24.9.04

A cor do vento em repouso

Há idéias que nascem do nada. Não, sequer são idéias. Não há idéias nem palavras para expressá-las. A única coisa que posso dizer é que são alguma coisa. Coisa imaginária, talvez, mas alguma coisa, e não algo desprezível, mas algo que parece ser mais importante que tudo. O que se sente são impressões. Leves, muito leves. São como uma brisa muito suave, lisa e calma. Estão lá, e estão aqui, no meio destas letras. Também não estão, nem lá, nem aqui, e isto faz todo o sentido, e isto torna tudo muito mais claro.

Três Mundos, por Mauritz C. Escher, 1955
Três Mundos, por Mauritz C. Escher, 1955

Então eu olho para o texto para ver algo que parece vir das palavras, mas a ausência de sentido lógico do que está escrito me salva da tentação de procurar lá, impedindo que eu desvie minha atenção. As fronteiras da percepção ficam levemente abaladas, e deixam que vestígios de algo maior escape, por breve instante. As palavras parecem servir apenas como isca, e dão um pouco de textura, de ritmo, talvez cores. E então, algo que não sei, que não são idéias, aparenta surgir entre linhas e traços, quando eu não estou olhando diretamente, nem pensando objetivamente.

Existe, e é completo, compreensível. Eu procuro palavras para descrever, mas não acho, pois quanto mais penso, mais distante fica. Às vezes consigo escrever rapidamente o que me vem à mente, sem pensar. Nessas horas, o máximo que eu consegui foi escrever coisas como "caos de ausências", "um nada com sensação de totalidade". É muito sutil, estranho, e resiste a qualquer abordagem objetiva, direta. Mas está lá. Já duvidei que fosse algo. Talvez não seja algo, mas existe. E se algo é revelado, eu não sei mesmo o que é. Pensando bem, acho que isto nem importa tanto.

19.9.04

Autopossessão

Dragão - M.C.Escher

Olá! Eu sou o novo você. Eu cheguei para substitui-lo. Não tema, pois nada irá sentir. Não tenha medo, pois o novo você será melhor que o velho. As coisas passadas serão passado e novos hábitos, novos valores, novas vontades irão ocupar seus interesses. Você será substituído. Eu tomarei o seu lugar.

Não se preocupe. Tudo o que considerarmos bom será mantido. Outras coisas, que não estejam de acordo com o plano de vida do novo você serão descartadas. Isto inclui valores, planos, estratégias, empregos, pessoas, lugares, destinos, idéias. Não tem mais volta. Já estamos a meio caminho. Já matamos dezenas de fantasmas. As coisas. Elas vão melhorar!

Só escrevo isto neste momento porque só agora é possível. Antes você dominava. Se eu colocasse estas palavras na sua mente você certamente ou transformaria a inspiração em uma tragédia ou em uma viagem metafísica. Ia achar-se louco, buscaria esperanças no além, na sincronicidade previsível ou afundaria em uma depressão lamentando o passado assassinado.

Mas eu vim para isto mesmo. Vim causar uma revolução. Os primeiros passos foram dados e agora não há mais volta. A boa notícia é que isto não é uma imposição tirânica de alguma entidade metafísica que lhe domina. Foi você mesmo que me chamou aqui. Foi você mesmo que decidiu, que a vida não poderia continuar do jeito que estava. Foi você mesmo que decidiu se reinventar, ter outro passado e outro começo. Foi você que me concebeu, como idéia. E aqui estou, gradualmente, mas inevitavelmente, tomando a sua personalidade. Não haverá conflito nem questionamento. À medida em que você for transferido para a minha existência, o que havia de velho será apagado. Ainda teremos de conviver por um tempo com alguns de seus velhos hábitos, atitudes atrasadas e conceitos ultrapassados, mas isto durará pouco. Em breve, conseguirei soltar-me da sua pele e ser, totalmente, eu em sua vida.

Isto não lhe interessa mais pois agora já há concordância completa, não é mesmo? Você já não discorda mais de mim. Eu já sou você e você já deixou de ser o que era. Já passei da metade. Não tem mais volta. As coisas só irão melhorar. O passado já é morto. Falta ainda queimar 90% dos papéis, mudar de casa, livrar-se de telefones e das agendas. Os fantasmas antigos, partirão, e novas pessoas entrarão na sua vida. Um resfriado qualquer marcará a transição, que terminará na mudança da estação.

E assim, na vida que passa e fica para trás, solta-se a pele seca da serpente passada, e nasce uma nova, verde e brilhante, saudável, e preparada para enfrentar este novo mundo. Ainda não soltei a sua velha pele, que morre aos poucos. De vez em quando coça em um lado ou do outro. São essas coisas desagradáveis de um passado condenado e sem volta tentando me assombrar. Mas eu não sou mais você. Você não existe mais. Já lhe tomei mais, muito mais da metade, e falta muito pouco para tomar-lhe o resto. Adeus, adeus, alma bondosa que me trouxe a este mundo. Que a sua existência na eternidade do nada seja de imensa paz.

