29.10.04

Cinco, de Abbas Kiarostami

Cenas de Cinco

Um filme minimalista ao extremo, com um ritmo muito, mas muito lento. Se eu fosse escolher um filme para definir o Zen, seria este, pois é um daqueles filmes onde se compreende claramente o que ele quer expressar, desde que se desista de tentar entendê-lo racionalmente. Antes do início do filme (eram 23:45, e várias pessoas estavam no CineSESC desde o início da tarde) o diretor advertiu à platéia que não tentasse encontrar lógica no filme. "Relaxem" ele disse, "e se tiverem sono, fechem os olhos e durmam que eu não ficarei chateado."

Dedicado ao cineasta japonês Yasujiro Ozu, Cinco é um conjunto de cinco cenas longas (1h15 no total). As cenas foram feitas diante do Mar Cáspio, próximo da residência do diretor. Foi usada uma filmadora digital que, na maior parte dos filmes, permanece totalmente estática. As cenas, vistas objetivamente, parecem banais, mas a concentração que conseguem extrair do espectador realizam a mágica de transformá-las em histórias dramáticas. É como ler um livro que estimula a imaginação, ou ainda como mergulhar nas possibilidades de uma obra de arte abstrata. Cada filme é algo parecido com uma pintura. Não sei se seria a mesma coisa assistir em vídeo. A concentração total é fundamental para viver a experiência.

A primeira história retrata a saga e o "sofrimento" de um toco de madeira na sua luta contra as ondas do mar que quer levá-lo embora (eu não vou conseguir descrever isto objetivamente). O momento de maior tensão é quando o mar finalmente consegue quebrar o toco em duas partes. Uma parte flutua e vai embora, e ficamos na esperança de um reencontro. Perto do fim, ele reaparece, mas não volta mais e é levado pela correnteza.

A segunda história mostra pessoas que passam em um calçadão diante da praia. Vez ou outra passa uma pessoa, ora mais perto da câmera, ora mais distante. A sua chegada é antecipada por um ou dois pombos, que fogem apressados dos passantes (mas nunca chegam a voar). Num certo momento, um grupo de velhos se encontra e se reúnem para discutir. Não dá para ouvir o que eles dizem, tampouco ver qualquer expressão em seus rostos. No fim, eles vão embora, a cena fica vazia e começa a ficar menos nítida. Quando aves começam a aparecer ao longe, no céu, a cena vai terminando, muito lentamente enquanto o contraste diminui e o brilho aumenta.

A terceira história é uma história de amor e de muita preguiça. Inicialmente, vê-se umas manchas perto da praia. Depois de um tempo percebe-se que trata-se de uma matilha de cães. Uma das manchas, de pele malhada, deve ser a fêmea que está no cio. Em volta dela uns cinco machos. A cena é muito lenta e deve durar uns 20 minutos. Os cães estão com uma preguiça imensa. Vez ou outra um se levanta e muda de lado. Outro levanta-se, balança o rabo e fica do lado da fêmea. E depois um deles senta, depois outro senta, e ficam parados. Tudo sempre muito devagar. Num certo momento, a fêmea levanta-se e preguicosamente se afasta deles até deitar-se no lado esquerdo da tela. Pouco a pouco os cães vão se levantando, muito lentamente, e se agrupam pouco a pouco perto da fêmea. Não dá para perceber, mas a imagem vai ficando cada vez menos nítida. E de novo eles se levantam. E de novo outro balança o rabo. Tudo muito lento. No fim, a imagem já é quase branca e três manchas pretas imóveis descansam diante das ondas.

A quarta história é uma comédia. Primeiro, voltamos a ver a cena da praia, com o ruído das ondas quebrando na areia vazia. De repente, ouve-se um quac e eis que um pato surge do nada quebrando a tranquilidade da cena. Depois chega outro pato, andando calmamente para a direita. Depois passa mais um, correndo. Patos brancos, patos marrons, malhados, grandes, pequenos, de todos os tipos. Em pouco tempo centenas de patos estão passando em procissão, ora rápido ora lentos para a direita. Lá pela metade da cena, depois de muitos patos terem passado, eis que um pato pára, faz quac para o outro que vem atrás, que também pára. E então, começam a andar no outro sentido. E aí todos os outros patos surgem correndo no sentido contrário.

