19.10.04

"A Vila" de Philip K. Dick

"The time is out of joint - O cursed spite,
That ever I was born to set it right!"
William Shakespeare, Hamlet: 188-189, Scene V

Salvador Dalì: Persistência da MemóriaRagle Gumm vive com sua irmã, cunhado e sobrinho numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos. O ano é 1959. Auge da guerra fria. O seu cunhado e sua irmã trabalham fora, e ele fica em casa o dia inteiro resolvendo quebra-cabeças de um concurso nacional de jornal. Ele vem ganhando um concurso atrás do outro há dois anos, e com os prêmios, contribui para a economia doméstica. Por causa do concurso, todos o reconhecem nas ruas. Veterano da segunda guerra mundial, ele vive uma vida tranqüila, apesar de ter alucinações ocasionais e ter se apaixonado pela esposa do vizinho. Mas um dia Ragle começa a entrar em crise existencial, a questionar o sentido da vida e outras coisas. Aprofunda-se em questões filosóficas. Procura significado nas alucinações. Começa a ficar paranóico e achar que o mundo inteiro está o observando. Um dia, depois de sintonizar um rádio feito pelo seu sobrinho e ouvir seu nome numa transmissão, conclui que está ficando louco. Decide então deixar o concurso de lado e fazer uma viagem para fora da cidade, quando descobre que não consegue, pois uma série de acontecimentos banais e aparentemente naturais (carros quebrados, rodoviária paralisada, fiscalização nas estradas) impedem que ele saia. As pessoas e as coisas não parecem mais reais. Os eventos parecem automáticos, mecânicos. Parece que todo o mundo gira em torno dele.

Philip K. Dick
Philip K. Dick
Assim começa Time Out of Joint, livro escrito em 1959 pelo escritor americano Philip K. Dick. Falecido em 1982, Dick foi autor de contos e livros de ficção científica que inspiraram filmes como Blade Runner (1982), O Vingador do Futuro (1990), Minority Report (2002), Impostor (2002), O Pagamento (2003). É impossível ler o livro e não perceber semelhanças com dois filmes recentes: A Vila (2004), de M. Night Shyamalan, e principalmente, O Show de Truman (1998) de Peter Weir. Em todas as histórias há dois mundos e uma redescoberta do conceito de realidade quando o segundo mundo é revelado. Neste aspecto, todas as histórias assemelham-se também aos filmes Matrix (1999), 13o. andar (1999) e ao mito da caverna contado por Platão em A República.

À medida em que alimenta sua paranóia, Ragle questiona por que nunca teve vontade de deixar a cidade. Pistas como revistas encontradas numa ruína, que falavam de pessoas famosas que ele nunca ouvira falar, ou uma lista telefônica de telefones inexistentes reforçam sua tese conspiratória. Depois de uma tentativa frustrada de deixar a cidade, teve a certeza de que estavam observando sua vida. Havia sempre um veículo suspeito perto de sua casa e nos locais para onde ia. Finalmente, com a ajuda do cunhado, tramou uma fuga roubando um dos caminhões que o vigiavam e seqüestrando o motorista. Com isto, conseguiu escapar, passando pelas barreiras policiais, para descobrir que o mundo real era outro. O tempo era outro. Era 1998. A sua história de veterano de guerra era falsa. Tudo era falso. Sua realidade era falsa.

Gradualmente, sua memória foi retornando. Ele era Ragle Gumm, milionário, estilista, exímio decifrador de enigmas. O mundo estava em guerra. Mísseis eram enviados diariamente para bombardeá-los, mas um sistema de anti-mísseis sempre adivinhava onde o míssil ia cair. Era ele quem salvava o mundo. Todos os dias, quando Ragle acertava o concurso do jornal, ele estava na verdade adivinhando onde o míssil ia cair, sem o stress de imaginar quantas vidas seriam perdidas se errasse.

A história é muito interessante. Daria uma boa adaptação. Eu, pessoalmente, não gostei do final do livro nem de vários trechos desnecessários, mas isto é típico dos livros de Philip K. Dick. Ele escrevia muito e não passava muito tempo revisando pois tinha que sobreviver escrevendo (e os editores de ficção científica nunca tiveram muita preocupação com essas questões). O ruim de livros de ficção científica antigos são detalhes que ficam obsoletos (o livro foi escrito em 1959, e imaginava um 1998 com colônias na Lua e em Vênus). Mas a essência da história não depende desses detalhes. Vale a pena ler. O livro foi publicado em português, em 1985, com o título O Homem Mais Importante do Mundo, pela editora Livros do Brasil, de Portugal. Parece estar esgotado em português (o título é terrível, mas quem sabe a tradução não se salva?)

Time Out of Joint
Philip K. Dick
Vintage Books
US$ 10.40 na Amazon.com



2 comentários:

Anônimo disse...

Que lindo isso aqui! Qta tranquilidade, vim retribuir a visita! Muita paz e que bom que gostou do meu blog, volte lá para vasculhar o baú quando quiser e se quiser contribuir escrevendo também será bem vindo! Quanto a Píramo e Tisbe, ficaremos em cartaz por mais duas semanas apenas, já está convidado! Apareça por lá e não vá embora sem falar comigo! Beijo, Menina. Ps: Prometo que volto com mais tempo pra conferir com calma seus textos.
{{Menina do Retrato;www.meninadoretrato.blogger.com.br;meninadoretrato@bol.com.br}}

Anônimo disse...

MA-RA-VI-LHO-SO O SEU BLOG
ADOREI, ESTÁ DE PARABÉNS!
nUNcA ENTREI EM UM BLOG COMO ESTE, COM TANTA MAGIA, ENCANTO E ORIGINALIDADE :D
aBRAÇOS!!!
{{Branca;;branca01@hotmail.com}}