24.12.04

A invenção do Natal


A Adoração dos Magos, de Rafael

Hoje, no ocidente, comemora-se a véspera de Natal (interessante que se comemora mais a véspera que o dia), uma festa que tem significados diversos, inclusive nos países de maioria cristã. Tenho que confessar que não sou muito fã do Natal (nem da maior parte das festas religiosas que foram impostas ao calendário civil). Eu acho o Natal uma festa hipócrita, cujo significado já se perdeu há muito tempo. Mas não é meu objetivo falar mal do Natal, apesar de estar meio sem inspiração para escrever hoje. Vou contar algumas histórias sobre o Natal, que não são aquelas óbvias que todo mundo já conhece. Eu não garanto que sejam verdadeiras, mas também, quem garante que as outras são?

Para começar, por que 25 de dezembro? Não sei, mas um pouco de astronomia poderá ajudar. Dia 21 de dezembro é o dia que se comemora o início do verão, no hemisfério sul. Para nós, é o solstício de verão. Desde o equinócio de primavera (21 de setembro), onde o dia tinha a mesma duração que a noite (equinócio = equi nox = noite igual) os dias tem ficado mais longos e as noites mais curtas. O solstício de verão é o auge dessa diferença (é o dia mais longo e a noite mair curta). Depois do dia 21, os dias começam a ficar mais curtos até se igualarem à noite novamente no equinócio de outono, no dia 21 de março. Perto do equador não dá para notar grande diferença, mas longe dos trópicos essa variação é o que provoca as estações. Por essa razão, essas datas tinham no passado grande importância na agricultura e nas religiões, e motivaram a criação de observatórios (como Stonehenge, na Inglaterra) que fossem capazes de calculá-las com precisão. Os equinócios hoje caem nos dias 21 dos meses em que ocorrem, mas nem sempre foi assim.

Várias tradicionais festas religiosas contemporâneas acontecem nos equinócios e solstícios, principalmente nas religiões influenciadas de alguma forma por calendários solares. Os cristãos comemoram o Natal no dia 25 de dezembro como sendo a data de nascimento de Jesus, mas na verdade, ninguém sabe sequer o ano em que ele nasceu, quanto mais o dia e o mês. Os cristãos da Rússia, por exemplo, comemoram o nascimento de Cristo no dia 6 de janeiro. Teólogos de diversas correntes do cristianismo calculam seu nascimento em março, coincidentemente próximo do equinócio de primavera (no hemisfério norte), que marca o início do calendário.

Há várias teorias sobre a escolha da data e, como se trata de um assunto religioso, há muita polêmica sem fim que nem adianta discutir. Durante o império de Aureliano (270-275 d.C.) foi instituída uma festa da religião romana chamada Sol Invictus, que celebrava a volta do Sol (no hemisfério norte, os dias voltam a ficar mais longos depois do solstício de inverno, que na época caía em 25 de dezembro). Alguns religiosos que rejeitam as origens pagãs do Natal, defendem que Aureliano criou essa festa para coincidir com o Natal já comemorado pelos cristãos, já que ele era adversário do cristianismo. Há poucas evidências que sustentam essa hipótese. Durante o seu mandato, o papa Júlio I (337-352) teria determinado que a data do nascimento de Cristo era 25 de dezembro, exatamente para aproveitar a festa pagã em homenagem ao Sol e tornar a aceitação menos dolorosa para os romanos. Há mais evidências (nenhuma prova) que sustentam esta segunda hipótese, inclusive discursos de Agostinho e do papa Leão.

Santo Nicolau, padroeiro da Russia (Santa Klaus)Mas isto não tem nada a ver com a comemoração do Natal como conhecemos hoje. Isto começou mais de mil anos depois, na Alemanha (século XVI). Não há, na Bíblia, nenhuma ordem ou sugestão para que se comemore o Natal. Antes, os cristãos só comemoravam a Páscoa. A festa alemã acabou misturando-se com o dia de São Nicolau (Saint Nicolaus, Sintra Klaus) que acontecia no dia 6 de dezembro, daí o Papai Noel. Nicolau é o padroeiro dos desesperados e de mais um monte de coisas. Ele foi um bispo da Igreja Católica e nasceu na Turquia, acho que por volta do século V (depois eu verifico). É também santo padroeiro da Rússia, de onde vieram suas renas e trenós. A história mais famosa sobre Nicolau conta que ele teria ajudado um homem pobre a casar suas três filhas (naquela época, era preciso ter dinheiro para o dote), jogando um saquinho contendo ouro pela chaminé da casa do homem sempre que suas filhas estavam na idade de casar. Nicolau tornou-se um santo muito popular. A história se popularizou no mundo todo, principalmente na Alemanha (onde foi difundida com o protestantismo), depois na Holanda. Quando finalmente chegou nos Estados Unidos, São Nicolau - que sempre fora retratado em trajes de bispo - popularizou-se em seus atuais trajes vermelhos numa garrafa de Coca-Cola.

É isso... Como falei, não sei se é tudo verdade, nem o que é meia-verdade, mas isto não interessa tanto, não é? Desejo a todos os leitores de todas as crenças ótimas festas de final de ano, seja qual for a história escolhida.

13.12.04

Ensaio sobre Nelson: últimas apresentações

Montagem com cenas da peça
Montagem com cenas da peça Ensaio sobre Nelson

Será hoje (segunda-feira, dia 13 de dezembro), a penúltima apresentação da peça Ensaio Sobre Nelson, na qual eu estou atuando. Todos os leitores deste blog que estiverem em São Paulo e puderem comparecer estão convidados. As últimas apresentações serão hoje, às 20:30 e sábado, dia 18, às 16h00, no teatro Espaço dos Satyros (praça Roosevelt, 214, centro - telefone: 3258 6345). Façam reservas pois várias apresentações têm lotado.