A última cena ocorre na escuridão total. Ouvimos sons de sapos, latidos ao longe, uivos e trovões distantes. Finalmente uma pequena mancha aparece. É o reflexo da lua na água. Parece ser uma lagoa. Pontinhos se movem e pulam de um lado para outro. É deles que vêm os sons. São sapos. Vários e diferentes coaxares são ouvidos. Uns parecem frágeis, como o som de um grilo. Outros soam mais agressivos, principalmente quando respondem ao som do mais frágil. Vez ou outra aparece um coaxar estranho que pare reclamar da vida. É muito engraçado. E assim prossegue a melodia da lagoa. De vez em quando os sapos se calam e ouvimos latidos de cachorros. Os trovões se aproximam. Ficam mais fortes. Chuva. Escuro total. Relâmpagos iluminam a chuva por um breve instante. Terminada a chuva, volta o reflexo da lua, das nuvens, dos sapos. Voltam os coaxares. Cães uivam e finalmente os galos começam a cantar. Já está amanhecendo e o filme termina com o céu azul refletindo na lagoa.

Vale a pena assistir este filme, se não pelo cinema, pelo menos como uma relaxante sessão de meditação.

Cinco, de Abbas Kiarostami, ainda será exibido na 28a. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no dia 04 de novembro, às 13h30, no Frei Caneca Unibanco Arteplex 2.

28.10.04

O cinema de Abbas Kiarostami

Abbas Kiarostami antes da exibição de um de seus filmes no CineSESC
Abbas Kiarostami antes da exibição de um de seus filmes no CineSESC.

O cineasta iraniano Abbas Kiarostami está sendo homenageado com uma retrospectiva na 28ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Na quarta, o CineSESC dedicou todas as seis sessões ao cineasta. Dos filmes apresentados, dois eram inéditos. O penúltimo, 10 sobre Dez (2004), faz referência a dois outros que foram exibidos antes: Gosto de Cereja (1996) e Dez (2002). O último, Cinco (2004), é um filme mudo que foi exibido às 23:45. Eu falarei sobre ele no próximo post.

Cenas de Gosto de CerejaGosto de Cereja (Palma de Ouro em Cannes, 1997) é sobre um homem vai se suicidar. Dirige seu carro na periferia de Teerã procurando alguém que esteja disposto a enterrá-lo, depois que ele estiver morto. Ele tem dinheiro e oferece a todos os que encontra, mas a maioria não aceita. Finalmente ele encontra um cientista disposto a ajudá-lo, mas que tenta convencê-lo a não se suicidar. O filme levanta questões interessantes sobre o direito ao suicídio, sobre a liberdade e a natureza da compaixão.

Extremamente minimalista, Dez, é uma história em dez capítulos que se passa totalmente no interior de um carro. Em cada capítulo acontece um diálogo entre o passageiro e a motorista. Para filmá-lo foram usadas duas câmeras fixas, uma apontada para a motorista e a outra para o passageiro. O diretor não estava presente no setde filmagem (o carro). No primeiro capítulo, a câmera fixa em uma criança sentada no banco do passageiro que discute com a sua mãe - a motorista - que é divorciada do seu pai. Somente já perto do final da primeira cena é que a câmera passa a focar a motorista. Depois que o filho desce do carro, termina o primeiro capítulo. Ela transporta e conversa com outros cinco passageiros (entre elas uma senhora idosa, uma prostituta, sua irmã e uma mulher que foi abandonada pelo marido), que expõem os seus mais diversos conflitos, refletindo um pouco dos valores e da cultura da sociedade iraniana. Nem todos os passageiros aparecem. Alguns só são ouvidos enquanto a câmera mostra as reações no rosto da motorista.

Cenas de DezEu não sei exatamente como descrever Dez sobre dez. Diria que é um documentário, um meta-filme - uma espécie de making-of de Dez, uma aula de cinema imperdível ministrada por um professor que inventou suas próprias teorias sobre o cinema. Como Dez, o filme inteiro ocorre no interior de um carro, e tem dez capítulos ou lições. Como Gosto de Cereja, viaja pelas estradas sinuosas da periferia de Teerã. No volante, o próprio Abbas Kiarostami é observado por uma câmera digital fixa, enquanto conversa com o passageiro (que é o espectador) mantendo sempre a atenção na estrada. Para mim o filme foi uma surpresa muito agradável, não só pelo formato original do documentário, mas pelas idéias geniais, senso de humor e opiniões estimulantes do cineasta iraniano. Terminado o filme, fiquei com vontade de comprar uma filmadora digital e começar a fazer uns experimentos cinematográficos.

Veja o site da Mostra para horários e locais onde serão exibidos filmes de Abbas Kiarostami.

