30.11.04

Distração Fatal

Praia de Tambaba, Parahyba. Foto de Helder da Rocha

Na praia, eu olhava
as estrelas
que ela iluminava
E ela, amante, me olhava
com sua luz
que então me escapava.

Eu do mar, ignorava
a escura onda
que lentamente chegava
E ela, em silêncio, apagava
a luz dos olhos
que eu tanto precisava.

(Campina Grande, 29 de janeiro de 2003)

26.11.04

Lucidez

Mauritz C. Escher - O Encontro

Era noite, ainda. Ele não entendia o motivo pelo qual acordava naquele momento. Não lembrava de ter sonhado. Não abrira os olhos. Nada ouvia. Mas sabia que era noite e sabia que acordara. Queria abrir os olhos mas só o faria se ouvisse pelo menos o som do vento, de algo passando, de um grito distante. Esperou muito. Só silêncio. Intenso silêncio. Concentrou-se e tentou ouvir a própria respiração. Pensou em fazer um som, suave, com a boca ou com o nariz. Mas não conseguiu senti-los. Sabia apenas que estava acordado, e que era noite. Tinha certeza. Absoluta certeza. Estava muito lúcido. Era óbvio que estava acordado! Mas, era como se os sentidos tivessem lhe abandonado. Pensou em mexer um braço, uma perna. Pensou muito, mas muito mesmo. Nem a agonia foi capaz de sentir. Não conseguia deslocar-se no espaço de sua mente. A lucidez era ofuscante e dominava-o completamente. Queria gritar. Estava aflito. Já não queria mais manter os olhos fechados. Decidiu abri-los de qualquer maneira. Mas o que antes parecia fácil, agora era impossível. Sua a lucidez era excessiva. Ele sabia exatamente como e quais músculos mover para abrir os olhos; sentia que compreendia até mais, mas não conseguia achá-los, nem mesmo visualizá-los.

Concluiu que se não abrisse os olhos ou voltasse a dormir logo, certamente ficaria louco. Tentou pensar na luz do dia, nas coisas que conhecia, nos sons e nas sensações, mas o silêncio e a escuridão eram absolutos. Nada formava-se na sua mente. Mas, em alguma coisa pensava; isto era certo! Pois se não pensasse como poderia incomodar-se com a impossibilidade de pensar? Isto era tão claro quanto sua lucidez absoluta, quanto o silêncio e a escuridão. Mas esse pensamento não era alcançável. Estava lá, tinha certeza, mas não conseguia achá-lo! De alguma forma, ele havia tornado-se... nada. Acreditava ter consciência de si; sabia que era si próprio, mas era como se fosse não ele mesmo, mas a ausência de si mesmo. Sentia-se como o espaço que ocupava no mundo, mas sem o corpo que ocupava o seu espaço. A sua existência parecia estar em um lugar inexistente. Sentia uma ausência absoluta, no tempo e no espaço. Ele não era mais; e poderia nunca ter sido! Seu existir poderia ser mera ilusão. Ilusão de sua mente inexistente.

Aterrorizou-se com a perspectiva de passar o resto da eternidade lúcido, tendo total consciência de que não existia. Especulou sobre o que poderia ter ocorrido: talvez sonhara um sonho recursivo, e nele se consumira (gostava muito de filosofar recursivamente). Talvez tenha encontrado o seu anti-ser, e nele tenha se desintegrado. Mas como podia não existir se pensava? Tentou pensar um pouco mais sobre o assunto. Não conseguiu mais. Percebeu que não controlava as idéias que pensava. Elas apareciam do nada. Eram elas a sua vida, sua consciência e lucidez. Ele era nada. Existia apenas como idéia pensada. A morte, que mais temia, era o esquecimento.

21.11.04

A Face Oculta da Lua, de Robert Lepage

Site do filme

"Antes do telescópio, as pessoas pensavam que a Lua era um grande espelho, e que as montanhas e oceanos em sua superfície luminosa eram meramente os reflexos de nossas montanhas e oceanos. Mais tarde, no século vinte, quando a primeira sonda lunar soviética nos enviou de volta imagens da face distante que nunca vemos, o mundo surpreendeu-se em descobrir que a Lua tinha um segundo rosto, mais profundamente arranhada pela queda de meteoros e outros restos de material cósmico. Os cientistas da NASA gostavam de chamá-la de "a face desfigurada da Lua". Esta ironia refletia o fato de que, daquele momento em diante, todas as crateras daquele lado seriam batizadas em homenagem a cosmonautas soviéticos e grandes escritores russos..."