Ensaio sobre Nelson é a primeira peça do Núcleo Experimental da Companhia de Teatro Os Satyros, inaugurado pelos alunos das oficinas de interpretação. Nosso grupo passou nove meses estudando a vida e obra de Nelson Rodrigues, fazendo leituras de suas peças, estudando seus personagens e o cotidiano brasileiro no Rio de Janeiro nas décadas de 50 e 60. No primeiro semestre adaptamos, montamos e produzimos mini-peças* baseadas em cenas selecionadas de todas as 17 peças do dramaturgo e escritor pernambucano, que em suas obras expõe a hipocrisia da sociedade tradicional através de obras trágicômicas e míticas. Na segunda etapa, escolhemos personagens de peças diferentes e os colocamos em situações inspiradas nos temas rodrigueanos, adaptando e modificando as cenas e o texto ao longo do processo. O núcleo é coordenado pelo diretor Rodolfo Vásquez. Tivemos como professores os atores Ivam Cabral e Nora Toledo. O texto foi escrito pelos próprios atores, através de um processo colaborativo que contou com a orientação dramaturgica de Jarbas Capusso Filho. Como é um work in progress, o texto e as cenas têm mudado desde a estréia da peça, em 8 de novembro. Portanto, quem já assistiu encontrará novidades se for assistir de novo.

A peça é formada por nove cenas independentes**. O meu personagem é um padre, inspirado em Guilherme, da peça Álbum de Família. Eu contraceno com Geni (Teka Romualdo), personagem de Toda Nudez Será Castigada, que aparece na igreja de madrugada para fazer uma confissão sinistra. Na minha cena também aparece a personagem Glória (Marcela Pupatto), também de Álbum de Família, na forma de um fantasma.

Ainda contracenam Geni com Guilherme, com outros atores e outra trama, Jonas com Nonô (ambos da peça Álbum de Família), Maria Cecília (Bonitinha mas Ordinária) com Pimentel (A Falecida), Dorotéia (Dorotéia) com Sônia (Valsa no. 6) e Leleco (Boca de Ouro), Aracy (Os Sete Gatinhos) com Glorinha (Perdoa-me por me Traíres) e Moema (Senhora dos Afogados), Senhorinha (Álbum de Família) com Sônia (Valsa no. 6) e Moema (Senhora dos Afogados), Guigui (Boca de Ouro) com Edmundo (Álbum de Família) e Zulmira (A Falecida) com Olegário (Mulher sem Pecado). Não percam!

* Eu publiquei fotos, textos e adaptações da primeira etapa da oficina do Espaço dos Satyros no meu site, em
http://www.helderdarocha.com.br/teatro/nelson/ (as fotos e textos estão nas seções reservadas a cada peça; clique no nome da peça no poema para entrar)
** Fotos da peça estão publicadas no meu fotolog, em
http://www.fotolog.net/helder_da_rocha/


Cartaz da Peça
Ensaio sobre Nelson
Dramaturgia: os atores.
Orientação Dramatúrgica: Jarbas Capusso Filho.
Iluminação: Ronaldo Dias.
Direção: Nora Toledo.
Elenco: Ana Lúcia Felipe, Ana Pereira dos Santos, Andressa Cabral, Caroline Ribeiro, David Torrão, Débora Fernandes, Denise Janoski, Eduardo Castanho, Fabiana Souza, Helder da Rocha, Janaína Mello, Marcela Pupatto, Márcia Veiga, Márcio Cazuza, Maria Campanelli Haas, Paulo Maeda, Peterson Ramos, Regina Ciampi, Ricardo Socalschi, Rita Fernandes, Teka Romualdo e Wanderley Safir.
Estréia: 8 de novembro. Segundas-feiras, de 08/11 a 13/12 às 20h30. Sábados, de 04/12 a 18/12 às 16h00. Até 18 de dezembro. Duração: 70 minutos. Recomendado para maiores de 14 anos. Ingresso: pague quanto puder. Local: Espaço dos Satyros. Praça Roosevelt, 214 - Consolação - SP. Tel. 11 3258 6345. http://www.satyros.com.br. Capacidade: 70 lugares. Estacionamento: R$ 5,00. Acesso para deficientes. Aceita reservas por telefone.

3.12.04

Dionísio, o deus persa da guerra

Cortejo Triunfal de Dionpisio - Museu de Sousse

Após ler um trecho do primeiro livro de Heródoto - o "pai da História", conclui que os persas devem ter contratado um deus grego como conselheiro de guerra. Não era Ares (Marte), o deus da guerra, mas Dionísio (Baco), o deus do vinho. E, aparentemente, funcionou bem por muito tempo. Eis o que disse Heródoto:
"É costume entre os persas deliberar sobre assuntos de grande importância quando estão bêbados. No dia seguinte, quando sóbrios, a decisão a que chegaram na noite anterior é apresentada pelo dono da casa onde ela foi tomada, antes que comecem a beber novamente. Se for aprovada, eles a levam adiante. Se não for, abandonam o assunto. Às vezes, porém, acontece de estarem sóbrios durante a sua primeira deliberação. Neste caso sempre reconsideram a questão sob a influência do vinho."1
Os persas, uma pequena tribo de bárbaros montanheses, amantes da farra e do vinho, tomaram milionária Lídia, a poderosa Babilônia, o milenar império egípcio e estenderam seu império da Itália até a Índia. Dionísio, que na Grécia já acumulava funções de deus do teatro, da fertilidade, da embriaguez e do vinho, aparentemente quis brincar de guerra no teatro do mundo. Com sua ajuda etílica, os persas tornaram-se os donos do planeta por mais de dois séculos.

