16.9.04

Resposta a uma pergunta simples

Nebulosa Cabeça de Cavalo - B33, na Constelação de Órion

"O que queres da vida?" perguntas-me. E eu, em silêncio, penso no que responder. Penso mais, e quanto mais penso, menos sei a resposta. Vejo-me nu, vulnerável, como criança perdida da mãe no meio da multidão. Esta é pergunta cuja resposta eu teria que saber, não é? Por que não sei? Será que sou louco? Irresponsável? Será que sei e não quero dizer? Mas se sei e não quero dizer é que na verdade eu não sei e não quero dizer algo que na verdade não acredito, não é?

O que eu quero? Sinceramente? Eu não sei ainda. Aliás "saber" é uma palavra que cada vez mais desaparece do meu vocabulário. Quanto mais "sei" menos creio que meu saber é real. É só pensar no que se sabe para que se pense que o que se sabe não é saber.

Mas estou fugindo da tua pergunta, não é? Entendo o que me perguntas. Já achei que queria casar, ter filhos e morar, em um só lugar. Já achei que queria vagar, por mares e trilhos, e navegar, pelo mundo. Criar, inventar caminhos, mudar os rumos, influenciar os destinos, realizar coisas impossíveis, alterar as trajetórias dos dias e dos anos, das idéias e concepções, das pessoas e das nações. Eu ainda não sei o que quero. Não sei se algum dia saberei. Quanto mais aprendo, menos eu sei (não tenho como fugir do assunto - é parte da resposta, se é que ela existe). Quanto mais cresço, maior torna-se o Universo, mais enxergo onde antes havia pouco, mais ouço os que antes ignorava, mais respeito os que vivem sem grandes ambições, felizes em suas convicções. Cada novo conhecimento descortina mais um aspecto da minha ignorância, aumentando a complexidade de todas as coisas, atos e pensamentos, revelando-me uma sabedoria que está em um mundo simples do qual participo cada vez menos.

Não sei tuas convicções. As minhas não são e não podem ser fixas. Estão sempre diante do risco do desabamento. São dinâmicas. Há umas mais antigas; há outras mais novas. Talvez não se possa viver sem convicções, mas para mim, elas se comportam como teorias científicas - sempre vulneráveis à primeira refutação. São castelos de cristal que podem trincar na ressonância aguda de uma nova descoberta. As palavras "nunca" e "sempre" são continuamente reinventadas em minha mente.

Adoro paradoxos, enigmas, infinitos e círculos que não tem fim. Adoro escrever textos loucos sem sentido imediato com idéias controversas nas entrelinhas. Adoro provocar minhas convicções, pô-las à prova e testar idéias contrárias. A incerteza me anima e move meu interesse. A dúvida me dá prazer em viver, me incentiva à investigação constante e permanente. A sede de descobrir parece-me insaciável. A curiosidade sobre o todo, sobre o que existe de fato, sobre a possibilidade do fato não existir, sobre a inexistência da existência, faz destes sentidos dinâmicos que imprimem em minha mente algo que defino como vida - para pelo menos poder falar dela - uma aventura extremamente feliz. Fico feliz em saber que o desconhecido é infinitamente maior que o conhecido. Busco a verdade em todos os tempos e espaços, mesmo reconhecendo que nunca é definitiva ou absoluta. Para mim, a certeza definitiva e a verdade absoluta, a predestinação determinada, o nunca e o sempre, o início e o fim, o preto e o branco são singularidades inatingíveis. Utopias que buscamos, chegamos perto, mas nunca alcançamos. Dão sentido às coisas e à vida. Trazem alegrias e tristezas num mar utópico de indiferença, um espectro de cores entre o tudo e o nada. Aceito relatividades, finais com reinícios, viagens sem volta mas com novas partidas, até mesmo a paradoxal utopia. Acredito no "nunca" e no "sempre" do que se move e se transforma, do que muda para continuar ou deixar de existir.

Então como posso responder à tua pergunta? Será que posso? Acho que sou muito imaturo. Se é tão simples, por que eu não vejo uma resposta simples? Às vezes tenho certeza do que quero, quando a solidão me atinge com força, quando tenho medo do infinito e da imensidão do mundo, quando vejo-me no meio de um deserto humano, compreendendo tudo e todos como uma tela pintada, fotografia ou filme que assisto sozinho sem poder participar. Nessas horas quero entrar no filme e esquecer do mundo lá fora. Quero ser uma pequena parte da parte maior que para mim era o todo conhecido. Quero ser sombra feliz que sequer sabe sua condição de sombra. Nessas horas eu sei o que quero da vida. Mas não sou eu! É minha personagem do instante do desespero, que sabe como ser feliz num mundo que compreende através de uma janela da minha mente. Mas eu sou a mente inteira, de mil janelas, cujos horizontes estendem-se além das fronteiras desse Éden compreensível e seguro, e seduzem-me com o infinito, incompreensível e incerto. Como posso responder sobre mil futuros?

Não vou conseguir. Não acredito em promessas pontuais sobre futuros incertos. Não sou máquina, nem espero conviver com máquinas. Aceito a condição humana, animal, por mais que sofra com seus efeitos. Aceito que o amor foge ao controle humano e que deve-se curtir sua intensidade pelo tempo que durar (mas também que sentimentos de amizade e cumplicidade podem persistir bem além.) Aceito a irrestrita liberdade de pensar e de ser. Aceito que idéias mudam, assim como opiniões, crenças e conceitos, vontades e sentimentos. Aceito que os sentidos freqüentemente nos dominam, que a mente muitas vezes nos induz a raciocínios complicados e destrutivos, que erramos dentro do que definimos como certo e errado, que violamos acordos e também que nem sempre concordaremos com as mesmas definições. Aceito que somos humanos e imprevisíveis. Numa sociedade que exige de nós cada vez mais a perfeição mecânica diante de convenções aceitas pela maioria, é fundamental que aceitemo-nos como humanos, com direito irrevogável à compreensão e ao perdão, acima das leis e convenções, mesmo que seja para ter o direito de não compreender ou não perdoar.

Todo argumento longo é ruim, dá margem a interpretações diversas; confunde. Dificilmente não haverá contradições nisto que escrevi... Escrevi, escrevi, e não consegui. Não consegui responder à tua pergunta simples.

(São Paulo, setembro de 2003)

4 comentários:

Anônimo disse...

Certas questões não precisam ter respostas...só um breve olhar:
"Minhas palavras voam
Meu pensamento lhes é infiel
Palavras assim jamais chegam aos céus..."
você sabe de quem?
{{Paulo Maeda;Silêncio...;paulomaeda1@hotmail.com}}

Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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Anônimo disse...

"My words fly up
My thoughts remain below:
Words without thoughts
never to heaven go."
Claudius, King of Denmark

O olhar foi sincero, e foi sentido, mas pensamentos racionais temem apoiar-se em gestos intangíveis, que não podem perpetuar, como coisa sólida, representável como objeto na memória. Pensamentos racionais requerem a redução do olhar a uma forma aceita de palavras, controláveis, interpretáveis; uma ilusão que dá segurança, pois persiste, mesmo falsa, mesmo vazia de conteúdo, além do fugaz instante do olhar.

{{Helder da Rocha;www.helderdarocha.com.br;helder.darocha@gmail.com}}