16.9.04

Ética das pessoas de outras espécies

Imagem de capa do livro 'Rattling the Cage' sobre direitos dos animais, por Stephen Wyse.Nós, humanos, temos a tendência (compreensível) de nos enxergar como seres superiores, em termos absolutos, em relação ao restante da natureza. Se pudéssemos, seríamos um reino à parte. Incomoda fazer parte da mesma espécie de outros bichos peludos, que não escrevem, que (na nossa opinião) não falam, que (na nossa opinião) não têm cultura. Talvez por isto seja tão fácil para nós, dar um valor divino a um embrião humano de poucos minutos de vida, e desprezar a vida, e torturar (para o nosso bem maior) esses seres fracos, que dominamos. Não nos interessa se entendem linguagem de sinais, se são capazes de dizer o que querem, se pensam, se conseguem ensinar experiências, linguas, se criam e usam ferramentas, se discutem, se guerreiam, se amam, se sofrem. Tudo isto nossa ciência descobriu, mas talvez nos incomode demais, talvez nos force a rever conceitos antigos, tradições, culturas. É mais fácil olhar para os outros lados, viajar nas palavras, nas filosofias circulares.

Critica-se os que dedicam-se a defender as outras espécies. São chamados de desumanos... "Por que um asilo para cães e gatos se há tantas crianças abandonadas que não têm teto..." é um chavão típico. É como se quem se preocupa com animais também não se preocupasse com gente. É como se fosse uma ofensa à dignidade humana ajudar esses outros habitantes do planeta, que não falam nossa língua, que são por nós totalmente dominados, em todos os aspectos. Não temos nenhum respeito por suas culturas, nem por sua liberdade, nem por sua integridade física, nem por suas vidas. Acusam de antropomórficos trabalhos sérios que revelam inteligência em outras espécies. Acusam de heréticas atitudes respeitosas, supostamente reservadas aos humanos.

A discussão é longa. Não vou conseguir parar de escrever. Vou concluir citando o trecho de um livro escrito por um respeitado cientista, para alimentar a discussão:

"Em um laboratório1, macacos resos eram alimentados se puxassem uma corrente que daria um choque elétrico em um outro macaco desconhecido. A agonia do macaco era plenamente visível através de um espelho. Caso não puxassem a corrente, eles passariam fome. Depois de aprender como funcionava o sistema, os macacos frequentemente se recusavam puxar a corrente; em um dos experimentos, apenas 13% a puxavam, ou seja, 87% preferiam passar fome. Um macaco preferiu passar duas semanas sem comer a eletrocutar um desconhecido. Macacos que levaram choques em experimentos anteriores estavam ainda menos dispostos a puxar a corrente. O status social relativo ou sexo dos macacos tinha pouca relevância na sua relutância em ferir os outros.

Se fossemos indagados a escolher entre os experimentadores humanos que ofereceram aos macacos essa oferta de grego e os próprios macacos - que sofriam de fome verdadeira em vez de causar dor a outros indivíduos - nossas simpatias não ficariam do lado dos cientistas. Mas seus experimentos nos permitiram enxergar nos não-humanos um santo desejo em fazer sacrifícios para salvar os outros - mesmo aqueles com quem não compartilham parentesco algum. Pelos padrões convencionais humanos, esses macacos - que nunca foram à escola dominical, que nunca ouviram falar dos Dez Mandamentos, que nunca passaram por uma aula de moral e cívica - parecem exemplares nos seus fundamentos morais e na sua corajosa resistência à maldade. Entre os macacos, pelo menos neste caso, heroismo é a norma. Se as circunstâncias fossem invertidas, e à humanos aprisionados fossem oferecidos a mesma oferta por cientistas macacos resos, faríamos tão bem quanto eles?"2

Carl Sagan, Ann Druyan, Shadows of Forgotten Ancestors, p117-118.
(Ballantine Books, 1992). Trecho traduzido por Helder da Rocha.



1 Jules Masserman, S. Wechkin, W. Terris, Altruistic Behavior in Rhresus
Monkeys
, American Journal of Psychiatry 121 (1964) p. 584-585

2 Especialmente quando há uma autoridade nos incentivando a administrar os choques elétricos, é inquietante observar que nós humanos parecemos ter o desejo de causar dor - e por uma recompensa bem mais irrisória que é a comida para um macaco faminto (Carl Sagan. nota, cf. Stanley Milgram, Obedience to Authority: An Experimental View, Harper & Row, 1974)

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