Mas o que é bom não dura para sempre. Um belo dia, o rei Dario, sucessor de Ciro, cismou de importunar os gregos. Estes, que nunca aceitaram o domínio persa, rebelaram-se e Dario declarou guerra a Atenas. Foi uma das piores idéias que alguém já teve em toda a história. Nessa hora, Dionísio deve ter feito as malas e se demitido. Deixou como presente (de grego) uma ressaca tremenda para os persas, que sofreram as derrotas mais espetaculares já vistas e nunca mais conseguiram pôr os pés em Atenas. Faltou embriaguez para concluir que um exército de 100 mil certamente perderia para um de 10 mil. Contra os deuses, não há razão que vença.

Moral da história: 1) não basta analisar as coisas à luz da razão, é preciso também testar sua viabilidade à luz da sabedoria etílica; 2) recomenda-se que decisões tomadas em estados alterados sejam reavaliadas nos estados racionais; 3) não se deve tomar decisões se estiver de ressaca, principalmente se as decisões atingirem atenienses, bêbados, atores e outros protegidos de Dionísio.

1 Heródoto, Histórias. Livro 1: Clio. Traduzi esse trecho de uma edição em língua inglesa traduzida por George Rawlingson.

1.12.04

O Senhor dos Anéis

Saturno Fotografado pela missão Cassini, da NASA
Sombra dos anéis de Saturno e sua lua Mimas. Foto: NASA

Vejam que imagem! Nós terráqueos estamos espionando um mundo distante. A imagem acima foi tirada no dia 7 de novembro pela nave Cassini, quando estava a cerca de 4 milhões de quilômetros do planeta Saturno. As sombras dos anéis fundem-se com o tom azulado da atmosfera superior do planeta ao anoitecer. Os anéis, de um tom amarelado transparente, aparecem na parte inferior da imagem. A luz que passa pela divisão de Cassini (espaço vazio entre os anéis) produz a faixa clara entre as sombras próximo da qual se vê a lua Mimas.

Saturno é como Júpiter: grande, gasoso, quase uma estrela. Suas luas são como planetas. Titã, a maior delas, é quase do tamanho de Marte. É maior que a Lua, que Plutão e que Mercúrio. Tem uma atmosfera. Talvez tenha mares, rios... vida? Em Janeiro, Cassini vai estar bem perto de Titã. Muito perto. Vai soltar uma sonda que irá penetrar na sua atmosfera. Às vezes eu me pergunto, se houver vida em Titã (não interessa o tipo), o que será que os seus habitantes vão achar dessa invasão?

Saturno e Titã. Foto da missão Cassini, da NASA
Saturno e Titã. Foto: missão Cassini, NASA
Há dois anos, quando ainda estava a 285 milhões de quilômetros de Saturno, Cassini tirou a foto ao lado que mostra o planeta ao lado de Titã. Além de Titã, já foram descobertos orbitando Saturno outros 32 satélites, a maior parte nas últimas décadas (principalmente pela missão Voyager, na sua passagem por Saturno nos anos 80). Alguns satélites estão mais próximos do planeta que os anéis e são tão pequenos que parecem mais meteoritos que "luas". Outros são mundos grandes, redondos e rochosos como Titã.

Pode-se ver a Jóia do Sistema Solar a olho nu, e não é preciso viajar para longe da cidade. Pode-se até mesmo vê-lo na Avenida Paulista, no centro de São Paulo, com toda aquela poluição luminosa. O Clube de Astronomia de São Paulo (CASP) mensalmente coloca seus telescópios diante do Conjunto Nacional na Av. Paulista para que os passantes vejam a Lua e os planetas de perto.
Saturno fotografado por Helder da Rocha com Webcam Meade LPI e telescópio SC Meade LX90 de 20cm de espelho
Foto: Helder da Rocha
É claro que um céu limpo sempre é melhor. Saturno a olho nu parece uma estrela, meio amarelada, que não pisca. Com um binóculo de 7x de aumento já pode-se perceber os anéis, como fez pela primeira vez Galileu em 1610. Com um pequeno telescópio de qualidade a visão pode ser ainda melhor. A foto ao lado eu tirei durante um encontro de astrônomos amadores em Brotas, usando uma webcam ligada ao computador e um telescópio refletor. Mas para ver ou fotografar Saturno é preciso primeiro achá-lo, e para isto, é necessário saber localizar-se entre as estrelas.

No meu próximo artigo sobre astronomia, publicarei um guia para achar as três marias e a constelação de Gêmeos (pré-requisito para achar Saturno). Em seguida, um guia para leigos mostrando como achar Saturno (que ontem esteve bem perto da Lua). "Planeta" quer dizer "estrela errante", porque se move em relação às estrelas reais "fixas" (cujo movimento para nós é imperceptível). Isto quer dizer que o caminho que eu vou indicar terá prazo de validade. Vou deixar para publicá-lo perto do fim do mês pois Saturno agora está nascendo próximo da meia-noite (horário de Brasília) e é melhor visto de madrugada. No fim do mês nasce duas horas mais cedo.

30.11.04

Distração Fatal

Praia de Tambaba, Parahyba. Foto de Helder da Rocha

Na praia, eu olhava
as estrelas
que ela iluminava
E ela, amante, me olhava
com sua luz
que então me escapava.

Eu do mar, ignorava
a escura onda
que lentamente chegava
E ela, em silêncio, apagava
a luz dos olhos
que eu tanto precisava.