27.10.04

Contra a Parede

Foto de divulgação: http://www.gegendiewand.de

Há 18 anos um filme alemão não vencia o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Na edição deste ano o jejum foi interrompido pelo filme Contra a Parede (Gegen Die Wand), do diretor alemão de origem turca Fatih Akin, que faz parte da 28ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme é um comovente drama moderno que retrata com fidelidade os conflitos culturais dos emigrantes que deixaram a Turquia em busca de uma vida melhor na Alemanha. Sua estréia no Brasil está prevista para o mês de janeiro.

"Você pode dar fim a sua vida sem se matar", diz o médico a Cahit Tomruk (Birol Ünel), um homem de 40 e poucos anos, inquieto e cheio de conflitos existenciais. Ele se encontra em uma clínica psiquiátrica por ter jogado seu carro contra uma parede, bêbado, depois que foi expulso de um bar onde envolvera-se em uma confusão. Cahit leva um estilo de vida auto-destrutivo e está sempre irritado com todos e com o mundo.

Sibel Güner (Sibel Kekilli) é uma jovem pertencente a uma tradicional família turca que mora em Hamburgo. Ela quer beber, transar e se divertir da forma como ela acredita que vivem as jovens alemãs da sua idade, mas não pode devido ao controle rigoroso de sua família cujos hábitos e costumes são incompatíveis com o país onde vivem. Sem conseguir libertar-se das amarras da família, ela tenta se matar cortando os pulsos, e é internada na mesma clínica.

Quando Sibel encontra Cahit na clínica e descobre que ele é turco, não hesita em pedir para casar-se com ele. Insiste que seria apenas formalmente, apenas para libertar-se da família, e que seus pais certamente o aceitariam devido à sua origem turca. A princípio ele a ignora, e a toma como louca. Mas em outra ocasião, na cantina do hospital, presencia quando ela é repreendida pelos pais. Sempre que encontra Cahit nos corredores do hospital, Sibel insiste. Garante que não quer nada dele, e propõe-se a bancar todos os custos. Cahit começa a pensar no assunto até que acaba aceitando a idéia, talvez por querer mudar de vida e decidir seguir o conselho do médico. Depois de alguns incômodos (e hilários) encontros de Cahit com a família de Sibel, casam-se, e passam a compartilhar o mesmo apartamento. Ambos levam uma vida sexual independente, mas a convivência os aproxima e aos poucos, essa liberdade começa a incomodá-los. Quando finalmente descobrem-se apaixonados, já é tarde demais.

Foto de divulgação: http://www.gegendiewand.de

Depois que Cahit envolve-se em uma briga movida por ciúmes, acaba provocando uma tragédia. A história toma outro rumo, e fica menos interessante. Os personagens já não são os mesmos, e não conseguem manter o mesmo ritmo contagiante do início. Apesar disso, a imprevisibilidade dos seus atos, o futuro incerto e a impecável atuação dos dois atores seguram a atenção do espectador - agora transportado para as ruas de Istambul - até o desfecho final.

O filme inicia e termina com uma cena que mostra um conjunto de músicos turcos, tocando ao ar livre às margens de um rio com a paisagem urbana de Istambul ao fundo. A cena reaparece em alguns momentos no meio do filme, dividindo a história em "capítulos". Os versos cantados pela cantora refletem os eventos vividos pelos personagens.

Sibel Kekilli. Foto: AP
A atriz turca
Sibel Kekilli
Contra a Parede é um fiel retrato da situação dos imigrantes turcos na Alemanha, contado do ponto de vista de um turco. Fatih Akin, nascido em Hamburgo, é, como seus personagens, descendente de uma família turca. Conflitos entre os imigrantes e seus filhos são comuns, uma vez que as crianças costumam se adaptar melhor à mudança de cultura, enquanto seus pais, que temem as liberdades e hábitos do país em que vivem, tentam controlá-los em vão. O filme foi um grande sucesso de bilheteria em Istambul e Sibel Kekilli tornou-se uma celebridade nacional da noite para o dia. No filme, o pai de Sibel Güner, deserda a filha quando toma conhecimento dos escândalos nos quais a filha se envolveu. No mundo real, dois dias depois de ganhar o Urso de Ouro, um tablóide alemão divulgou que Sibel havia iniciado sua carreira atuando em filmes pornográficos. Ao tomar conhecimento do fato, o pai de Sibel Kekilli, turco que vive na Alemanha desde os anos 70, deserdou sua filha ao vivo durante uma entrevista para um programa de TV.

Cartaz de divulgação do filmeContra a Parede (Gegen Die Wand) (Alemanha, 2004)

Direção: Fatih Akin
Roteiro: Fatih Akin
Fotografia: Rainer Klausmann
Elenco: Birol Ünel, Sibel Kekilli, Catrin Striebek, Gven Kirac
Site: http://www.gegendiewand.de



Última apresentação na 28a. Mostra de São Paulo, hoje, dia 27, às 18:10h no Espaço Unibanco 1. Estréia nacional 07 de janeiro de 2005.

