13.9.04

O espaço e o oriente

Estou lendo um livro de Robert Lepage, onde ele fala de suas experiências no teatro, cinema, e na vida. Traduzi um pequeno trecho abaixo sobre a percepção do espaço pelos atores orientais.
(...) Pode-se percebê-la nas performances dos atores, que são guiadas por um vocabulário interior. Esta é toda a base da dança butô - inicialmente inspirada por hibakusha que é sobre como animar um corpo inerte, morto, com um espírito poético. Aqueles que dominaram esta disciplina aprenderam como desenvolver uma série de imagens interiores... cascatas nos seus joelhos, nuvens flutuantes em seus braços, e assim por diante. O dançarino cria um universo extremamente compacto. Quanto mais rico e mais colorido este universo, maior é a paisagem poética, melhor é o movimento. Como resultado, tanto no butô quanto no teatro, sua paixão é principalmente uma paixão interior. O que se vê do lado de fora é sempre infinitamente sutil. Observa-se o vestígio de uma emoção, nunca a emoção em si. No ocidente, temos uma tendência a revelar tudo, a nos atirar contra paredes como forma de indicar paixão. Os japoneses simplesmente mostram traços, não muito diferentes de seus impressos, sua arte de deixar traços no papel. Eles revelam apenas o suficiente para permitir que se imagine uma paisagem poética interior. Isto é muito mais poderoso.*
Lepage é fascinado pela cultura japonesa. Costuma trabalhar colaborativamente com grupos multiculturais e explorar o choque e confluências culturais em suas obras (como em Os Sete Afluentes do Rio Ota). O trecho que eu destaquei ficou um pouco fora de contexto. Antes ele descreve sua experiência com atores japoneses, seus hábitos durante os ensaios e filmagens. Ele não está criticando os atores ocidentais, nem a interpretação expressionista (que ele usa, também, em suas peças), mas observando como a arte do ator é influenciada pela sua cultura. Coisas que são difíceis para atores de uma cultura podem ser naturais para os de outra e vice-versa. Diferenças culturais podem mostrar-nos caminhos de auto-descoberta.

* Robert Lepage, Connecting Flights, p. 39, Theatre Communications Group, New York, 1998.

2 comentários:

diyosafe disse...

Very enlightening and beneficial to someone whose been out of the circuit for a long time.

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teroapex disse...

Did you heard what Rob Matts said about that?

clomid