(Campina Grande, 29 de janeiro de 2003)

26.11.04

Lucidez

Mauritz C. Escher - O Encontro

Era noite, ainda. Ele não entendia o motivo pelo qual acordava naquele momento. Não lembrava de ter sonhado. Não abrira os olhos. Nada ouvia. Mas sabia que era noite e sabia que acordara. Queria abrir os olhos mas só o faria se ouvisse pelo menos o som do vento, de algo passando, de um grito distante. Esperou muito. Só silêncio. Intenso silêncio. Concentrou-se e tentou ouvir a própria respiração. Pensou em fazer um som, suave, com a boca ou com o nariz. Mas não conseguiu senti-los. Sabia apenas que estava acordado, e que era noite. Tinha certeza. Absoluta certeza. Estava muito lúcido. Era óbvio que estava acordado! Mas, era como se os sentidos tivessem lhe abandonado. Pensou em mexer um braço, uma perna. Pensou muito, mas muito mesmo. Nem a agonia foi capaz de sentir. Não conseguia deslocar-se no espaço de sua mente. A lucidez era ofuscante e dominava-o completamente. Queria gritar. Estava aflito. Já não queria mais manter os olhos fechados. Decidiu abri-los de qualquer maneira. Mas o que antes parecia fácil, agora era impossível. Sua a lucidez era excessiva. Ele sabia exatamente como e quais músculos mover para abrir os olhos; sentia que compreendia até mais, mas não conseguia achá-los, nem mesmo visualizá-los.

Concluiu que se não abrisse os olhos ou voltasse a dormir logo, certamente ficaria louco. Tentou pensar na luz do dia, nas coisas que conhecia, nos sons e nas sensações, mas o silêncio e a escuridão eram absolutos. Nada formava-se na sua mente. Mas, em alguma coisa pensava; isto era certo! Pois se não pensasse como poderia incomodar-se com a impossibilidade de pensar? Isto era tão claro quanto sua lucidez absoluta, quanto o silêncio e a escuridão. Mas esse pensamento não era alcançável. Estava lá, tinha certeza, mas não conseguia achá-lo! De alguma forma, ele havia tornado-se... nada. Acreditava ter consciência de si; sabia que era si próprio, mas era como se fosse não ele mesmo, mas a ausência de si mesmo. Sentia-se como o espaço que ocupava no mundo, mas sem o corpo que ocupava o seu espaço. A sua existência parecia estar em um lugar inexistente. Sentia uma ausência absoluta, no tempo e no espaço. Ele não era mais; e poderia nunca ter sido! Seu existir poderia ser mera ilusão. Ilusão de sua mente inexistente.

Aterrorizou-se com a perspectiva de passar o resto da eternidade lúcido, tendo total consciência de que não existia. Especulou sobre o que poderia ter ocorrido: talvez sonhara um sonho recursivo, e nele se consumira (gostava muito de filosofar recursivamente). Talvez tenha encontrado o seu anti-ser, e nele tenha se desintegrado. Mas como podia não existir se pensava? Tentou pensar um pouco mais sobre o assunto. Não conseguiu mais. Percebeu que não controlava as idéias que pensava. Elas apareciam do nada. Eram elas a sua vida, sua consciência e lucidez. Ele era nada. Existia apenas como idéia pensada. A morte, que mais temia, era o esquecimento.

21.11.04

A Face Oculta da Lua, de Robert Lepage

Site do filme

"Antes do telescópio, as pessoas pensavam que a Lua era um grande espelho, e que as montanhas e oceanos em sua superfície luminosa eram meramente os reflexos de nossas montanhas e oceanos. Mais tarde, no século vinte, quando a primeira sonda lunar soviética nos enviou de volta imagens da face distante que nunca vemos, o mundo surpreendeu-se em descobrir que a Lua tinha um segundo rosto, mais profundamente arranhada pela queda de meteoros e outros restos de material cósmico. Os cientistas da NASA gostavam de chamá-la de "a face desfigurada da Lua". Esta ironia refletia o fato de que, daquele momento em diante, todas as crateras daquele lado seriam batizadas em homenagem a cosmonautas soviéticos e grandes escritores russos..."

Essa narrativa inicia o último filme do canadense Robert Lepage, com a imagem da Lua cheia de fundo, ao lado do majestoso Chateau Frontenac de Québec. É um filme metafórico que explora temas como narcisismo, isolamento e solidão, através de belas imagens e de uma história comovente. O tema central é a convivência difícil entre dois irmãos de personalidades opostas, na faixa dos quarenta anos, que têm que lidar com a morte recente da mãe. Ambos são representados no filme pelo próprio Lepage (que neste filme foi ator principal, diretor e roteirista). Filmado em vídeo digital, é o quinto filme do diretor canadense que é mais conhecido por suas obras para teatro, como a peça Os Sete Afluentes do Rio Ota. O filme também é baseado numa peça de teatro que Robert Lepage escreveu. Na peça, que tem o mesmo nome que o filme, ele representa sozinho todos os personagens. Ela foi apresentada em vários países, inclusive no Brasil, há dois anos.

Montagem feita com imagens do filme
Robert Lepage como Philippe e como André


A Lua e as viagens espaciais são uma obsessão de Philippe, o irmão mais velho. Seus conflitos, lembranças, sonhos e fracassos movimentam a maior parte do filme. Os espectadores compartilham a mente do personagem. Ele vive sozinho no mesmo apartamento onde foi criado e cuida do peixinho de estimação que pertenceu à sua mãe. Philippe é muito inteligente mas também muito introspectivo e anti-social. Tenta aprovar pela segunda vez sua tese de doutorado sobre filosofia científica, onde propõe a tese que a corrida espacial teve motivações narcisistas. Para sobreviver, trabalha como operador de telemarketing em um jornal, mas odeia o emprego. É um sonhador. Está sempre à procura o sentido das coisas, e tenta compreender o mundo e as pessoas apesar de nunca ter saido de sua cidade natal. Vive apegado ao passado e à memória de sua mãe.

André é o irmão mais novo e o oposto de Philippe. Meteorologista bem sucedido, é homossexual assuido e mora com o namorado num apartamento com a vista para o Chateau Le Frontenac, no bairro mais caro de Québec antiga. Pragmático, obcecado com moda e aparências, não liga para as questões profundas que ocupam a mente de seu irmão. Não entende como Philippe pode ficar tão preso ao passado e tenta convencê-lo a aceitar vender o apartamento da mãe.