26.10.04

O Operário

Foto de divulgação: www.maquinistmovie.com
Eu estava exausto e faltavam 15 minutos para a meia noite quando assisti este filme. Mas não dá para dormir. A insônia do personagem é contagiosa, e a curiosidade para descobrir o mistério que o atormenta faz com que a passagem do tempo seja esquecida até o momento final, quando tudo é revelado. Ainda terá duas apresentações na mostra. Não há lançamento previsto no Brasil.

Trevor Resnik é operador de uma máquina em uma fábrica. Tem insônia crônica. Há um ano não consegue dormir e sua saúde física e mental vem se deteriorando. Está tão magro que e pálido que parece um morto vivo. O seu esgotamento o afasta dos colegas e das outras pessoas. Sua vida social resume-se a encontros com uma prostituta e visitas a uma garçonete que trabalha no aeroporto, do outro lado da cidade. Seu stress acaba levando-o a ser responsável por um acidente de trabalho que leva um colega a perder um braço. Ele alega ter sido distraído por um funcionário que ninguém nunca viu, e começa a ficar paranóico. Começa a achar que todos tramam contra ele, que desejam vingança, que querem deixá-lo louco.

O filme inteiro parece um tipo de pesadelo. O ambiente tenebroso da fábrica, a expressão cansada dos operários, a baixa saturação das cores e a pouca luz ajudam a criar um clima sombrio que intensifica a sensação de terror crescente do filme. O espectador compartilha a mente de um personagem que aparenta estar perdendo a razão, e não tem certeza se o que vê é real ou imaginário. O terror aumenta à medida em que Trevor começa a investigar as coisas estranhas que acontecem à sua volta.

Christian Bale
Christian Bale antes das filmagens
Trevor Resnik é Christian Bale, o ator que fez o garoto do filme Império do Sol, de Stephen Spielberg. A sua atuação é muito convincente, mas o que chama mais atenção é a forma como ele se entregou ao papel. Para interpretar o esquelético Trevor, Bale, que tem um metro e 88 de altura e pesa 86 kg, teve de perder peso e ficou parecendo uma vítima do holocausto nazista aos 58 quilos. Seus 28 quilos perdidos são considerados um recorde na indústria do cinema. Nenhum ator perdeu tanto peso para representar um papel. Segundo os produtores, ele ainda queria chegar aos 50 quilos mas não o fez por temer conseqüências à sua saúde.

Filmado em Barcelona, o filme foi dirigido por Brad Anderson (Próxima Parada: Wonderland), com roteiro de Scott Kosar (O Massacre da Serra Elétrica). Kosar diz ter buscado inspiração em várias fontes, que incluem suas próprias paranóias, filmes de Hitchcock, o conto O Duplo, de Dostoiévski e os filmes O Inquilino (1974), de Roman Polanski e O Amigo Americano (1977), de Wim Wenders, todas obras psicológicas onde o protagonista enfrenta a própria loucura.

Cartaz de divulgação do filme: FilmaxO Operário (The Machinist)
(EUA, 2004)

Direção: Brad Anderson
Roteiro: Scott Kosar
Fotografia: Xavi Giménez
Trilha sonora: Roque Banos
Elenco: Christian Bale, Jennifer Jason Leight, Aitana Sánchezp-Gijón, John Sharian
Produtor: Júlio Fernandez
Site: http://www.machinistmovie.com




Apresentações na 28a. Mostra de São Paulo: dia 23, às 23:45h no Frei Caneca Unibanco Arteplex 2; dia 24, às 13:30h, no CineSESC; dia 01, às 16:10, no Espaço Unibanco 1; dia 02, às 20:30, na Sala UOL de Cinema.

25.10.04

A Pessoa é para o que Nasce

Conceição, Regina e Maria Barbosa em apresentação no Percpan. Foto de divulgação do filme - http://www.borntobeblind.com
Conceição, Regina e Maria Barbosa em apresentação no Percpan com Gilberto Gil. Foto:http://www.borntobeblind.com

Lembro-me delas desde criança. Estavam sempre as três, ao lado da Livraria Pedrosa, no centro da cidade, juntas, cantando emboladas e balançando seus instrumentos de percussão em troca das esmolas dos passantes. Quem vive ou viveu em Campina Grande (PB) nas décadas de 80 ou 90 (ou mesmo antes) com certeza há de lembrar-se das três irmãs cegas que são tema do documentário A Pessoa é para o que Nasce, do carioca Roberto Berliner, em cartaz na 28ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme não apenas retrata a história, a arte e o cotidiano dessas três mulheres corajosas, mas o efeito que o cinema teve em suas vidas.