Essa narrativa inicia o último filme do canadense Robert Lepage, com a imagem da Lua cheia de fundo, ao lado do majestoso Chateau Frontenac de Québec. É um filme metafórico que explora temas como narcisismo, isolamento e solidão, através de belas imagens e de uma história comovente. O tema central é a convivência difícil entre dois irmãos de personalidades opostas, na faixa dos quarenta anos, que têm que lidar com a morte recente da mãe. Ambos são representados no filme pelo próprio Lepage (que neste filme foi ator principal, diretor e roteirista). Filmado em vídeo digital, é o quinto filme do diretor canadense que é mais conhecido por suas obras para teatro, como a peça Os Sete Afluentes do Rio Ota. O filme também é baseado numa peça de teatro que Robert Lepage escreveu. Na peça, que tem o mesmo nome que o filme, ele representa sozinho todos os personagens. Ela foi apresentada em vários países, inclusive no Brasil, há dois anos.

Montagem feita com imagens do filme
Robert Lepage como Philippe e como André


A Lua e as viagens espaciais são uma obsessão de Philippe, o irmão mais velho. Seus conflitos, lembranças, sonhos e fracassos movimentam a maior parte do filme. Os espectadores compartilham a mente do personagem. Ele vive sozinho no mesmo apartamento onde foi criado e cuida do peixinho de estimação que pertenceu à sua mãe. Philippe é muito inteligente mas também muito introspectivo e anti-social. Tenta aprovar pela segunda vez sua tese de doutorado sobre filosofia científica, onde propõe a tese que a corrida espacial teve motivações narcisistas. Para sobreviver, trabalha como operador de telemarketing em um jornal, mas odeia o emprego. É um sonhador. Está sempre à procura o sentido das coisas, e tenta compreender o mundo e as pessoas apesar de nunca ter saido de sua cidade natal. Vive apegado ao passado e à memória de sua mãe.

André é o irmão mais novo e o oposto de Philippe. Meteorologista bem sucedido, é homossexual assuido e mora com o namorado num apartamento com a vista para o Chateau Le Frontenac, no bairro mais caro de Québec antiga. Pragmático, obcecado com moda e aparências, não liga para as questões profundas que ocupam a mente de seu irmão. Não entende como Philippe pode ficar tão preso ao passado e tenta convencê-lo a aceitar vender o apartamento da mãe.

Foto de divulgaçãoO relacionamento complicado entre os irmãos e as tentativas desesperadas de Philippe para ter suas idéias levadas a sério motivam, no filme, a exposição das lembranças do passado e reflexões filosóficas do irmão mais velho. Esses temas são explorados de forma muito criativa através de imagens que carregam diferentes significados, e que são usadas nas transições entre as cenas. Logo na abertura, Philippe está na lavanderia olhando para dentro de uma máquina de lavar. Pouco depois, ela torna-se a janela de um módulo espacial em órbita da Lua. O círculo é uma forma constante em todo o filme e assume diversos significados.

Para construir a história, Robert Lepage buscou inspiração na sua própria vida, misturando memórias e experiências da vida real, como as lembranças do pouso na lua quando criança, seu relacionamento com a mídia e a fama, seus conflitos com seu irmão mais velho e principalmente o sofrimento e morte de sua mãe devido a problemas renais (Germaine Lepage morreu de problemas renais em 1999, aos 74 anos de idade). Segundo o diretor, André e Philippe representam faces opostas da mesma pessoa. Esta foi uma das principais razões pela qual decidiu representar ambos os papéis no filme.

La Face Cachée de La Lune foi vencedor da mostra Panorama do Festival de Berlim este ano e foi indicado pelo Canadá como concorrente ao Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira.

Cartaz do filmeA Face Oculta da Lua
(La Face Cachée de La Lune)
(Canadá, 2003)

Direção, produção e roteiro: Robert Lepage
Elenco: Robert Lepage, Anne-Marie Cadieux
Site: http://www.lafacecacheedelalune.com


Este filme foi exibido na 28ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

11.11.04

Konstantin Tsiolkovsky, 1857-1935

Konstantin TsiolkovskiHoje reconhecido como o pai do foguete e pioneiro das viagens espaciais, o físico Konstantin Eduardovitch Tsiolkovsky foi mais que um visionário. Quinto filho de um imigrante polonês (que teve ao todo 18 filhos), Tsiolkovsky nasceu na Rússia em 17 de setembro de 1857. Sem poder freqüentar a escola, buscou educar-se por conta própria nos livros do seu pai e nas bibliotecas de Moscou. Publicou mais de 500 artigos sobre os mais variados assuntos, com destaque para aerodinâmica, engenharia de balões, viagens espaciais e filosofia. Também escreveu obras de ficção científica.

Desenhos de foguetes feitos por Tsiolkovski
Modelos de foguetes dos cadernos de Tsiolkovsky
Foi pioneiro em várias áreas da engenharia aeroespacial. Construiu o primeiro túnel de vento em 1897 e projetou um avião que chegou a voar em 1915, elaborou modelos para foguetes multi-estágio, estações espaciais, roupas espaciais e outros detalhes das viagens espaciais que nunca chegou a presenciar em vida. Propôs o uso de hidrogênio e oxigênio líquido como combustível para os foguetes (é o que se usa hoje nos ônibus espaciais). Foi o primeiro a determinar corretamente que a velocidade de escape para entrada em orbita é 8 km por segundo. Seus cadernos de anotações contém inúmeros diagramas descrevendo válvulas, câmaras de combustão, giroscópios e vários outros detalhes da engenharia de foguetes.

