15.10.04

Os que ensinam; os que aprendem

Claude Lefebvre (1637-1675): O mestre e seu aluno
Claude Lefebvre (1637-1675): O mestre e seu aluno (Louvre)

A retenção do conhecimento sempre foi uma fonte de poder. O professor age na direção contrária, difundido o que sabe, diminuindo a concentração de poder, diminuindo a desigualdade social. Mesmo quando não revela nenhuma informação específica, ele indica caminhos, estimula a busca e a curiosidade. A sua existência é uma ameaça a poderes tirânicos. O mestre estimula a curiosidade, tenta seus alunos para que saiam de suas jaulas, instiga seus alunos a buscar o mundo fora de todas as jaulas. É um subversivo que ajuda a formar indivíduos, e não sombras do sistema.

Como professor, acredito que o professor tem hoje, como principal tarefa, estimular seus alunos para que despertem o interesse de buscar os conhecimentos por si próprios. Vale muito mais conseguir motivar que conhecer a fundo o assunto que se ensina. A motivação estimula a aprendizagem. Só quem aprende mesmo é o aluno, se ele quiser, se ele tiver interesse. Ensinar não é impor fatos, fórmulas ou dogmas. Se assim fosse, seria lavagem cerebral, adestramento (e infelizmente, muitas vezes é). Ensinar é guiar, iluminar, facilitar para que o outro encontre seu próprio caminho. O professor tem que ajudar a formar autodidatas, pessoas capazes de descobrir, no universo de informações espalhadas pelo mundo, o que vale a pena aprender, o que faz sentido aprender, dentro do que desejam para suas vidas. Ajuda a educar o aluno para que ele valorize a informação não pela autoridade de quem ensinou, mas pelo significado que tem para a sua vida.

Nenhum professor verdadeiro diz o que é melhor para você. Não acredito em professores que se tornam deuses, impõem seus dogmas e adestram seus alunos utilizando a sua autoridade ou de quaisquer autores. Nenhum mestre verdadeiro deseja ser venerado. O professor estimula a inteligência dos alunos, revela-se, expõe-se, entrega-se, torna-se vulnerável. Vale muito o professor que consegue fazer com que os alunos acreditem em si mesmos. Ele ajuda a formar indivíduos conscientes do seu potencial, que não têm medo de discordar de convenções, idéias, autoridades de sua época ou épocas passadas.

O melhor professor nada retém. Também não acredito em professores que escondem o que sabem. O melhor professor não tem medo de ser superado, pois ele nunca deixou de ser também aluno. É um eterno aprendiz. Aprende com o mundo, com a natureza, com os livros, com outros mestres e principalmente na convivência com seus alunos, mesmo que sejam apenas leitores. O melhor professor ajuda a formar pessoas que irão, um dia, superá-los. A razão de existir de um mestre é ser superado pelos seus alunos. Isto é a sua maior realização, pois comprova a sua competência.

É uma pena que os professores - principalmente os mais indispensáveis, que são os de ensino básico - sejam tão desvalorizados. Sem eles não seríamos sequer civilização. Acho que nem trogloditas nômades seríamos. Continuamos a punir aqueles que ousam difundir o conhecimento, enquanto premiamos os que enriquecem ao retê-lo. Lembramos deles neste dia, para não precisar pensar nisto pelo resto do ano.

2 comentários:

Thiago Franco Balieiro disse...

Concordo com você Helder.
Muito legal.

Thammy disse...

lindo, Helder. Lindo mesmo. E real também. Faltou dar parabéns pra vc no email desculpe...
bjo