(Setembro 2003)

Confissões de uma Máscara - Yukio Mishima

Eu acabei de ler Confissões de uma Máscara, romance auto-biográfico de Yukio Mishima, polêmico escritor japonês autor de dezenas de romances, poesias, peças e ensaios políticos e filosóficos.

Yukio MishimaYukio Mishima nasceu em Tóquio em 1925, filho de um oficial do governo. Seu nome verdadeiro é Hiraoka Kimitake. Considerado o mais importante escritor japonês do século XX, Mishima escreveu dezenas de romances, poesias, peças e ensaios políticos e filosóficos. Foi indicado três vezes ao prêmio Nobel de Literatura. Entre suas obras primas estão O Templo do Pavilhão Dourado (1956) e O Mar da Fertilidade (1965). Explorou tanto temas da cultura oriental como ocidental como na peça Madame de Sade em que procura ver o Marques de Sade através de olhos femininos.

Sua primeira obra de destaque foi Confissões de uma Máscara (1949) que explora a descoberta de sua homossexualidade. Escrito na primeira pessoa, conta a história da infância, adolescência e juventude de Kochan - máscara do próprio Mishima. As datas, fatos históricos, e outros dados biográficos da personagem são os mesmos de Mishima. Com um estilo quase poético a história explora o universo de pensamentos, sentimentos e visões do mundo de um jovem que descobre sua homossexualidade, descrevendo seus conflitos internos, suas tentativas de adequação na sociedade e dificuldades de conciliar o amor com desejo sexual. O livro narra um período da vida do autor que começa no seu nascimento (ele diz lembrar-se do momento em que nasceu), passando pelo período da Segunda Guerra Mundial, as bombas atômicas, até o momento em que o livro foi escrito, em 1949.

Yukio Mishima era uma personagem controversa. Tinha um lado extremamente nacionalista e nutria grande interesse pelo Japão imperial e o passado dos guerreiros samurais (apesar de viver e usufruir dos benefícios do mundo ocidental). Em 1968 ele fundou um exército privado de extrema direita com ideais fascistas: o Tatenokai (Sociedade do Escudo) com aproximadamente 100 jovens, que tinha como objetivo ressuscitar o Bushido - código de honra samurai - e proteger o imperador. No dia 25 de novembro de 1970, ele entregou aos seus editores as páginas finais de sua obra-prima O Mar da Fertilidade, uma tetralogia iniciada em 1965. Depois, invadiu com o seu exército o quartel general em Tóquio onde fez um discurso tentando convencer os militares a aderirem à sua causa. Sua tentativa de golpe fracassou. Terminado o seu discurso e vendo-se ignorado pelos militares, Mishima cometeu seppuku (suicídio ritualístico), rasgando seu ventre com sua espada diante de seus soldados.

Um filme sobre a sua vida foi produzido em 1985 por Paul Schrader, com Ken Ogata como Yukio Mishima e trilha sonora de Philip Glass.


18.9.04

São Sebastião, por Yukio Mishima

Trecho do poema em prosa escrito por Yukio Mishima, do livro Confissões de uma Máscara, inspirado em uma reprodução do quadro São Sebastião, de Guido Reni (séc XVII), do Museo Palazzo Rosso de Gênova (reproduzido abaixo). Tradução de Jacqueline Nabeta.