Tsiolkovsky era surdo. Sua deficiência, adquirida aos dez anos após uma febre, era uma motivação constante para superar-se e provar que poderia ser tão bom quanto as pessoas normais. Costumava dizer que a surdez teve um impacto positivo na sua vida e carreira, pois o silêncio lhe dera bastante tempo para si próprio e permitiu que surgissem idéias e conceitos que foram inovadores para a época.

Tsiolkovski usando um funil para ouvir
Tsiolkovsky usando funil de audição
Levou uma vida simples como professor de matemática em uma escola para crianças na província de Kaluga, onde foi professor para quase três mil alunos durante sua vida. Lá casou-se, teve sete filhos e viveu até os 78 anos. Seu trabalho foi tardiamente reconhecido na Rússia. Só depois que os alemães começaram a publicar seus resultados sobre foguetes, os russos passaram a levar a sério as publicações deste pacato professor primário de uma cidade interiorana. Em 1919 tornou-se membro da Academia Russa de Ciências e recebeu pensão do governo para continuar suas pesquisas.

Uma das primeiras idéias de Tsiolkovsky foi inspirada na torre Eiffel, durante uma viagem a Paris: uma torre que pudesse lançar objetos em órbita sem usar foguetes. A construção era tida como impossível, mas publicações recentes têm levado a idéia a sério. Um artigo publicado em 1999 pelo Journal of The British Interplanetary Society* por G. Landis da NASA, descreve como uma torre de 2,3 mil km de altura poderia ser construída com os materiais existentes hoje em dia, dentro de um custo e prazo razoáveis (menores que os custos atuais com viagens espaciais) e com uma massa (365 toneladas) inferior à da pirâmide de Quéops.

O site http://www.informatics.org/museum (do Museu Tsiolkovsky em Kaluga) contém uma biografia detalhada de Tsiolkovsky e alguns desenhos de seu caderno de anotações. Em http://www.russianspaceweb.com/tsiolkovsky.html há uma biografia mais crítica e imparcial do cientista e imagens de modelos de estações espaciais projetadas por ele.

* G.A. Landis. The Tsiolkovski Tower Re-examined. Journal of The British Interplanetary Society, Vol 52, pp. 175-180, 1999.

10.11.04

Émile Nelligan, 1879-1941

O poeta franco-canadense Émile Nelligan nasceu em Montreal, em 1879. Vinte anos depois teve um colapso psicótico e viveu até os 62 anos internado em um asilo de loucos. Toda a sua obra foi produzida entre 1896 e 1899, mas apenas 23 dos seus 108 poemas foram publicados quando estava com o juízo normal. Apesar da sua curtíssima carreira artística, sua obra é louvada pela extrema sensibilidade e originalidade.

Eu traduzi abaixo um dos seus poemas, que foi recitado pelo ator Robert Lepage em seu filme La Face Cachée de La Lune (sobre o qual eu escrevi uma resenha, mas ainda não postei). O poema reflete bem a obsessão do personagem do filme pela beleza de sua falecida mãe, que ele vê como a imagem da perfeição.

Diante de dois retratos de minha mãe
Émile Nelligan (1879-1941)

Amo minha mãe neste quadro plano
Pintada nos seus anos de menina
Face alva, olhar que ilumina
Tal qual um espelho veneziano

Aqui, minha mãe, não é mais suprema
Rugas marcam seu rosto conservado
Perdeu o brilho do tempo passado
De núpcias cantadas como poema.

Hoje eu comparo os dois descontente
A face alegre e a face triste
Densa névoa em áureo poente.

Mistério no meu coração persiste
Por que, aos lábios tristes, eu sorri?
E ao sorriso, chorei, quando o vi?
Perde-se muito em tradução, principalmente poesia onde interessa preservar a forma. Talvez eu ainda possa melhorá-la. Segue o poema original:

Devant deux portaits de ma mère
Émile Nelligan (1879-1941)

Ma mère, que je l'aime en ce portrait ancien,
Peint aux jours glorieux qu'elle était jeune fille,
Le front couleur de lys et le regard qui brille
Comme un éblouissant miroir vénitien !

Ma mère que voici n'est plus du tout la même;
Les rides ont creusé le beau marbre frontal;
Elle a perdu l'éclat du temps sentimental
Où son hymen chanta comme un rose poème.

Aujourd'hui je compare, et j'en suis triste aussi,
Ce front nimbé de joie et ce front de souci,
Soleil d'or, brouillard dense au couchant des années.

Mais, mystère de coeur qui ne peut s'éclairer !
Comment puis-je sourire à ces lèvres fanées ?
Au portrait qui sourit, comment puis-je pleurer?

A obra de Émile Nelligan (em francês) está em domínio público e pode ser encontrada na Internet. Confira nos sites http://www.emile-nelligan.com ou http://www.collectionscanada.ca/canvers/t16-204-f.html.