21.11.04

A Face Oculta da Lua, de Robert Lepage

Site do filme

"Antes do telescópio, as pessoas pensavam que a Lua era um grande espelho, e que as montanhas e oceanos em sua superfície luminosa eram meramente os reflexos de nossas montanhas e oceanos. Mais tarde, no século vinte, quando a primeira sonda lunar soviética nos enviou de volta imagens da face distante que nunca vemos, o mundo surpreendeu-se em descobrir que a Lua tinha um segundo rosto, mais profundamente arranhada pela queda de meteoros e outros restos de material cósmico. Os cientistas da NASA gostavam de chamá-la de "a face desfigurada da Lua". Esta ironia refletia o fato de que, daquele momento em diante, todas as crateras daquele lado seriam batizadas em homenagem a cosmonautas soviéticos e grandes escritores russos..."

Essa narrativa inicia o último filme do canadense Robert Lepage, com a imagem da Lua cheia de fundo, ao lado do majestoso Chateau Frontenac de Québec. É um filme metafórico que explora temas como narcisismo, isolamento e solidão, através de belas imagens e de uma história comovente. O tema central é a convivência difícil entre dois irmãos de personalidades opostas, na faixa dos quarenta anos, que têm que lidar com a morte recente da mãe. Ambos são representados no filme pelo próprio Lepage (que neste filme foi ator principal, diretor e roteirista). Filmado em vídeo digital, é o quinto filme do diretor canadense que é mais conhecido por suas obras para teatro, como a peça Os Sete Afluentes do Rio Ota. O filme também é baseado numa peça de teatro que Robert Lepage escreveu. Na peça, que tem o mesmo nome que o filme, ele representa sozinho todos os personagens. Ela foi apresentada em vários países, inclusive no Brasil, há dois anos.

Montagem feita com imagens do filme
Robert Lepage como Philippe e como André


A Lua e as viagens espaciais são uma obsessão de Philippe, o irmão mais velho. Seus conflitos, lembranças, sonhos e fracassos movimentam a maior parte do filme. Os espectadores compartilham a mente do personagem. Ele vive sozinho no mesmo apartamento onde foi criado e cuida do peixinho de estimação que pertenceu à sua mãe. Philippe é muito inteligente mas também muito introspectivo e anti-social. Tenta aprovar pela segunda vez sua tese de doutorado sobre filosofia científica, onde propõe a tese que a corrida espacial teve motivações narcisistas. Para sobreviver, trabalha como operador de telemarketing em um jornal, mas odeia o emprego. É um sonhador. Está sempre à procura o sentido das coisas, e tenta compreender o mundo e as pessoas apesar de nunca ter saido de sua cidade natal. Vive apegado ao passado e à memória de sua mãe.

André é o irmão mais novo e o oposto de Philippe. Meteorologista bem sucedido, é homossexual assuido e mora com o namorado num apartamento com a vista para o Chateau Le Frontenac, no bairro mais caro de Québec antiga. Pragmático, obcecado com moda e aparências, não liga para as questões profundas que ocupam a mente de seu irmão. Não entende como Philippe pode ficar tão preso ao passado e tenta convencê-lo a aceitar vender o apartamento da mãe.

Foto de divulgaçãoO relacionamento complicado entre os irmãos e as tentativas desesperadas de Philippe para ter suas idéias levadas a sério motivam, no filme, a exposição das lembranças do passado e reflexões filosóficas do irmão mais velho. Esses temas são explorados de forma muito criativa através de imagens que carregam diferentes significados, e que são usadas nas transições entre as cenas. Logo na abertura, Philippe está na lavanderia olhando para dentro de uma máquina de lavar. Pouco depois, ela torna-se a janela de um módulo espacial em órbita da Lua. O círculo é uma forma constante em todo o filme e assume diversos significados.

Para construir a história, Robert Lepage buscou inspiração na sua própria vida, misturando memórias e experiências da vida real, como as lembranças do pouso na lua quando criança, seu relacionamento com a mídia e a fama, seus conflitos com seu irmão mais velho e principalmente o sofrimento e morte de sua mãe devido a problemas renais (Germaine Lepage morreu de problemas renais em 1999, aos 74 anos de idade). Segundo o diretor, André e Philippe representam faces opostas da mesma pessoa. Esta foi uma das principais razões pela qual decidiu representar ambos os papéis no filme.

La Face Cachée de La Lune foi vencedor da mostra Panorama do Festival de Berlim este ano e foi indicado pelo Canadá como concorrente ao Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira.

Cartaz do filmeA Face Oculta da Lua
(La Face Cachée de La Lune)
(Canadá, 2003)

Direção, produção e roteiro: Robert Lepage
Elenco: Robert Lepage, Anne-Marie Cadieux
Site: http://www.lafacecacheedelalune.com


Este filme foi exibido na 28ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

6 comentários:

Anônimo disse...

Helder, seu blog é uma extensão na Bravo! né ? E é caso para ler com calma, processando cada frase... :-D. Como anda a vida ?
{{Julliana;www.meninosnaoentrem.blogspot.com;}}

Anônimo disse...

interessante.. adorei muito esta citação da lua.. verei se acho o filme
{{arookis;http://ohhmy.blogspot.com/;}}

Anônimo disse...

interessante.. adorei muito esta citação da lua.. verei se acho o filme
{{arookis;http://ohhmy.blogspot.com/;}}

Anônimo disse...

Mr. Hélder... vi os comments que o senhor deixou lá no blog. Vi também que você continuou alguns poemas ;-). Venho aqui fazer uma proposta indecente: quer escrever alguns comigo ?
{{Julliana;www.meninosnaoentrem.blogspot.com;}}

Anônimo disse...

Caramba, o filme me pareceu muito bom.
É incrível a forma como as pessoas criam as coisas, tirando de suas experiências e transformando as coisas. Acho que isso foi o que me interessou mais.
Caramba, eu vou tentar dar um jeito no alinhamento do meu blog e senão der certo (rs), eu tô querendo trocar mesmo aquele template...veremos..rs
Beijo
{{Lilian/Lucy In The Sky;www.in_my_life.blogger.com.br;lilian_rega@hotmail.com}}

Desconhecido bacana disse...

Vi o filme e realmente é o máximo...quero ver de novo...uma vez não é o bastante para captar toda a beleza que R. Lepage nos transmite.
Ps: Destaque para a cena que toca Dazed and Confused