26.11.04

Lucidez

Mauritz C. Escher - O Encontro

Era noite, ainda. Ele não entendia o motivo pelo qual acordava naquele momento. Não lembrava de ter sonhado. Não abrira os olhos. Nada ouvia. Mas sabia que era noite e sabia que acordara. Queria abrir os olhos mas só o faria se ouvisse pelo menos o som do vento, de algo passando, de um grito distante. Esperou muito. Só silêncio. Intenso silêncio. Concentrou-se e tentou ouvir a própria respiração. Pensou em fazer um som, suave, com a boca ou com o nariz. Mas não conseguiu senti-los. Sabia apenas que estava acordado, e que era noite. Tinha certeza. Absoluta certeza. Estava muito lúcido. Era óbvio que estava acordado! Mas, era como se os sentidos tivessem lhe abandonado. Pensou em mexer um braço, uma perna. Pensou muito, mas muito mesmo. Nem a agonia foi capaz de sentir. Não conseguia deslocar-se no espaço de sua mente. A lucidez era ofuscante e dominava-o completamente. Queria gritar. Estava aflito. Já não queria mais manter os olhos fechados. Decidiu abri-los de qualquer maneira. Mas o que antes parecia fácil, agora era impossível. Sua a lucidez era excessiva. Ele sabia exatamente como e quais músculos mover para abrir os olhos; sentia que compreendia até mais, mas não conseguia achá-los, nem mesmo visualizá-los.

Concluiu que se não abrisse os olhos ou voltasse a dormir logo, certamente ficaria louco. Tentou pensar na luz do dia, nas coisas que conhecia, nos sons e nas sensações, mas o silêncio e a escuridão eram absolutos. Nada formava-se na sua mente. Mas, em alguma coisa pensava; isto era certo! Pois se não pensasse como poderia incomodar-se com a impossibilidade de pensar? Isto era tão claro quanto sua lucidez absoluta, quanto o silêncio e a escuridão. Mas esse pensamento não era alcançável. Estava lá, tinha certeza, mas não conseguia achá-lo! De alguma forma, ele havia tornado-se... nada. Acreditava ter consciência de si; sabia que era si próprio, mas era como se fosse não ele mesmo, mas a ausência de si mesmo. Sentia-se como o espaço que ocupava no mundo, mas sem o corpo que ocupava o seu espaço. A sua existência parecia estar em um lugar inexistente. Sentia uma ausência absoluta, no tempo e no espaço. Ele não era mais; e poderia nunca ter sido! Seu existir poderia ser mera ilusão. Ilusão de sua mente inexistente.

Aterrorizou-se com a perspectiva de passar o resto da eternidade lúcido, tendo total consciência de que não existia. Especulou sobre o que poderia ter ocorrido: talvez sonhara um sonho recursivo, e nele se consumira (gostava muito de filosofar recursivamente). Talvez tenha encontrado o seu anti-ser, e nele tenha se desintegrado. Mas como podia não existir se pensava? Tentou pensar um pouco mais sobre o assunto. Não conseguiu mais. Percebeu que não controlava as idéias que pensava. Elas apareciam do nada. Eram elas a sua vida, sua consciência e lucidez. Ele era nada. Existia apenas como idéia pensada. A morte, que mais temia, era o esquecimento.

5 comentários:

Anônimo disse...

Oi, Helder! Vi sua mensagm no Orkut ("Meu último post foi sobre...") e entrei p/conferir. Gostei muito do teu blog e do teu jeito de escrever, confesso que me conquistou!
Um ótimo domingo pra vc!
{{Adriana;www.drika4ever.weblogger.com.br;drika4ever@yahoo.com.br}}

Anônimo disse...

O apavorante de toda essa lucidez é imaginar a eternidade nela, e principalmente, o fato de não poder fazer nada além de pensar. A ausência de som, de luz, de tudo me deixou tão agoniada que eu tava lendo e prendneo a respiração...adorei!
{{Lucy In The Sky;www.in_my_life.blogger.com.br;lilian_rega@hotmail.com}}

Anônimo disse...

Encontrei seu blog pelo Orkut (Meu Último Post Foi ..) e não me arrependo nemmmm cadinho de ter aparecido!
Adoro essas espécies de conto, em que um mero fato gera milhares de interpretações, de visões, perspectivas, reflexões, questionamentos.
Parabéns! Magnífico post!
Um abraço!
{{Louise Gracielle;http://brokenideas.blogspot.com;}}

Anônimo disse...

Gaia me deixou voltar pra dizer que adorei o seu "sim". Então...logo mais você estará recebendo uma mensagem inter-galática, além-tempo desta profetisa(só você mesmo...) que vos fala.
A propósito do texto: eu já tive um delírio assim. E já me consumi em delírios assim. A consciência do não-existir, não é mesmo ? E como não existir se há a consciência disto, ahãm? Sim Hélder... foram horas de retórica em mim mesma. Isso cansa! Eu quero a lucidez do senso comum rs, eu quero ser feliz ;-)
{{Julliana;www.meninosnaoentrem.blogspot.com;}}

Anônimo disse...

Oi, Helder,
bem legal seu sitio.
Veja o meu: www.maobranca.hpg.com.br
Leia alguma coisa e comente, com sinceridade.
[]s
{{Mão Branca;www.maobranca.hpg.com.br;maobranca@gmail.com}}