10.11.04

Émile Nelligan, 1879-1941

O poeta franco-canadense Émile Nelligan nasceu em Montreal, em 1879. Vinte anos depois teve um colapso psicótico e viveu até os 62 anos internado em um asilo de loucos. Toda a sua obra foi produzida entre 1896 e 1899, mas apenas 23 dos seus 108 poemas foram publicados quando estava com o juízo normal. Apesar da sua curtíssima carreira artística, sua obra é louvada pela extrema sensibilidade e originalidade.

Eu traduzi abaixo um dos seus poemas, que foi recitado pelo ator Robert Lepage em seu filme La Face Cachée de La Lune (sobre o qual eu escrevi uma resenha, mas ainda não postei). O poema reflete bem a obsessão do personagem do filme pela beleza de sua falecida mãe, que ele vê como a imagem da perfeição.

Diante de dois retratos de minha mãe
Émile Nelligan (1879-1941)

Amo minha mãe neste quadro plano
Pintada nos seus anos de menina
Face alva, olhar que ilumina
Tal qual um espelho veneziano

Aqui, minha mãe, não é mais suprema
Rugas marcam seu rosto conservado
Perdeu o brilho do tempo passado
De núpcias cantadas como poema.

Hoje eu comparo os dois descontente
A face alegre e a face triste
Densa névoa em áureo poente.

Mistério no meu coração persiste
Por que, aos lábios tristes, eu sorri?
E ao sorriso, chorei, quando o vi?
Perde-se muito em tradução, principalmente poesia onde interessa preservar a forma. Talvez eu ainda possa melhorá-la. Segue o poema original:

Devant deux portaits de ma mère
Émile Nelligan (1879-1941)

Ma mère, que je l'aime en ce portrait ancien,
Peint aux jours glorieux qu'elle était jeune fille,
Le front couleur de lys et le regard qui brille
Comme un éblouissant miroir vénitien !

Ma mère que voici n'est plus du tout la même;
Les rides ont creusé le beau marbre frontal;
Elle a perdu l'éclat du temps sentimental
Où son hymen chanta comme un rose poème.

Aujourd'hui je compare, et j'en suis triste aussi,
Ce front nimbé de joie et ce front de souci,
Soleil d'or, brouillard dense au couchant des années.

Mais, mystère de coeur qui ne peut s'éclairer !
Comment puis-je sourire à ces lèvres fanées ?
Au portrait qui sourit, comment puis-je pleurer?

A obra de Émile Nelligan (em francês) está em domínio público e pode ser encontrada na Internet. Confira nos sites http://www.emile-nelligan.com ou http://www.collectionscanada.ca/canvers/t16-204-f.html.

Um comentário:

Julliana disse...

Que bom que você gostou do novo template Hélder :) E eu tenho brincando bastante de escrever rs... Vc tem razão! É que as pessoas e situações estão colaborando comigo ;) Ó, vou dar uma passada no seu flog, por hora eu vim aqui pra deixar um beijinho... bye.