7.9.04

Acaso é Deus

O mundo era bom, e tudo era simples, até que surgiu a Palavra. Ela veio para confundir. Veio para dominar. No princípio havia o Caos, e Deus era Acaso. Mas eis que fez-se a Palavra, o Verbo, e este reduziu Deus... a um nome. Um nome; que podia ser escrito; que podia ser falado; que podia ser... imaginado; ou nada disso, se ela, a Palavra não permitisse. A Palavra veio, assumiu o mundo e logo emitiu seus decretos. Trouxe a complexidade. Trouxe o medo. Exigiu de nós a definição do infinito. E na sua dualidade definiu todos os opostos, o bem e o mal. Com seus argumentos prolixos e circulares, logo fez-se divina, para que não se creia no que não está escrito.

E assim, Acaso tornou-se heresia, revelação tornou-se não sinônimo de algo observado, algo sentido, mas de algo escrito. Nos enganou a ponto de sugerir que a Verdade está na certeza e não na dúvida. Nos iludiu com a falsa beleza da Lei, insinuando que algo determinístico poderia ser maior que a divina incerteza. Ofendeu a natureza do Universo ao santificar a Ordem, enquanto despreza o Caos, princípio de tudo, fonte de toda a criação, essência da vida.

Mas que adianta discutir isto? Tenho eu alguma chance? Eu penso que, se a palavra clara nos confunde, se eu deliberadamente utilizá-la para confundir, do choque nascerá o Caos. Quem sabe assim ficará claro que Deus e Acaso são uma coisa só, que ateus e crentes pensam igual, e que tudo é justo, tudo é possível. Se há contradição nisto que eu escrevi, é por culpa da Palavra, que assim define, que assim decreta, como um dogma.

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