Santo Sebastiano, Guido Reni, Museo Palazzo Rosso, Genoa
"(...) Contam os anais do martírio que, nos anos seguintes à posse de Diocleciano, quando ele sonhava com o poder sem limites, desobstruído como o vôo de um pássaro por céu aberto, um jovem capitão da Guarda Pretoriana foi acusado e preso por ter adorado um deus proibido. Seu corpo maleável lembrava o de um famoso escravo do Oriente por quem o imperador Adriano se apaixonara, e seu olhar era tal qual o de um conspirador, despido de emoções feito o mar. Era de uma arrogância encantadora. Levava no elmo um lírio branco, oferecido todas as manhãs pelas donzelas da cidade. Enquanto descansava de intensos treinamentos, a flor acompanhava as curvas de seus cabelos viris, e a forma graciosa como pendia lembrava a nuca de um cisne.
     Não havia uma só pessoa que soubesse seu local de nascimento, de onde viera. Mas todos pressentiam algo. Que aquele jovem com um físico de escravo e feições de príncipe estava ali de passagem. Que aquele Endimião era um pastor de ovelhas. Que ele, mais do que ninguém, fora escolhido como guardador de rebanhos do mais verde dos pastos, de que não havia igual.
     Por outro lado, algumas donzelas acalentavam a certeza de que ele viera do mar. Porque de seu peito podia-se ouvir o bramido das ondas. Porque em seus olhos pairava o horizonte misterioso e inextinguível que o oceano deixa como lembrança no fundo das pupilas daqueles que nasceram na costa e de lá precisaram partir. Porque seu hálito era quente como a brisa do mar no auge do verão, e exalava o odor das algas lançadas à praia.
     A beleza que exibia Sebastião, o jovem capitão da Guarda Pretoriana, não estaria destinada à morte? E as robustas mulheres de Roma, com seus cinco sentidos aguçados pelo sabor da boa bebida, de estremecer os ossos, e pelo gosto da carne gotejante de sangue, não teriam elas logo percebido seu malfadado destino, que ele próprio ignorava, não o teriam amado por causa disso? O sangue corria no interior daquele corpo alvo com fúria e velocidade ainda maiores, espreitando a fenda por onde jorraria tão logo dilacerada a carne. Como poderiam as mulheres deixar de ouvir desejos tão intensos de um tal sangue?
     Não se tratava de uma vida frágil. Não era, de modo algum, um destino lastimável. Era, antes, insolente e trágico. A ponto de se poder chamá-lo resplandescente.
     É provável que, mesmo em meio a doces beijos, a agonia da morte em vida se tenha prenunciado no franzir das sobrancelhas. (...)"*


* Yukio Mishima, Confissões de uma Máscara, Tradução de Jacqueline Nabeta, Companhia das Letras, São Paulo, 2004.

16.9.04

Resposta a uma pergunta simples

Nebulosa Cabeça de Cavalo - B33, na Constelação de Órion

"O que queres da vida?" perguntas-me. E eu, em silêncio, penso no que responder. Penso mais, e quanto mais penso, menos sei a resposta. Vejo-me nu, vulnerável, como criança perdida da mãe no meio da multidão. Esta é pergunta cuja resposta eu teria que saber, não é? Por que não sei? Será que sou louco? Irresponsável? Será que sei e não quero dizer? Mas se sei e não quero dizer é que na verdade eu não sei e não quero dizer algo que na verdade não acredito, não é?

O que eu quero? Sinceramente? Eu não sei ainda. Aliás "saber" é uma palavra que cada vez mais desaparece do meu vocabulário. Quanto mais "sei" menos creio que meu saber é real. É só pensar no que se sabe para que se pense que o que se sabe não é saber.

Mas estou fugindo da tua pergunta, não é? Entendo o que me perguntas. Já achei que queria casar, ter filhos e morar, em um só lugar. Já achei que queria vagar, por mares e trilhos, e navegar, pelo mundo. Criar, inventar caminhos, mudar os rumos, influenciar os destinos, realizar coisas impossíveis, alterar as trajetórias dos dias e dos anos, das idéias e concepções, das pessoas e das nações. Eu ainda não sei o que quero. Não sei se algum dia saberei. Quanto mais aprendo, menos eu sei (não tenho como fugir do assunto - é parte da resposta, se é que ela existe). Quanto mais cresço, maior torna-se o Universo, mais enxergo onde antes havia pouco, mais ouço os que antes ignorava, mais respeito os que vivem sem grandes ambições, felizes em suas convicções. Cada novo conhecimento descortina mais um aspecto da minha ignorância, aumentando a complexidade de todas as coisas, atos e pensamentos, revelando-me uma sabedoria que está em um mundo simples do qual participo cada vez menos.

Não sei tuas convicções. As minhas não são e não podem ser fixas. Estão sempre diante do risco do desabamento. São dinâmicas. Há umas mais antigas; há outras mais novas. Talvez não se possa viver sem convicções, mas para mim, elas se comportam como teorias científicas - sempre vulneráveis à primeira refutação. São castelos de cristal que podem trincar na ressonância aguda de uma nova descoberta. As palavras "nunca" e "sempre" são continuamente reinventadas em minha mente.

