29.10.04

Cinco, de Abbas Kiarostami

Cenas de Cinco

Um filme minimalista ao extremo, com um ritmo muito, mas muito lento. Se eu fosse escolher um filme para definir o Zen, seria este, pois é um daqueles filmes onde se compreende claramente o que ele quer expressar, desde que se desista de tentar entendê-lo racionalmente. Antes do início do filme (eram 23:45, e várias pessoas estavam no CineSESC desde o início da tarde) o diretor advertiu à platéia que não tentasse encontrar lógica no filme. "Relaxem" ele disse, "e se tiverem sono, fechem os olhos e durmam que eu não ficarei chateado."

Dedicado ao cineasta japonês Yasujiro Ozu, Cinco é um conjunto de cinco cenas longas (1h15 no total). As cenas foram feitas diante do Mar Cáspio, próximo da residência do diretor. Foi usada uma filmadora digital que, na maior parte dos filmes, permanece totalmente estática. As cenas, vistas objetivamente, parecem banais, mas a concentração que conseguem extrair do espectador realizam a mágica de transformá-las em histórias dramáticas. É como ler um livro que estimula a imaginação, ou ainda como mergulhar nas possibilidades de uma obra de arte abstrata. Cada filme é algo parecido com uma pintura. Não sei se seria a mesma coisa assistir em vídeo. A concentração total é fundamental para viver a experiência.

A primeira história retrata a saga e o "sofrimento" de um toco de madeira na sua luta contra as ondas do mar que quer levá-lo embora (eu não vou conseguir descrever isto objetivamente). O momento de maior tensão é quando o mar finalmente consegue quebrar o toco em duas partes. Uma parte flutua e vai embora, e ficamos na esperança de um reencontro. Perto do fim, ele reaparece, mas não volta mais e é levado pela correnteza.

A segunda história mostra pessoas que passam em um calçadão diante da praia. Vez ou outra passa uma pessoa, ora mais perto da câmera, ora mais distante. A sua chegada é antecipada por um ou dois pombos, que fogem apressados dos passantes (mas nunca chegam a voar). Num certo momento, um grupo de velhos se encontra e se reúnem para discutir. Não dá para ouvir o que eles dizem, tampouco ver qualquer expressão em seus rostos. No fim, eles vão embora, a cena fica vazia e começa a ficar menos nítida. Quando aves começam a aparecer ao longe, no céu, a cena vai terminando, muito lentamente enquanto o contraste diminui e o brilho aumenta.

A terceira história é uma história de amor e de muita preguiça. Inicialmente, vê-se umas manchas perto da praia. Depois de um tempo percebe-se que trata-se de uma matilha de cães. Uma das manchas, de pele malhada, deve ser a fêmea que está no cio. Em volta dela uns cinco machos. A cena é muito lenta e deve durar uns 20 minutos. Os cães estão com uma preguiça imensa. Vez ou outra um se levanta e muda de lado. Outro levanta-se, balança o rabo e fica do lado da fêmea. E depois um deles senta, depois outro senta, e ficam parados. Tudo sempre muito devagar. Num certo momento, a fêmea levanta-se e preguicosamente se afasta deles até deitar-se no lado esquerdo da tela. Pouco a pouco os cães vão se levantando, muito lentamente, e se agrupam pouco a pouco perto da fêmea. Não dá para perceber, mas a imagem vai ficando cada vez menos nítida. E de novo eles se levantam. E de novo outro balança o rabo. Tudo muito lento. No fim, a imagem já é quase branca e três manchas pretas imóveis descansam diante das ondas.

A quarta história é uma comédia. Primeiro, voltamos a ver a cena da praia, com o ruído das ondas quebrando na areia vazia. De repente, ouve-se um quac e eis que um pato surge do nada quebrando a tranquilidade da cena. Depois chega outro pato, andando calmamente para a direita. Depois passa mais um, correndo. Patos brancos, patos marrons, malhados, grandes, pequenos, de todos os tipos. Em pouco tempo centenas de patos estão passando em procissão, ora rápido ora lentos para a direita. Lá pela metade da cena, depois de muitos patos terem passado, eis que um pato pára, faz quac para o outro que vem atrás, que também pára. E então, começam a andar no outro sentido. E aí todos os outros patos surgem correndo no sentido contrário.

A última cena ocorre na escuridão total. Ouvimos sons de sapos, latidos ao longe, uivos e trovões distantes. Finalmente uma pequena mancha aparece. É o reflexo da lua na água. Parece ser uma lagoa. Pontinhos se movem e pulam de um lado para outro. É deles que vêm os sons. São sapos. Vários e diferentes coaxares são ouvidos. Uns parecem frágeis, como o som de um grilo. Outros soam mais agressivos, principalmente quando respondem ao som do mais frágil. Vez ou outra aparece um coaxar estranho que pare reclamar da vida. É muito engraçado. E assim prossegue a melodia da lagoa. De vez em quando os sapos se calam e ouvimos latidos de cachorros. Os trovões se aproximam. Ficam mais fortes. Chuva. Escuro total. Relâmpagos iluminam a chuva por um breve instante. Terminada a chuva, volta o reflexo da lua, das nuvens, dos sapos. Voltam os coaxares. Cães uivam e finalmente os galos começam a cantar. Já está amanhecendo e o filme termina com o céu azul refletindo na lagoa.

Vale a pena assistir este filme, se não pelo cinema, pelo menos como uma relaxante sessão de meditação.

Cinco, de Abbas Kiarostami, ainda será exibido na 28a. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no dia 04 de novembro, às 13h30, no Frei Caneca Unibanco Arteplex 2.

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