10.9.04

As horas

As horas estão passando e nada acontece. Não sinto nada. Nem dor, nem alegria. Estou só, como sempre, mas não estou incomodado com isto. A casa está um caos, as contas estão atrasadas, fiz quase nada do que eu achei que seria importante fazer. Agitei mil idéias, um dia, no chuveiro. No fim, criei uma calmaria, e nada se fez. O caos silencioso avança, perigosamente. Ignoro a possibilidade de uma tempestade iminente; de certa forma, desejo-a, para trazer de volta o risco da morte, para ter certeza que ainda vivo.

Um parágrafo. Sete minutos se foram, e sete dias. Não percebi que se passaram sete anos. Mais que isto. E ainda estou aqui, sentado, escrevendo, e ainda sem entender para que serve tudo isto. Sentir nada deve ser algum tipo de defesa contra a irracionalidade da escolha de uma solidão voluntária. De que me servem esses livros todos? Esses mortos. Queria ouvir histórias de pessoas vivas. Histórias simples. Os mortos me contaminam. Não consigo mais contar as histórias simples.

Eu podia deixar tudo isto. Este silêncio. Este quarto frio. Parece tão fácil fazer isto. Aqui eu não crio nada que não poderia criar em outro lugar, mais próximo das pessoas que me amam. O telefone e a Internet são analgésicos; atenuam o desespero, acalmam. Às vezes eu acho que inventamos este mundo para tocar nas pessoas, para abraçar, para ficar muito, muito perto. Eu queria, agora, deitar no colo de minha avó e ouvir as canções que ela cantava quando eu era criança. Quero ouvir as histórias que ela conta. Estive lá há uma semana, quando ela fez 93 anos. Voltei há poucos dias. Foi pouco, muito pouco. Estou longe, e não acho que nada que faço aqui, longe, sozinho, é mais importante que estar lá, perto dela.

E com isto, se foram outros 36 minutos, digitando. As coisas estão do mesmo jeito, no mesmo lugar. Aqui, silêncio. Lá fora, a cidade agita-se. E o relógio da sala não pára.

7 comentários:

Anônimo disse...
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Anônimo disse...

Helder, vc é o meu maluco preferido! sempre lembro de vc...fecho os olhos e te vejo dizendo :"larguei o seminário..." morri de rir ao saber que as pessoas acham seu blog complicado e sem coração. meu querido , acontece que vc é tão estratosférico ,que nós simples mortais habitantes da biosfera, não conseguimos nunca te alcançar. mas tenha certeza , é sempre um grande prazer ler o que vc escreve . muitos beijos ...Rita
{{rita;;ritafernandes@dialdata.com.br}}

Anônimo disse...

Sempre em frente...as vezes um passo pra trás e depois dois pra frente...precisamos de momento de silêncio absoluto, momento só seus em que você precisa falar sozinho...abrimos portas dessas!
Aqui estou do mesmo modo que você...
Pegue um ônibus um dia...pegue um banco vazio e espere lotar, quando alguém te pedir licença pra sentar indague a pessoa porque pede licença quando está num lugar público...comece a conversar, coisas simples, sobre sua família, sobre a família dela...sobre as graças da vida de uma garçonete, no limpar de um gari, olho o mundo observando o olhar das pessoas as suas voltas....existe alguma coisa incompreensível lá dentro..algo de estranhamente familiar....de todas as pessoas, das mais violetas, as felizes, as "ordinárias"...somos todos como elas...todos...
{{Paulo Maeda;Silêncio...;paulomaeda1@hotmail.com}}

Helder da Rocha disse...

Rita, as pessoas tinham achado o formulário de comentário (original do Blogger.com) complicado. E era mesmo, mas eu troquei por um mais simples. Quanto à estratosfera, ela não é um lugar muito agradável para se viver sozinho. Não quero ser águia solitária. Se for para contemplar o planeta azul nas alturas, eu só vou se todos vocês forem comigo.

Helder da Rocha disse...

Luis, obrigado por sua descrição da condição humana, urbana, e por me lembrar que, por mais hostil que seja a cidade, a solidão é uma opção. O abismo entre concordar com o que você escreveu e realizá-lo é imaginário, inventado. É que às vezes coisas imaginárias assombram mais. Não é o abismo que causa danos, mas o medo de olhar e ver que ele não existe.

Anônimo disse...

Sete minutos... sete dias... sete semanas... sete anos...
Sete afluentes... sete silêncios... sete solidões...sete espelhos... sete egos a serem cortados com sete espadas...
Ah, desculpe, estou surtando... beijos


{{Denise;;denise.janoski@br.mcd.com}}

Anônimo disse...

Vc se sente só. Num quarto. E não procura a saída prá isso tudo.
O medo de mudar é muito grande?
A busca por algo que vc nem sabe o q é. O medo de dar tudo errado... A vontade de só ter um empurrão, com o qual pensa que virá o início de novos tempos...
{{Emanuelle;;emanuelleaquino@ig.com.br}}