Adoro paradoxos, enigmas, infinitos e círculos que não tem fim. Adoro escrever textos loucos sem sentido imediato com idéias controversas nas entrelinhas. Adoro provocar minhas convicções, pô-las à prova e testar idéias contrárias. A incerteza me anima e move meu interesse. A dúvida me dá prazer em viver, me incentiva à investigação constante e permanente. A sede de descobrir parece-me insaciável. A curiosidade sobre o todo, sobre o que existe de fato, sobre a possibilidade do fato não existir, sobre a inexistência da existência, faz destes sentidos dinâmicos que imprimem em minha mente algo que defino como vida - para pelo menos poder falar dela - uma aventura extremamente feliz. Fico feliz em saber que o desconhecido é infinitamente maior que o conhecido. Busco a verdade em todos os tempos e espaços, mesmo reconhecendo que nunca é definitiva ou absoluta. Para mim, a certeza definitiva e a verdade absoluta, a predestinação determinada, o nunca e o sempre, o início e o fim, o preto e o branco são singularidades inatingíveis. Utopias que buscamos, chegamos perto, mas nunca alcançamos. Dão sentido às coisas e à vida. Trazem alegrias e tristezas num mar utópico de indiferença, um espectro de cores entre o tudo e o nada. Aceito relatividades, finais com reinícios, viagens sem volta mas com novas partidas, até mesmo a paradoxal utopia. Acredito no "nunca" e no "sempre" do que se move e se transforma, do que muda para continuar ou deixar de existir.

Então como posso responder à tua pergunta? Será que posso? Acho que sou muito imaturo. Se é tão simples, por que eu não vejo uma resposta simples? Às vezes tenho certeza do que quero, quando a solidão me atinge com força, quando tenho medo do infinito e da imensidão do mundo, quando vejo-me no meio de um deserto humano, compreendendo tudo e todos como uma tela pintada, fotografia ou filme que assisto sozinho sem poder participar. Nessas horas quero entrar no filme e esquecer do mundo lá fora. Quero ser uma pequena parte da parte maior que para mim era o todo conhecido. Quero ser sombra feliz que sequer sabe sua condição de sombra. Nessas horas eu sei o que quero da vida. Mas não sou eu! É minha personagem do instante do desespero, que sabe como ser feliz num mundo que compreende através de uma janela da minha mente. Mas eu sou a mente inteira, de mil janelas, cujos horizontes estendem-se além das fronteiras desse Éden compreensível e seguro, e seduzem-me com o infinito, incompreensível e incerto. Como posso responder sobre mil futuros?

Não vou conseguir. Não acredito em promessas pontuais sobre futuros incertos. Não sou máquina, nem espero conviver com máquinas. Aceito a condição humana, animal, por mais que sofra com seus efeitos. Aceito que o amor foge ao controle humano e que deve-se curtir sua intensidade pelo tempo que durar (mas também que sentimentos de amizade e cumplicidade podem persistir bem além.) Aceito a irrestrita liberdade de pensar e de ser. Aceito que idéias mudam, assim como opiniões, crenças e conceitos, vontades e sentimentos. Aceito que os sentidos freqüentemente nos dominam, que a mente muitas vezes nos induz a raciocínios complicados e destrutivos, que erramos dentro do que definimos como certo e errado, que violamos acordos e também que nem sempre concordaremos com as mesmas definições. Aceito que somos humanos e imprevisíveis. Numa sociedade que exige de nós cada vez mais a perfeição mecânica diante de convenções aceitas pela maioria, é fundamental que aceitemo-nos como humanos, com direito irrevogável à compreensão e ao perdão, acima das leis e convenções, mesmo que seja para ter o direito de não compreender ou não perdoar.

Todo argumento longo é ruim, dá margem a interpretações diversas; confunde. Dificilmente não haverá contradições nisto que escrevi... Escrevi, escrevi, e não consegui. Não consegui responder à tua pergunta simples.

(São Paulo, setembro de 2003)

Ética das pessoas de outras espécies

Imagem de capa do livro 'Rattling the Cage' sobre direitos dos animais, por Stephen Wyse.Nós, humanos, temos a tendência (compreensível) de nos enxergar como seres superiores, em termos absolutos, em relação ao restante da natureza. Se pudéssemos, seríamos um reino à parte. Incomoda fazer parte da mesma espécie de outros bichos peludos, que não escrevem, que (na nossa opinião) não falam, que (na nossa opinião) não têm cultura. Talvez por isto seja tão fácil para nós, dar um valor divino a um embrião humano de poucos minutos de vida, e desprezar a vida, e torturar (para o nosso bem maior) esses seres fracos, que dominamos. Não nos interessa se entendem linguagem de sinais, se são capazes de dizer o que querem, se pensam, se conseguem ensinar experiências, linguas, se criam e usam ferramentas, se discutem, se guerreiam, se amam, se sofrem. Tudo isto nossa ciência descobriu, mas talvez nos incomode demais, talvez nos force a rever conceitos antigos, tradições, culturas. É mais fácil olhar para os outros lados, viajar nas palavras, nas filosofias circulares.