Roberto conheceu as irmãs Maria, Regina e Conceição Barbosa em 1997, quando viajou a Campina Grande para produzir um episódio de uma série de TV sobre artistas anônimos. O programa o motivou a produzir, em 1998, um curta-metragem sobre as três. O curta foi premiado no Brasil e no exterior e contribuiu para transformar as três mulheres em celebridades. A partir daí foram convidadas por Gilberto Gil e Naná Vasconcelos para se apresentarem no Percpan - encontro internacional de percussionistas realizado em São Paulo e Salvador. Roberto acompanhou as irmãs Barbosa durante toda a turnê. O cachê recebido permitiu que elas melhorassem de vida e se mudassem para uma nova casa. Porém, na minha última visita a Campina Grande, há pouco tempo, encontrei as duas irmãs mais novas pedindo esmolas no mesmo lugar.

Conceição e Regina Barbosa, em setembro/2004
Conceição e Regina Barbosa, em setembro/2004

O filme retrata o cotidiano das personagens documentadas em várias fases de sua vida, revelando suas estratégias de sobrevivência, suas histórias de amor e de tragédia, a fama momentânea causada pelo encontro com o cinema e a convivência de vários anos (desde 1997) com o diretor, que acabou tornando-se, também, personagem da sua própria obra. É estimulante ouvir as histórias da valente Maria, duas vezes casada e duas vezes viúva, mãe de Dalvinha e responsável pelas irmãs mais novas. É um filme corajoso, que vence o preconceito de olhar para estas pessoas que não podem olhar de volta. Longe de violar-lhes a privacidade, nos aproxima de seres humanos vitoriosos, cujas deficiências não são impedimentos para sua felicidade.

Postal de divulgação do filme A Pessoa é para o que NasceA Pessoa é para o que Nasce
(Brasil, 2003)

Diretor: Roberto Berliner
Roteiro: Maurício Lissovsky
Fotografia: Jacques Cheuiche
Produção: TV Zero, Rio de Janeiro


Site: http://www.borntobeblind.com. O site permite download de fotos, do curta-metragem e de arquivos MP3 com gravações de músicas cantadas pelas irmãs Barbosa.


Apresentações na 28a. Mostra de São Paulo: dia 22, às 18h no Espaço Unibanco 1; dia 27, às 14h, na Sala UOL; dia 31, às 22:15, no Cineclube DirecTV 3.

22.10.04

Mostra de cinema em São Paulo

Stand central da Mostra, no Conjunto Nacional em São Paulo
Hoje começou a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (na verdade começou ontem, mas a sessão era só para os VIPs - e eu não sou um deles). São mais de 300 filmes em salas espalhadas pela cidade eu tenho pouco mais que uma semana. Deu um trabalho dos diabos montar uma agenda, driblar os conflitos de horário, lidar com tempo de deslocamento, etc. mas não adiantou muito. O primeiro dia já não saiu como planejado. Eu ia assistir três filmes e uma peça, mas esqueci que morava em São Paulo e que, numa sexta-feira, à tarde, em São Paulo é praticamente impossível estar em dois lugares diferentes. O trânsito é cruel com os céticos ou distraídos que não observam essa regra. No fim, consegui chegar atrasado no teatro e não pude ver a peça, perdi um filme e consegui chegar no outro na hora que ia começar. Conclusão: só assisti a um filme: A Pessoa é para o que Nasce (Roberto Berliner, Brasil, 2003) e só. Mas valeu a pena. O filme é uma obra de arte. Amanhã (ou domingo, pois não sei que horas chego amanhã) publicarei aqui um artigo sobre o filme.

É minha intenção escrever pelo menos um artigo por dia neste blog sobre os filmes que eu conseguir assistir na Mostra (se eu conseguisse ser um pouquinho mais objetivo eu até escreveria sobre todos, mas filmes costumam dispersar minhas idéias e no fim, não vou conseguir terminar os textos.) Amanhã (sábado) vou tentar assistir Terra da Fartura (Wim Wenders, Alemanha, 2004) e O Operario (Brad Anderson, Espanha, 2004).

21.10.04

Sobre os direitos dos corpos sem cérebro

Embrião humano saudável.
O que é um corpo sem cérebro, que nunca teve um? É uma pessoa? Se uma célula evolui e forma um corpo de uma criança, com todas as características de uma criança, mas sem um sistema nervoso autônomo que possa mantê-la viva quando for desligada do aparelho que a mantém (o corpo da mãe), pode-se dizer que esse corpo é uma pessoa? Se não for como se pode falar de aborto de um corpo sem cérebro, se ele nunca foi um ser vivo independente nem tem potencial de se tornar um?

