns satélites estão mais próximos do planeta que os anéis e são tão pequenos que parecem mais meteoritos que "luas". Outros são mundos grandes, redondos e rochosos como Titã.

Pode-se ver a Jóia do Sistema Solar a olho nu, e não é preciso viajar para longe da cidade. Pode-se até mesmo vê-lo na Avenida Paulista, no centro de São Paulo, com toda aquela poluição luminosa. O Clube de Astronomia de São Paulo (CASP) mensalmente coloca seus telescópios diante do Conjunto Nacional na Av. Paulista para que os passantes vejam a Lua e os planetas de perto.
Saturno fotografado por Helder da Rocha com Webcam Meade LPI e telescópio SC Meade LX90 de 20cm de espelho
Foto: Helder da Rocha
É claro que um céu limpo sempre é melhor. Saturno a olho nu parece uma estrela, meio amarelada, que não pisca. Com um binóculo de 7x de aumento já pode-se perceber os anéis, como fez pela primeira vez Galileu em 1610. Com um pequeno telescópio de qualidade a visão pode ser ainda melhor. A foto ao lado eu tirei durante um encontro de astrônomos amadores em Brotas, usando uma webcam ligada ao computador e um telescópio refletor. Mas para ver ou fotografar Saturno é preciso primeiro achá-lo, e para isto, é necessário saber localizar-se entre as estrelas.

No meu próximo artigo sobre astronomia, publicarei um guia para achar as três marias e a constelação de Gêmeos (pré-requisito para achar Saturno). Em seguida, um guia para leigos mostrando como achar Saturno (que ontem esteve bem perto da Lua). "Planeta" quer dizer "estrela errante", porque se move em relação às estrelas reais "fixas" (cujo movimento para nós é imperceptível). Isto quer dizer que o caminho que eu vou indicar terá prazo de validade. Vou deixar para publicá-lo perto do fim do mês pois Saturno agora está nascendo próximo da meia-noite (horário de Brasília) e é melhor visto de madrugada. No fim do mês nasce duas horas mais cedo.