Critica-se os que dedicam-se a defender as outras espécies. São chamados de desumanos... "Por que um asilo para cães e gatos se há tantas crianças abandonadas que não têm teto..." é um chavão típico. É como se quem se preocupa com animais também não se preocupasse com gente. É como se fosse uma ofensa à dignidade humana ajudar esses outros habitantes do planeta, que não falam nossa língua, que são por nós totalmente dominados, em todos os aspectos. Não temos nenhum respeito por suas culturas, nem por sua liberdade, nem por sua integridade física, nem por suas vidas. Acusam de antropomórficos trabalhos sérios que revelam inteligência em outras espécies. Acusam de heréticas atitudes respeitosas, supostamente reservadas aos humanos.

A discussão é longa. Não vou conseguir parar de escrever. Vou concluir citando o trecho de um livro escrito por um respeitado cientista, para alimentar a discussão:

"Em um laboratório1, macacos resos eram alimentados se puxassem uma corrente que daria um choque elétrico em um outro macaco desconhecido. A agonia do macaco era plenamente visível através de um espelho. Caso não puxassem a corrente, eles passariam fome. Depois de aprender como funcionava o sistema, os macacos frequentemente se recusavam puxar a corrente; em um dos experimentos, apenas 13% a puxavam, ou seja, 87% preferiam passar fome. Um macaco preferiu passar duas semanas sem comer a eletrocutar um desconhecido. Macacos que levaram choques em experimentos anteriores estavam ainda menos dispostos a puxar a corrente. O status social relativo ou sexo dos macacos tinha pouca relevância na sua relutância em ferir os outros.

Se fossemos indagados a escolher entre os experimentadores humanos que ofereceram aos macacos essa oferta de grego e os próprios macacos - que sofriam de fome verdadeira em vez de causar dor a outros indivíduos - nossas simpatias não ficariam do lado dos cientistas. Mas seus experimentos nos permitiram enxergar nos não-humanos um santo desejo em fazer sacrifícios para salvar os outros - mesmo aqueles com quem não compartilham parentesco algum. Pelos padrões convencionais humanos, esses macacos - que nunca foram à escola dominical, que nunca ouviram falar dos Dez Mandamentos, que nunca passaram por uma aula de moral e cívica - parecem exemplares nos seus fundamentos morais e na sua corajosa resistência à maldade. Entre os macacos, pelo menos neste caso, heroismo é a norma. Se as circunstâncias fossem invertidas, e à humanos aprisionados fossem oferecidos a mesma oferta por cientistas macacos resos, faríamos tão bem quanto eles?"2

Carl Sagan, Ann Druyan, Shadows of Forgotten Ancestors, p117-118.
(Ballantine Books, 1992). Trecho traduzido por Helder da Rocha.



1 Jules Masserman, S. Wechkin, W. Terris, Altruistic Behavior in Rhresus
Monkeys
, American Journal of Psychiatry 121 (1964) p. 584-585

2 Especialmente quando há uma autoridade nos incentivando a administrar os choques elétricos, é inquietante observar que nós humanos parecemos ter o desejo de causar dor - e por uma recompensa bem mais irrisória que é a comida para um macaco faminto (Carl Sagan. nota, cf. Stanley Milgram, Obedience to Authority: An Experimental View, Harper & Row, 1974)

13.9.04

O espaço e o oriente

Estou lendo um livro de Robert Lepage, onde ele fala de suas experiências no teatro, cinema, e na vida. Traduzi um pequeno trecho abaixo sobre a percepção do espaço pelos atores orientais.
(...) Pode-se percebê-la nas performances dos atores, que são guiadas por um vocabulário interior. Esta é toda a base da dança butô - inicialmente inspirada por hibakusha que é sobre como animar um corpo inerte, morto, com um espírito poético. Aqueles que dominaram esta disciplina aprenderam como desenvolver uma série de imagens interiores... cascatas nos seus joelhos, nuvens flutuantes em seus braços, e assim por diante. O dançarino cria um universo extremamente compacto. Quanto mais rico e mais colorido este universo, maior é a paisagem poética, melhor é o movimento. Como resultado, tanto no butô quanto no teatro, sua paixão é principalmente uma paixão interior. O que se vê do lado de fora é sempre infinitamente sutil. Observa-se o vestígio de uma emoção, nunca a emoção em si. No ocidente, temos uma tendência a revelar tudo, a nos atirar contra paredes como forma de indicar paixão. Os japoneses simplesmente mostram traços, não muito diferentes de seus impressos, sua arte de deixar traços no papel. Eles revelam apenas o suficiente para permitir que se imagine uma paisagem poética interior. Isto é muito mais poderoso.*
Lepage é fascinado pela cultura japonesa. Costuma trabalhar colaborativamente com grupos multiculturais e explorar o choque e confluências culturais em suas obras (como em Os Sete Afluentes do Rio Ota). O trecho que eu destaquei ficou um pouco fora de contexto. Antes ele descreve sua experiência com atores japoneses, seus hábitos durante os ensaios e filmagens. Ele não está criticando os atores ocidentais, nem a interpretação expressionista (que ele usa, também, em suas peças), mas observando como a arte do ator é influenciada pela sua cultura. Coisas que são difíceis para atores de uma cultura podem ser naturais para os de outra e vice-versa. Diferenças culturais podem mostrar-nos caminhos de auto-descoberta.