Se nada disso é relevante para a discussão, para que serve a ciência então? Seria melhor não saber que sem cérebro ninguém vive; seria melhor que não se pudesse saber nada sobre um bebê antes de nascido. Mas o problema é que se sabe. E agora? O sofrimento existe porque se sabe dessas coisas. Mas agora, o nosso Estado - supostamente democrático, que supostamente representa nossos interesses, que criamos para facilitar nossas vidas - decide que é crime interromper o sofrimento da mãe que, com a ajuda da ciência, descobre ter no útero um corpo morto, que só se mexe, que só pulsa porque está ligado a um aparelho - o corpo da mãe.

Confesso que eu fico estarrecido ao ler os argumentos dos juristas em defesa da "vida" de fetos anencefálicos. Quanto à religião eu não discuto. A Igreja não é uma instituição democrática e os dogmas não podem ser questionados. Mas o Estado não foi por nós criado para legislar em favor de nenhuma religião. Acho que quem descobre que seu bebê vai nascer sem cérebro tem o todo o direito de esperar até o parto, se suas convicções religiosas assim o guiarem, como interromper a pseudo-gestação, com base em argumentos científicos aceitos há muito tempo: que nenhum ser humano vive sem cérebro. A própria justiça usa o critério de morte cerebral para decidir quando órgãos devem ser transplantados.

É tão difícil justificar eticamente essa decisão que os argumentos que surgem chegam a ser absurdos. Todos são claramente religiosos, mesmo quando dizem basear-se em ética laica. Na Folha de hoje um leitor chegou a sugerir que os fetos se desenvolvessem no útero da mãe pelo menos para poder doar os órgãos quando nascesse. Eu outro artigo li uma crítica acusando de materialismo os que defendiam o "aborto" (entre aspas, de propósito) de fetos anancefálicos. Ora, o que é mais apego material? Será que esperar o nascimento de um corpo sem cérebro em forma de criança, abraçar o corpo, curtir sua curta "vida" não é apego material? É possível manter órgãos ou corpos vivos em soluções nutritivas, com a ajuda de aparelhos, etc. Se desligar um corpo em forma de criança de um aparelho for crime, deve ser crime também amputar um braço ou uma perna, uma vez que é possível mantê-los vivos por horas ou até dias, com ajuda de aparelhos.

Eu me pergunto também se será crime fazer um parto via cesariana com seis ou sete meses de gestação, já que se sabe que a "criança" vai "morrer". Será que sua pseudo-vida intra-uterina terá que ser prorrogada ao máximo?

Como falei anteriormente, não discuto as razões da religião. Quem segue uma religião tem todo o direito de agir em função de seus princípios. O que não se pode aceitar é que a justiça de um estado laico imponha valores religiosos a todos os cidadãos de um país onde se aceita a liberdade religiosa. Para a justiça a situação ainda é mais vergonhosa quando se compara com as situações onde o aborto é aceito. No caso de estupro existe um ser vivo ou com potencial de vida real, mas a justiça permite que ele seja abortado. A religião cristã aqui pelo menos é mais coerente e não aceita o aborto. Mas a justiça brasileira, supostamente laica, supostamente amparada em preceitos lógicos e científicos, não oferece nenhuma proteção a um filho concebido de forma ilegítima e violenta, porém esforça-se para proteger de todas as formas uma massa de carne em forma de criança que jamais poderá transformar-se em um indivíduo. Não é uma contradição? Cérebros aparentam estar em falta no Supremo Tribunal Federal.

19.10.04

"A Vila" de Philip K. Dick

"The time is out of joint - O cursed spite,
That ever I was born to set it right!"
William Shakespeare, Hamlet: 188-189, Scene V

Salvador Dalì: Persistência da MemóriaRagle Gumm vive com sua irmã, cunhado e sobrinho numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos. O ano é 1959. Auge da guerra fria. O seu cunhado e sua irmã trabalham fora, e ele fica em casa o dia inteiro resolvendo quebra-cabeças de um concurso nacional de jornal. Ele vem ganhando um concurso atrás do outro há dois anos, e com os prêmios, contribui para a economia doméstica. Por causa do concurso, todos o reconhecem nas ruas. Veterano da segunda guerra mundial, ele vive uma vida tranqüila, apesar de ter alucinações ocasionais e ter se apaixonado pela esposa do vizinho. Mas um dia Ragle começa a entrar em crise existencial, a questionar o sentido da vida e outras coisas. Aprofunda-se em questões filosóficas. Procura significado nas alucinações. Começa a ficar paranóico e achar que o mundo inteiro está o observando. Um dia, depois de sintonizar um rádio feito pelo seu sobrinho e ouvir seu nome numa transmissão, conclui que está ficando louco. Decide então deixar o concurso de lado e fazer uma viagem para fora da cidade, quando descobre que não consegue, pois uma série de acontecimentos banais e aparentemente naturais (carros quebrados, rodoviária paralisada, fiscalização nas estradas) impedem que ele saia. As pessoas e as coisas não parecem mais reais. Os eventos parecem automáticos, mecânicos. Parece que todo o mundo gira em torno dele.