Foto de divulgaçãoO relacionamento complicado entre os irmãos e as tentativas desesperadas de Philippe para ter suas idéias levadas a sério motivam, no filme, a exposição das lembranças do passado e reflexões filosóficas do irmão mais velho. Esses temas são explorados de forma muito criativa através de imagens que carregam diferentes significados, e que são usadas nas transições entre as cenas. Logo na abertura, Philippe está na lavanderia olhando para dentro de uma máquina de lavar. Pouco depois, ela torna-se a janela de um módulo espacial em órbita da Lua. O círculo é uma forma constante em todo o filme e assume diversos significados.

Para construir a história, Robert Lepage buscou inspiração na sua própria vida, misturando memórias e experiências da vida real, como as lembranças do pouso na lua quando criança, seu relacionamento com a mídia e a fama, seus conflitos com seu irmão mais velho e principalmente o sofrimento e morte de sua mãe devido a problemas renais (Germaine Lepage morreu de problemas renais em 1999, aos 74 anos de idade). Segundo o diretor, André e Philippe representam faces opostas da mesma pessoa. Esta foi uma das principais razões pela qual decidiu representar ambos os papéis no filme.

La Face Cachée de La Lune foi vencedor da mostra Panorama do Festival de Berlim este ano e foi indicado pelo Canadá como concorrente ao Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira.

Cartaz do filmeA Face Oculta da Lua
(La Face Cachée de La Lune)
(Canadá, 2003)

Direção, produção e roteiro: Robert Lepage
Elenco: Robert Lepage, Anne-Marie Cadieux
Site: http://www.lafacecacheedelalune.com


Este filme foi exibido na 28ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

11.11.04

Konstantin Tsiolkovsky, 1857-1935

Konstantin TsiolkovskiHoje reconhecido como o pai do foguete e pioneiro das viagens espaciais, o físico Konstantin Eduardovitch Tsiolkovsky foi mais que um visionário. Quinto filho de um imigrante polonês (que teve ao todo 18 filhos), Tsiolkovsky nasceu na Rússia em 17 de setembro de 1857. Sem poder freqüentar a escola, buscou educar-se por conta própria nos livros do seu pai e nas bibliotecas de Moscou. Publicou mais de 500 artigos sobre os mais variados assuntos, com destaque para aerodinâmica, engenharia de balões, viagens espaciais e filosofia. Também escreveu obras de ficção científica.

Desenhos de foguetes feitos por Tsiolkovski
Modelos de foguetes dos cadernos de Tsiolkovsky
Foi pioneiro em várias áreas da engenharia aeroespacial. Construiu o primeiro túnel de vento em 1897 e projetou um avião que chegou a voar em 1915, elaborou modelos para foguetes multi-estágio, estações espaciais, roupas espaciais e outros detalhes das viagens espaciais que nunca chegou a presenciar em vida. Propôs o uso de hidrogênio e oxigênio líquido como combustível para os foguetes (é o que se usa hoje nos ônibus espaciais). Foi o primeiro a determinar corretamente que a velocidade de escape para entrada em orbita é 8 km por segundo. Seus cadernos de anotações contém inúmeros diagramas descrevendo válvulas, câmaras de combustão, giroscópios e vários outros detalhes da engenharia de foguetes.

Tsiolkovsky era surdo. Sua deficiência, adquirida aos dez anos após uma febre, era uma motivação constante para superar-se e provar que poderia ser tão bom quanto as pessoas normais. Costumava dizer que a surdez teve um impacto positivo na sua vida e carreira, pois o silêncio lhe dera bastante tempo para si próprio e permitiu que surgissem idéias e conceitos que foram inovadores para a época.

Tsiolkovski usando um funil para ouvir
Tsiolkovsky usando funil de audição
Levou uma vida simples como professor de matemática em uma escola para crianças na província de Kaluga, onde foi professor para quase três mil alunos durante sua vida. Lá casou-se, teve sete filhos e viveu até os 78 anos. Seu trabalho foi tardiamente reconhecido na Rússia. Só depois que os alemães começaram a publicar seus resultados sobre foguetes, os russos passaram a levar a sério as publicações deste pacato professor primário de uma cidade interiorana. Em 1919 tornou-se membro da Academia Russa de Ciências e recebeu pensão do governo para continuar suas pesquisas.

Uma das primeiras idéias de Tsiolkovsky foi inspirada na torre Eiffel, durante uma viagem a Paris: uma torre que pudesse lançar objetos em órbita sem usar foguetes. A construção era tida como impossível, mas publicações recentes têm levado a idéia a sério. Um artigo publicado em 1999 pelo Journal of The British Interplanetary Society* por G. Landis da NASA, descreve como uma torre de 2,3 mil km de altura poderia ser construída com os materiais existentes hoje em dia, dentro de um custo e prazo razoáveis (menores que os custos atuais com viagens espaciais) e com uma massa (365 toneladas) inferior à da pirâmide de Quéops.

O site http://www.informatics.org/museum (do Museu Tsiolkovsky em Kaluga) contém uma biografia detalhada de Tsiolkovsky e alguns desenhos de seu caderno de anotações. Em http://www.russianspaceweb.com/tsiolkovsky.html há uma biografia mais crítica e imparcial do cientista e imagens de modelos de estações espaciais projetadas por ele.

* G.A. Landis. The Tsiolkovski Tower Re-examined. Journal of The British Interplanetary Society, Vol 52, pp. 175-180, 1999.

10.11.04

Émile Nelligan, 1879-1941

O poeta franco-canadense Émile Nelligan nasceu em Montreal, em 1879. Vinte anos depois teve um colapso psicótico e viveu até os 62 anos internado em um asilo de loucos. Toda a sua obra foi produzida entre 1896 e 1899, mas apenas 23 dos seus 108 poemas foram publicados quando estava com o juízo normal. Apesar da sua curtíssima carreira artística, sua obra é louvada pela extrema sensibilidade e originalidade.

