24.9.04

A cor do vento em repouso

Há idéias que nascem do nada. Não, sequer são idéias. Não há idéias nem palavras para expressá-las. A única coisa que posso dizer é que são alguma coisa. Coisa imaginária, talvez, mas alguma coisa, e não algo desprezível, mas algo que parece ser mais importante que tudo. O que se sente são impressões. Leves, muito leves. São como uma brisa muito suave, lisa e calma. Estão lá, e estão aqui, no meio destas letras. Também não estão, nem lá, nem aqui, e isto faz todo o sentido, e isto torna tudo muito mais claro.

Três Mundos, por Mauritz C. Escher, 1955
Três Mundos, por Mauritz C. Escher, 1955

Então eu olho para o texto para ver algo que parece vir das palavras, mas a ausência de sentido lógico do que está escrito me salva da tentação de procurar lá, impedindo que eu desvie minha atenção. As fronteiras da percepção ficam levemente abaladas, e deixam que vestígios de algo maior escape, por breve instante. As palavras parecem servir apenas como isca, e dão um pouco de textura, de ritmo, talvez cores. E então, algo que não sei, que não são idéias, aparenta surgir entre linhas e traços, quando eu não estou olhando diretamente, nem pensando objetivamente.

Existe, e é completo, compreensível. Eu procuro palavras para descrever, mas não acho, pois quanto mais penso, mais distante fica. Às vezes consigo escrever rapidamente o que me vem à mente, sem pensar. Nessas horas, o máximo que eu consegui foi escrever coisas como "caos de ausências", "um nada com sensação de totalidade". É muito sutil, estranho, e resiste a qualquer abordagem objetiva, direta. Mas está lá. Já duvidei que fosse algo. Talvez não seja algo, mas existe. E se algo é revelado, eu não sei mesmo o que é. Pensando bem, acho que isto nem importa tanto.

5 comentários:

Anônimo disse...

Helder, a autoria deste testo é sua ? É maravilhoso... provocou em mim algumas emoções que não seberei como descrever... mas... deixa pra lá, é pessoal e ... pensado bem, acho que isso não importa tanto.
{{Eduardo;Não tenho ainda;esjr@uol.com.br}}

Anônimo disse...

Por que você procura tanto uma explicação ? Um ponto final, de interrogação, de exclamação? É tão ruim assim ? Viver sem a resposta ? As respostas...
Não precisa ter sentido....ou pode ter...ou não...que importa...?
Um suspirar...
{{Paulo Maeda;Silêncio...;paulomaeda1@hotmail.com}}

Anônimo disse...

Eduardo, obrigado pelo comentário. Que bom que você gostou do texto. Eu o escrevi sim (qualquer texto deste blog que não cite a fonte é de minha autoria.)
{{Helder;;}}

Anônimo disse...

Eu diria q me é muito comum essa sensação de estranheza, como se algo oculto em nós mesmos gritasse, lá no fundo, tentando nos dizer alguma coisa que não conseguimos captar com exatidão.

Daí vem aquela sensação de desconforto, como se tivéssemos algo muito importante pra dizer, mas não temos idéia exata do q é.

São exatamente o q vc disse, impressões.

Impressões sem sem lógica alguma, mas q pra nós, em essência, tem uma certa lógica, q não conseguimos transpôr para um texto, e transcrevê-la exatamente da forma como a enxergamos.

São aqueles conceitos q nós próprios criamos, e não conseguimos explicar pra outras pessoas. Seria bem isso.

Já passei por experiências semelhantes, e realmente isso nos deixa um pouco frustrados. É nessas horas q somos obrigados a encarar nossa limitação, e vemos q ainda tem muito potencial em nós mesmos pra ser explorado.

O jeito é continuar tentando procurar um sentido em tudo, ou não, mas transpôr essa falta de sentido com exatidão, tal qual se dispõe em nossa mente.

E, pra finalizar, uma bela e enigmática imagem dessa q usou pra ilustrar o texto. Inspiradora, eu diria
{{Wolv;http://www.oexistente.blogger.com.br;wolv_logan_x@yahoo.com.br}}

Anônimo disse...

Pessoalmente eu sou mais pela teoria do Voltaire, "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" ou então mesmo do Abelardo Barbosa "Na TV nada se cria, tudo se copia". Mas acho dificil que alguma coisa saia do nada.
Não conseguir indentificar as fontes não quer dizer que elas não existam
{{C;;cilon@japan.com}}