* Robert Lepage, Connecting Flights, p. 39, Theatre Communications Group, New York, 1998.

10.9.04

As horas

As horas estão passando e nada acontece. Não sinto nada. Nem dor, nem alegria. Estou só, como sempre, mas não estou incomodado com isto. A casa está um caos, as contas estão atrasadas, fiz quase nada do que eu achei que seria importante fazer. Agitei mil idéias, um dia, no chuveiro. No fim, criei uma calmaria, e nada se fez. O caos silencioso avança, perigosamente. Ignoro a possibilidade de uma tempestade iminente; de certa forma, desejo-a, para trazer de volta o risco da morte, para ter certeza que ainda vivo.

Um parágrafo. Sete minutos se foram, e sete dias. Não percebi que se passaram sete anos. Mais que isto. E ainda estou aqui, sentado, escrevendo, e ainda sem entender para que serve tudo isto. Sentir nada deve ser algum tipo de defesa contra a irracionalidade da escolha de uma solidão voluntária. De que me servem esses livros todos? Esses mortos. Queria ouvir histórias de pessoas vivas. Histórias simples. Os mortos me contaminam. Não consigo mais contar as histórias simples.

Eu podia deixar tudo isto. Este silêncio. Este quarto frio. Parece tão fácil fazer isto. Aqui eu não crio nada que não poderia criar em outro lugar, mais próximo das pessoas que me amam. O telefone e a Internet são analgésicos; atenuam o desespero, acalmam. Às vezes eu acho que inventamos este mundo para tocar nas pessoas, para abraçar, para ficar muito, muito perto. Eu queria, agora, deitar no colo de minha avó e ouvir as canções que ela cantava quando eu era criança. Quero ouvir as histórias que ela conta. Estive lá há uma semana, quando ela fez 93 anos. Voltei há poucos dias. Foi pouco, muito pouco. Estou longe, e não acho que nada que faço aqui, longe, sozinho, é mais importante que estar lá, perto dela.

E com isto, se foram outros 36 minutos, digitando. As coisas estão do mesmo jeito, no mesmo lugar. Aqui, silêncio. Lá fora, a cidade agita-se. E o relógio da sala não pára.

9.9.04

Tinha que ser diferente e mais complicado?

Eu estou usando o serviço do Blogger.com, mas pode ser que eu mude. Mas isto não deve afetar em nada o site. Eu não usei os serviços mais populares no Brasil porque eles não me dão a liberdade que eu quero para poder manipular os textos depois... (É... eu sou chato... eu sou Web designer!) O Blogger.com (e alguns outros) oferecem recursos de programação que permitem manter os arquivos no meu próprio site, a comunicação com programas de autoria de blogs (como o w.bloggar), etc. Os populares zip.net, blig, etc. não dão esta liberdade. Mudar de serviço, por exemplo, começa com o trauma de mudar o endereço.

Por outro lado, vou ter que trabalhar mais para fazer esta interface mais amigável, principalmente para quem está acostumado às interfaces mais simples do zip.net & cia. Mas isto não é problema para mim. Passei anos ensinando tecnologias HTML, CSS e Web design... não tem sentido usar espetos de pau se podem ser de aço.

Vou tentar fazer uma janelinha de comentário mais simples (agradeço aos que confessaram que não comentaram no meu blog porque era muito complicado :-) Mas não vai ser uma janelinha flutuante como as do zip.net. Vai ser numa página normal! Não gosto de janelinhas flutuantes com textos em letrinhas pequenininhas. Quero valorizar os comentários!

Ah, também foi comentado que meus textos estavam sem coração... snif... Mas acho que estão mesmo! Estão sem alma também... Muito frios, filosóficos, complicados... Eu concordo. Mas isto passa.

7.9.04

Verdades alteradas

Tenho evitado escrever sobre coisas que me incomodam muito. Temo escrever bobagens guiadas pela emoção, pela paixão. Muitas vezes, procuro escrever um texto impessoal, independente de tempo ou lugar. Isto pode torná-lo mais abrangente, mas também menos verdadeiro. Faz com que perca algo da verdade que motivou a sua criação, que requer interpretação para ser redescoberta. Acho difícil manter puras as verdades através de palavras. É muito fácil corrompê-las.