Eu traduzi abaixo um dos seus poemas, que foi recitado pelo ator Robert Lepage em seu filme La Face Cachée de La Lune (sobre o qual eu escrevi uma resenha, mas ainda não postei). O poema reflete bem a obsessão do personagem do filme pela beleza de sua falecida mãe, que ele vê como a imagem da perfeição.

Diante de dois retratos de minha mãe
Émile Nelligan (1879-1941)

Amo minha mãe neste quadro plano
Pintada nos seus anos de menina
Face alva, olhar que ilumina
Tal qual um espelho veneziano

Aqui, minha mãe, não é mais suprema
Rugas marcam seu rosto conservado
Perdeu o brilho do tempo passado
De núpcias cantadas como poema.

Hoje eu comparo os dois descontente
A face alegre e a face triste
Densa névoa em áureo poente.

Mistério no meu coração persiste
Por que, aos lábios tristes, eu sorri?
E ao sorriso, chorei, quando o vi?
Perde-se muito em tradução, principalmente poesia onde interessa preservar a forma. Talvez eu ainda possa melhorá-la. Segue o poema original:

Devant deux portaits de ma mère
Émile Nelligan (1879-1941)

Ma mère, que je l'aime en ce portrait ancien,
Peint aux jours glorieux qu'elle était jeune fille,
Le front couleur de lys et le regard qui brille
Comme un éblouissant miroir vénitien !

Ma mère que voici n'est plus du tout la même;
Les rides ont creusé le beau marbre frontal;
Elle a perdu l'éclat du temps sentimental
Où son hymen chanta comme un rose poème.

Aujourd'hui je compare, et j'en suis triste aussi,
Ce front nimbé de joie et ce front de souci,
Soleil d'or, brouillard dense au couchant des années.

Mais, mystère de coeur qui ne peut s'éclairer !
Comment puis-je sourire à ces lèvres fanées ?
Au portrait qui sourit, comment puis-je pleurer?

A obra de Émile Nelligan (em francês) está em domínio público e pode ser encontrada na Internet. Confira nos sites http://www.emile-nelligan.com ou http://www.collectionscanada.ca/canvers/t16-204-f.html.

29.10.04

Cinco, de Abbas Kiarostami

Cenas de Cinco

Um filme minimalista ao extremo, com um ritmo muito, mas muito lento. Se eu fosse escolher um filme para definir o Zen, seria este, pois é um daqueles filmes onde se compreende claramente o que ele quer expressar, desde que se desista de tentar entendê-lo racionalmente. Antes do início do filme (eram 23:45, e várias pessoas estavam no CineSESC desde o início da tarde) o diretor advertiu à platéia que não tentasse encontrar lógica no filme. "Relaxem" ele disse, "e se tiverem sono, fechem os olhos e durmam que eu não ficarei chateado."

Dedicado ao cineasta japonês Yasujiro Ozu, Cinco é um conjunto de cinco cenas longas (1h15 no total). As cenas foram feitas diante do Mar Cáspio, próximo da residência do diretor. Foi usada uma filmadora digital que, na maior parte dos filmes, permanece totalmente estática. As cenas, vistas objetivamente, parecem banais, mas a concentração que conseguem extrair do espectador realizam a mágica de transformá-las em histórias dramáticas. É como ler um livro que estimula a imaginação, ou ainda como mergulhar nas possibilidades de uma obra de arte abstrata. Cada filme é algo parecido com uma pintura. Não sei se seria a mesma coisa assistir em vídeo. A concentração total é fundamental para viver a experiência.

A primeira história retrata a saga e o "sofrimento" de um toco de madeira na sua luta contra as ondas do mar que quer levá-lo embora (eu não vou conseguir descrever isto objetivamente). O momento de maior tensão é quando o mar finalmente consegue quebrar o toco em duas partes. Uma parte flutua e vai embora, e ficamos na esperança de um reencontro. Perto do fim, ele reaparece, mas não volta mais e é levado pela correnteza.

A segunda história mostra pessoas que passam em um calçadão diante da praia. Vez ou outra passa uma pessoa, ora mais perto da câmera, ora mais distante. A sua chegada é antecipada por um ou dois pombos, que fogem apressados dos passantes (mas nunca chegam a voar). Num certo momento, um grupo de velhos se encontra e se reúnem para discutir. Não dá para ouvir o que eles dizem, tampouco ver qualquer expressão em seus rostos. No fim, eles vão embora, a cena fica vazia e começa a ficar menos nítida. Quando aves começam a aparecer ao longe, no céu, a cena vai terminando, muito lentamente enquanto o contraste diminui e o brilho aumenta.

A terceira história é uma história de amor e de muita preguiça. Inicialmente, vê-se umas manchas perto da praia. Depois de um tempo percebe-se que trata-se de uma matilha de cães. Uma das manchas, de pele malhada, deve ser a fêmea que está no cio. Em volta dela uns cinco machos. A cena é muito lenta e deve durar uns 20 minutos. Os cães estão com uma preguiça imensa. Vez ou outra um se levanta e muda de lado. Outro levanta-se, balança o rabo e fica do lado da fêmea. E depois um deles senta, depois outro senta, e ficam parados. Tudo sempre muito devagar. Num certo momento, a fêmea levanta-se e preguicosamente se afasta deles até deitar-se no lado esquerdo da tela. Pouco a pouco os cães vão se levantando, muito lentamente, e se agrupam pouco a pouco perto da fêmea. Não dá para perceber, mas a imagem vai ficando cada vez menos nítida. E de novo eles se levantam. E de novo outro balança o rabo. Tudo muito lento. No fim, a imagem já é quase branca e três manchas pretas imóveis descansam diante das ondas.