Philip K. Dick
Philip K. Dick
Assim começa Time Out of Joint, livro escrito em 1959 pelo escritor americano Philip K. Dick. Falecido em 1982, Dick foi autor de contos e livros de ficção científica que inspiraram filmes como Blade Runner (1982), O Vingador do Futuro (1990), Minority Report (2002), Impostor (2002), O Pagamento (2003). É impossível ler o livro e não perceber semelhanças com dois filmes recentes: A Vila (2004), de M. Night Shyamalan, e principalmente, O Show de Truman (1998) de Peter Weir. Em todas as histórias há dois mundos e uma redescoberta do conceito de realidade quando o segundo mundo é revelado. Neste aspecto, todas as histórias assemelham-se também aos filmes Matrix (1999), 13o. andar (1999) e ao mito da caverna contado por Platão em A República.

À medida em que alimenta sua paranóia, Ragle questiona por que nunca teve vontade de deixar a cidade. Pistas como revistas encontradas numa ruína, que falavam de pessoas famosas que ele nunca ouvira falar, ou uma lista telefônica de telefones inexistentes reforçam sua tese conspiratória. Depois de uma tentativa frustrada de deixar a cidade, teve a certeza de que estavam observando sua vida. Havia sempre um veículo suspeito perto de sua casa e nos locais para onde ia. Finalmente, com a ajuda do cunhado, tramou uma fuga roubando um dos caminhões que o vigiavam e seqüestrando o motorista. Com isto, conseguiu escapar, passando pelas barreiras policiais, para descobrir que o mundo real era outro. O tempo era outro. Era 1998. A sua história de veterano de guerra era falsa. Tudo era falso. Sua realidade era falsa.

Gradualmente, sua memória foi retornando. Ele era Ragle Gumm, milionário, estilista, exímio decifrador de enigmas. O mundo estava em guerra. Mísseis eram enviados diariamente para bombardeá-los, mas um sistema de anti-mísseis sempre adivinhava onde o míssil ia cair. Era ele quem salvava o mundo. Todos os dias, quando Ragle acertava o concurso do jornal, ele estava na verdade adivinhando onde o míssil ia cair, sem o stress de imaginar quantas vidas seriam perdidas se errasse.

A história é muito interessante. Daria uma boa adaptação. Eu, pessoalmente, não gostei do final do livro nem de vários trechos desnecessários, mas isto é típico dos livros de Philip K. Dick. Ele escrevia muito e não passava muito tempo revisando pois tinha que sobreviver escrevendo (e os editores de ficção científica nunca tiveram muita preocupação com essas questões). O ruim de livros de ficção científica antigos são detalhes que ficam obsoletos (o livro foi escrito em 1959, e imaginava um 1998 com colônias na Lua e em Vênus). Mas a essência da história não depende desses detalhes. Vale a pena ler. O livro foi publicado em português, em 1985, com o título O Homem Mais Importante do Mundo, pela editora Livros do Brasil, de Portugal. Parece estar esgotado em português (o título é terrível, mas quem sabe a tradução não se salva?)

Time Out of Joint
Philip K. Dick
Vintage Books
US$ 10.40 na Amazon.com



15.10.04

Os que ensinam; os que aprendem

Claude Lefebvre (1637-1675): O mestre e seu aluno
Claude Lefebvre (1637-1675): O mestre e seu aluno (Louvre)

A retenção do conhecimento sempre foi uma fonte de poder. O professor age na direção contrária, difundido o que sabe, diminuindo a concentração de poder, diminuindo a desigualdade social. Mesmo quando não revela nenhuma informação específica, ele indica caminhos, estimula a busca e a curiosidade. A sua existência é uma ameaça a poderes tirânicos. O mestre estimula a curiosidade, tenta seus alunos para que saiam de suas jaulas, instiga seus alunos a buscar o mundo fora de todas as jaulas. É um subversivo que ajuda a formar indivíduos, e não sombras do sistema.