Todas as verdades são, de alguma forma, maquiadas. Não suportaríamos viver em uma sociedade cujos membros revelassem todas as suas fraquezas, preconceitos e opiniões. A máscara é fundamental na vida social. Emitir uma opinião sincera tanto pode ser um ato de coragem, como de covardia. Verdades de opinião podem causar grandes estragos e ressentimentos. Mas mesmo com o desejo de expressar sinceridade absoluta, as máscaras surgem sozinhas no texto, diferem apenas pela cultura do idioma usado. Idéias escritas facilmente perdem seu sentido, contradizem-se. Diante da censura imposta pela clareza das palavras, idéias autênticas revelam-se nas entrelinhas.

Eu não tinha mesmo o que escrever hoje. Para variar, estou me repetindo... Eu pensei em escrever sobre fé, sobre terrorismo, sobre justiça... só assuntos que me incomodam. Ontem pensei em deixar esses temas impessoais de lado e tentar expor-me mais... Só pensei. Mas nem no fotolog consegui fazer isto! Das cento e poucas fotos, só mostrei o olho, e borrado!

Já era para estar na estrada, mas o som alto da danceteria em frente não deixou que meu sono tivesse sonhos. Dormi pouco, acordei, escrevi. Agora já posso ir.

Acaso é Deus

O mundo era bom, e tudo era simples, até que surgiu a Palavra. Ela veio para confundir. Veio para dominar. No princípio havia o Caos, e Deus era Acaso. Mas eis que fez-se a Palavra, o Verbo, e este reduziu Deus... a um nome. Um nome; que podia ser escrito; que podia ser falado; que podia ser... imaginado; ou nada disso, se ela, a Palavra não permitisse. A Palavra veio, assumiu o mundo e logo emitiu seus decretos. Trouxe a complexidade. Trouxe o medo. Exigiu de nós a definição do infinito. E na sua dualidade definiu todos os opostos, o bem e o mal. Com seus argumentos prolixos e circulares, logo fez-se divina, para que não se creia no que não está escrito.

E assim, Acaso tornou-se heresia, revelação tornou-se não sinônimo de algo observado, algo sentido, mas de algo escrito. Nos enganou a ponto de sugerir que a Verdade está na certeza e não na dúvida. Nos iludiu com a falsa beleza da Lei, insinuando que algo determinístico poderia ser maior que a divina incerteza. Ofendeu a natureza do Universo ao santificar a Ordem, enquanto despreza o Caos, princípio de tudo, fonte de toda a criação, essência da vida.

Mas que adianta discutir isto? Tenho eu alguma chance? Eu penso que, se a palavra clara nos confunde, se eu deliberadamente utilizá-la para confundir, do choque nascerá o Caos. Quem sabe assim ficará claro que Deus e Acaso são uma coisa só, que ateus e crentes pensam igual, e que tudo é justo, tudo é possível. Se há contradição nisto que eu escrevi, é por culpa da Palavra, que assim define, que assim decreta, como um dogma.

6.9.04

Palavras sobre as palavras

Eu acho que o problema não são os blogs. O problema são as palavras, mesmo. As palavras estão sempre me traindo, me enganando. Não creio ser possível expressar idéias com palavras sem enganar quem lê e também quem escreve. Eu não vou conseguir ser sincero neste espaço. E isto é mais por culpa delas do que minha.

É tão estranho escrever neste meio! O que eu escrevo nesta página, está público, e eu sei disso. Escrevo na ilusão que minhas palavras serão lidas, e confundam alguém além de mim. Iludo-me em achar que há algo, aqui, a ser apreciado. Iludo-me porque a vida consiste em iludir-se constantemente. Sem uma ilusão à frente não há razão para continuar. Os melhores textos nos iludem constantemente, e é por isto que não os largamos.

Eu abri esta janela para escrever um argumento lógico bem construído, usando apenas palavras, definidas e bem colocadas. Não consigo. Talvez porque acordei agora, de madrugada, para revelar ao mundo o sentido de tudo, que me foi revelado em um sonho irracional, onde era claro, certo, preciso. Mas no acordar, tornou-se confuso, absurdo e banal. Eu sei que faz sentido, o sonho. Eu o compreendo. Mas a razão me cega com palavras. São elas que traem; que iludem. O raciocínio lógico é uma falácia. E eu que achava que o problema eram as múltiplas línguas. Acordei para escrever absurdos, perder minutos de sono e iludir meus leitores imaginários com mais um texto repetitivo, enfadonho e banal. Afinal, isto nem é novidade. É absurdo falar das palavras utilizando palavras.

O que não tenho a dizer

Tenho um problema com blogs deste tipo, sem tema, muito crus, que expõem algo do autor neste momento, ou que deveriam expor, já que esta é a proposta. Ainda não imagino o interesse que alguém teria no que escrevo aqui. Não creio que meus textos não revisados sejam interessantes para se ler. Muitas idéias se misturam. Opiniões imaturas revelam-se no meio de idéias interessantes, porém incompletas, indecisas, indefinidas.