A quarta história é uma comédia. Primeiro, voltamos a ver a cena da praia, com o ruído das ondas quebrando na areia vazia. De repente, ouve-se um quac e eis que um pato surge do nada quebrando a tranquilidade da cena. Depois chega outro pato, andando calmamente para a direita. Depois passa mais um, correndo. Patos brancos, patos marrons, malhados, grandes, pequenos, de todos os tipos. Em pouco tempo centenas de patos estão passando em procissão, ora rápido ora lentos para a direita. Lá pela metade da cena, depois de muitos patos terem passado, eis que um pato pára, faz quac para o outro que vem atrás, que também pára. E então, começam a andar no outro sentido. E aí todos os outros patos surgem correndo no sentido contrário.

A última cena ocorre na escuridão total. Ouvimos sons de sapos, latidos ao longe, uivos e trovões distantes. Finalmente uma pequena mancha aparece. É o reflexo da lua na água. Parece ser uma lagoa. Pontinhos se movem e pulam de um lado para outro. É deles que vêm os sons. São sapos. Vários e diferentes coaxares são ouvidos. Uns parecem frágeis, como o som de um grilo. Outros soam mais agressivos, principalmente quando respondem ao som do mais frágil. Vez ou outra aparece um coaxar estranho que pare reclamar da vida. É muito engraçado. E assim prossegue a melodia da lagoa. De vez em quando os sapos se calam e ouvimos latidos de cachorros. Os trovões se aproximam. Ficam mais fortes. Chuva. Escuro total. Relâmpagos iluminam a chuva por um breve instante. Terminada a chuva, volta o reflexo da lua, das nuvens, dos sapos. Voltam os coaxares. Cães uivam e finalmente os galos começam a cantar. Já está amanhecendo e o filme termina com o céu azul refletindo na lagoa.

Vale a pena assistir este filme, se não pelo cinema, pelo menos como uma relaxante sessão de meditação.

Cinco, de Abbas Kiarostami, ainda será exibido na 28a. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no dia 04 de novembro, às 13h30, no Frei Caneca Unibanco Arteplex 2.

28.10.04

O cinema de Abbas Kiarostami

Abbas Kiarostami antes da exibição de um de seus filmes no CineSESC
Abbas Kiarostami antes da exibição de um de seus filmes no CineSESC.

O cineasta iraniano Abbas Kiarostami está sendo homenageado com uma retrospectiva na 28ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Na quarta, o CineSESC dedicou todas as seis sessões ao cineasta. Dos filmes apresentados, dois eram inéditos. O penúltimo, 10 sobre Dez (2004), faz referência a dois outros que foram exibidos antes: Gosto de Cereja (1996) e Dez (2002). O último, Cinco (2004), é um filme mudo que foi exibido às 23:45. Eu falarei sobre ele no próximo post.

Cenas de Gosto de CerejaGosto de Cereja (Palma de Ouro em Cannes, 1997) é sobre um homem vai se suicidar. Dirige seu carro na periferia de Teerã procurando alguém que esteja disposto a enterrá-lo, depois que ele estiver morto. Ele tem dinheiro e oferece a todos os que encontra, mas a maioria não aceita. Finalmente ele encontra um cientista disposto a ajudá-lo, mas que tenta convencê-lo a não se suicidar. O filme levanta questões interessantes sobre o direito ao suicídio, sobre a liberdade e a natureza da compaixão.

Extremamente minimalista, Dez, é uma história em dez capítulos que se passa totalmente no interior de um carro. Em cada capítulo acontece um diálogo entre o passageiro e a motorista. Para filmá-lo foram usadas duas câmeras fixas, uma apontada para a motorista e a outra para o passageiro. O diretor não estava presente no setde filmagem (o carro). No primeiro capítulo, a câmera fixa em uma criança sentada no banco do passageiro que discute com a sua mãe - a motorista - que é divorciada do seu pai. Somente já perto do final da primeira cena é que a câmera passa a focar a motorista. Depois que o filho desce do carro, termina o primeiro capítulo. Ela transporta e conversa com outros cinco passageiros (entre elas uma senhora idosa, uma prostituta, sua irmã e uma mulher que foi abandonada pelo marido), que expõem os seus mais diversos conflitos, refletindo um pouco dos valores e da cultura da sociedade iraniana. Nem todos os passageiros aparecem. Alguns só são ouvidos enquanto a câmera mostra as reações no rosto da motorista.

Cenas de DezEu não sei exatamente como descrever Dez sobre dez. Diria que é um documentário, um meta-filme - uma espécie de making-of de Dez, uma aula de cinema imperdível ministrada por um professor que inventou suas próprias teorias sobre o cinema. Como Dez, o filme inteiro ocorre no interior de um carro, e tem dez capítulos ou lições. Como Gosto de Cereja, viaja pelas estradas sinuosas da periferia de Teerã. No volante, o próprio Abbas Kiarostami é observado por uma câmera digital fixa, enquanto conversa com o passageiro (que é o espectador) mantendo sempre a atenção na estrada. Para mim o filme foi uma surpresa muito agradável, não só pelo formato original do documentário, mas pelas idéias geniais, senso de humor e opiniões estimulantes do cineasta iraniano. Terminado o filme, fiquei com vontade de comprar uma filmadora digital e começar a fazer uns experimentos cinematográficos.

Veja o site da Mostra para horários e locais onde serão exibidos filmes de Abbas Kiarostami.

27.10.04

Contra a Parede

Foto de divulgação: http://www.gegendiewand.de

Há 18 anos um filme alemão não vencia o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Na edição deste ano o jejum foi interrompido pelo filme Contra a Parede (Gegen Die Wand), do diretor alemão de origem turca Fatih Akin, que faz parte da 28ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme é um comovente drama moderno que retrata com fidelidade os conflitos culturais dos emigrantes que deixaram a Turquia em busca de uma vida melhor na Alemanha. Sua estréia no Brasil está prevista para o mês de janeiro.