Como professor, acredito que o professor tem hoje, como principal tarefa, estimular seus alunos para que despertem o interesse de buscar os conhecimentos por si próprios. Vale muito mais conseguir motivar que conhecer a fundo o assunto que se ensina. A motivação estimula a aprendizagem. Só quem aprende mesmo é o aluno, se ele quiser, se ele tiver interesse. Ensinar não é impor fatos, fórmulas ou dogmas. Se assim fosse, seria lavagem cerebral, adestramento (e infelizmente, muitas vezes é). Ensinar é guiar, iluminar, facilitar para que o outro encontre seu próprio caminho. O professor tem que ajudar a formar autodidatas, pessoas capazes de descobrir, no universo de informações espalhadas pelo mundo, o que vale a pena aprender, o que faz sentido aprender, dentro do que desejam para suas vidas. Ajuda a educar o aluno para que ele valorize a informação não pela autoridade de quem ensinou, mas pelo significado que tem para a sua vida.

Nenhum professor verdadeiro diz o que é melhor para você. Não acredito em professores que se tornam deuses, impõem seus dogmas e adestram seus alunos utilizando a sua autoridade ou de quaisquer autores. Nenhum mestre verdadeiro deseja ser venerado. O professor estimula a inteligência dos alunos, revela-se, expõe-se, entrega-se, torna-se vulnerável. Vale muito o professor que consegue fazer com que os alunos acreditem em si mesmos. Ele ajuda a formar indivíduos conscientes do seu potencial, que não têm medo de discordar de convenções, idéias, autoridades de sua época ou épocas passadas.

O melhor professor nada retém. Também não acredito em professores que escondem o que sabem. O melhor professor não tem medo de ser superado, pois ele nunca deixou de ser também aluno. É um eterno aprendiz. Aprende com o mundo, com a natureza, com os livros, com outros mestres e principalmente na convivência com seus alunos, mesmo que sejam apenas leitores. O melhor professor ajuda a formar pessoas que irão, um dia, superá-los. A razão de existir de um mestre é ser superado pelos seus alunos. Isto é a sua maior realização, pois comprova a sua competência.

É uma pena que os professores - principalmente os mais indispensáveis, que são os de ensino básico - sejam tão desvalorizados. Sem eles não seríamos sequer civilização. Acho que nem trogloditas nômades seríamos. Continuamos a punir aqueles que ousam difundir o conhecimento, enquanto premiamos os que enriquecem ao retê-lo. Lembramos deles neste dia, para não precisar pensar nisto pelo resto do ano.

12.10.04

Concerto no Parque

John Neschling e a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) - Foto de Helder da Rocha
Domingo, dia 10, houve concerto no Parque do Ibirapuera. A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), regida por John Neshling e o pianista Nelson Freire executaram obras de Tchaikovsky, Grieg, Guerra-Peixe e outros. Houve bis e participação da platéia (que resistiu à brusca mudança de temperatura do domingo). Foi muito bom.

Fazia tempo que eu não assistia a um concerto da OSESP. Até o ano passado, eu assistia a pelo menos dois concertos por mês na Sala São Paulo, geralmente aos sábados. Este ano, estou dando prioridade ao teatro. Mas não tem só concerto nos sábados, o problema é que tenho viajado durante a semana. Sempre que amigos que gostam de arte vêm à São Paulo, procuro levá-los à Sala São Paulo. Se você mora em São Paulo e nunca foi na Sala São Paulo, ou se é de fora e estiver visitando a cidade, aproveite para conhecer uma das melhores orquestras do mundo. O ingresso não é caro. Só a visita à Estação Júlio Prestes já valeria à pena. Tente ficar nas laterais em baixo, perto da frente, do lado esquerdo. Eu também gosto de assistir do coro, quando está disponível. É barato (menor preço), fica mais perto dos instrumentistas e de frente para o regente. Só perde-se um pouco quando há um solista (que fica de costas), ou quando os metais (mais próximos) concorrem com as cordas. Veja a programação de 2004 em http://www.osesp.art.br e compre com antecedêcia (esgotam rápido). São vários concertos por semana com repertórios variados. Sempre vale a pena.

Agora tem música no Fotolog. Para ouvir trechos de gravações das mesmas músicas executadas no concerto, visite
http://www.fotolog.net/helder_da_rocha/?pid=7908857.
Lá eu postei algumas fotos com trechos das músicas (um minuto e meio em MP3) e falei um pouco sobre os compositores.

Eu não abandonei este blog. Passei duas semanas em Goiânia dando aulas de programação. Esta semana voltarei a publicar textos com mais freqüência.