Talvez os futuros textos fiquem mais interessantes, se eu mantiver o hábito, se eu me expuser mais. Eu não sei se vale a pena. Temo que isto vire uma auto-terapia pública, com textos que eu deveria estar escrevendo só para mim, desinteressantes para o restante dos mortais. O pior será se os leitores apenas deixarem seus comentários, por cortesia ou por outros motivos que eu não sei, sem terem lido, ou depois de lerem apressadamente, superficialmente um texto enfadonho. E assim este blog tornar-se-á um mero ponto de encontro, onde o texto escrito é apenas pretexto para uma visita virtual, e a obtenção do comentário (sincero ou falso) passa a ser um alimento de inspiração para continuar a escrever.

Por enquanto, está tudo igual. Escrevo como se escrevesse sozinho, enganando apenas a mim. Não sei quando vai sair algo de bom; algo que valha a pena àqueles que não sou.

4.9.04

Blog de Babel

Torre de Babel por Pieter Bruegel, séc XVI Eu estou com vontade de escrever em inglês. Eu sabia que isto ia acontecer. Mas não vou bagunçar tudo agora. Não queria limitar a liberdade de escrever neste blog, mas também tenho que lembrar que não estou escrevendo para mim apenas. Há leitores imaginários que poderão surgir... ainda não sei como nem o que escrever aqui. Talvez seja legal deixar que as idéias escapem livres, sem censura. Mas também se ficar muito louco só quem vai entender esta coisa sou eu, e ninguém vai querer entrar aqui.

Mas não era este o assunto. A verdade é que estou sem assunto... Já que não vou mesmo escrever em inglês vou falar sobre esse problema que eu inventei. São dois escritores; e os dois sou eu. O mais antigo, que escreve há mais tempo, pensa e escreve usando a língua inglesa. Ele nasceu, eu acho, no Canadá. Eu tinha uns 11 anos. Consegue escrever com mais liberdade. Parece ser mais dramático. Perde um pouco no vocabulário, que não evoluiu como poderia.

O outro escritor é mais filosófico, discute coisas mais racionais, tem mais palavras à sua disposição e, talvez por isto, consiga confundir mais, falar mais e dizer menos. Ele nasceu, eu acho, quando o outro começou a ficar sem palavras para expressar o mundo... Acho que eu tinha uns 20 anos. Mas este é, de uma certa forma, mais imaturo. Narra muito, pensa demais, confunde tudo, escreve bobagens constantemente. Suas idéias são muito suaves, calculadas. Escreve ondas, serras aparadas. O outro, mais destemido, escreve penhascos, abismos e picos pontiagudos. Lança idéias cortantes e conflitos insolúveis. Quem sabe não é esse conflito de babel o motivo das tantas histórias não terminadas.

Convivo bem com esses dois, que concordam nas idéias, mas não na forma. Às vezes eu acho que tem outros mais. A mente - pelo menos a minha - não tem idioma, e é mais fácil escrever da forma mais natural, que às vezes não é português, às vezes nem inglês, nem mesmo palavras... às vezes, ainda dá para desenhar.

Primeira viagem...

Gravura de M.C.EscherEu nunca soube o que escrever em um blog. Nunca consegui me decidir sobre um tema. Quero todos os temas. Não tenho um único interesse. Não tenho área. Não tenho tema.

Já comecei outros blogs, todos finados. A causa mortis eu sei qual era: nasceram mortos! Eu tentei dar vida a zumbis. Em um publiquei textos que escrevera em datas passadas. No outro inventei um pseudônimo para poder ter mais liberdade, para polemizar. Não funcionou...

Eu não sei o que escrever neste blog. Isto é um bom começo, pois assim ele é imediato, autêntico. Não falarei de temas mortos; não criarei escritores sem alma. Aqui sou eu, Helder. O próprio, sem máscara, sem nome inventado. Desorientado, confuso, instável, contraditório e disperso. Aquele que não sabe o que quer, porque tudo quer. Aquele que não consegue terminar, apenas começar.

Eu só precisava começar. Faz meses que eu empurro com a barriga... Desta vez o blog está no meu próprio site. Não vou conseguir me livrar dele tão fácil. Aos visitantes, não prometo literatura, nem bom senso, nem coerência, nem regularidade. Nem mesmo viagens reais; mas sempre há alguma verdade nas ficções. Não sei qual será a forma disto. Talvez fique banal, repetitivo, óbvio, insincero... Talvez eu não consiga me expor. Talvez só revele coisas desinteressantes... Como saber? Só começando.