"Você pode dar fim a sua vida sem se matar", diz o médico a Cahit Tomruk (Birol Ünel), um homem de 40 e poucos anos, inquieto e cheio de conflitos existenciais. Ele se encontra em uma clínica psiquiátrica por ter jogado seu carro contra uma parede, bêbado, depois que foi expulso de um bar onde envolvera-se em uma confusão. Cahit leva um estilo de vida auto-destrutivo e está sempre irritado com todos e com o mundo.

Sibel Güner (Sibel Kekilli) é uma jovem pertencente a uma tradicional família turca que mora em Hamburgo. Ela quer beber, transar e se divertir da forma como ela acredita que vivem as jovens alemãs da sua idade, mas não pode devido ao controle rigoroso de sua família cujos hábitos e costumes são incompatíveis com o país onde vivem. Sem conseguir libertar-se das amarras da família, ela tenta se matar cortando os pulsos, e é internada na mesma clínica.

Quando Sibel encontra Cahit na clínica e descobre que ele é turco, não hesita em pedir para casar-se com ele. Insiste que seria apenas formalmente, apenas para libertar-se da família, e que seus pais certamente o aceitariam devido à sua origem turca. A princípio ele a ignora, e a toma como louca. Mas em outra ocasião, na cantina do hospital, presencia quando ela é repreendida pelos pais. Sempre que encontra Cahit nos corredores do hospital, Sibel insiste. Garante que não quer nada dele, e propõe-se a bancar todos os custos. Cahit começa a pensar no assunto até que acaba aceitando a idéia, talvez por querer mudar de vida e decidir seguir o conselho do médico. Depois de alguns incômodos (e hilários) encontros de Cahit com a família de Sibel, casam-se, e passam a compartilhar o mesmo apartamento. Ambos levam uma vida sexual independente, mas a convivência os aproxima e aos poucos, essa liberdade começa a incomodá-los. Quando finalmente descobrem-se apaixonados, já é tarde demais.

Foto de divulgação: http://www.gegendiewand.de

Depois que Cahit envolve-se em uma briga movida por ciúmes, acaba provocando uma tragédia. A história toma outro rumo, e fica menos interessante. Os personagens já não são os mesmos, e não conseguem manter o mesmo ritmo contagiante do início. Apesar disso, a imprevisibilidade dos seus atos, o futuro incerto e a impecável atuação dos dois atores seguram a atenção do espectador - agora transportado para as ruas de Istambul - até o desfecho final.

O filme inicia e termina com uma cena que mostra um conjunto de músicos turcos, tocando ao ar livre às margens de um rio com a paisagem urbana de Istambul ao fundo. A cena reaparece em alguns momentos no meio do filme, dividindo a história em "capítulos". Os versos cantados pela cantora refletem os eventos vividos pelos personagens.

Sibel Kekilli. Foto: AP
A atriz turca
Sibel Kekilli
Contra a Parede é um fiel retrato da situação dos imigrantes turcos na Alemanha, contado do ponto de vista de um turco. Fatih Akin, nascido em Hamburgo, é, como seus personagens, descendente de uma família turca. Conflitos entre os imigrantes e seus filhos são comuns, uma vez que as crianças costumam se adaptar melhor à mudança de cultura, enquanto seus pais, que temem as liberdades e hábitos do país em que vivem, tentam controlá-los em vão. O filme foi um grande sucesso de bilheteria em Istambul e Sibel Kekilli tornou-se uma celebridade nacional da noite para o dia. No filme, o pai de Sibel Güner, deserda a filha quando toma conhecimento dos escândalos nos quais a filha se envolveu. No mundo real, dois dias depois de ganhar o Urso de Ouro, um tablóide alemão divulgou que Sibel havia iniciado sua carreira atuando em filmes pornográficos. Ao tomar conhecimento do fato, o pai de Sibel Kekilli, turco que vive na Alemanha desde os anos 70, deserdou sua filha ao vivo durante uma entrevista para um programa de TV.

Cartaz de divulgação do filmeContra a Parede (Gegen Die Wand) (Alemanha, 2004)

Direção: Fatih Akin
Roteiro: Fatih Akin
Fotografia: Rainer Klausmann
Elenco: Birol Ünel, Sibel Kekilli, Catrin Striebek, Gven Kirac
Site: http://www.gegendiewand.de



Última apresentação na 28a. Mostra de São Paulo, hoje, dia 27, às 18:10h no Espaço Unibanco 1. Estréia nacional 07 de janeiro de 2005.

26.10.04

O Operário

Foto de divulgação: www.maquinistmovie.com
Eu estava exausto e faltavam 15 minutos para a meia noite quando assisti este filme. Mas não dá para dormir. A insônia do personagem é contagiosa, e a curiosidade para descobrir o mistério que o atormenta faz com que a passagem do tempo seja esquecida até o momento final, quando tudo é revelado. Ainda terá duas apresentações na mostra. Não há lançamento previsto no Brasil.

Trevor Resnik é operador de uma máquina em uma fábrica. Tem insônia crônica. Há um ano não consegue dormir e sua saúde física e mental vem se deteriorando. Está tão magro que e pálido que parece um morto vivo. O seu esgotamento o afasta dos colegas e das outras pessoas. Sua vida social resume-se a encontros com uma prostituta e visitas a uma garçonete que trabalha no aeroporto, do outro lado da cidade. Seu stress acaba levando-o a ser responsável por um acidente de trabalho que leva um colega a perder um braço. Ele alega ter sido distraído por um funcionário que ninguém nunca viu, e começa a ficar paranóico. Começa a achar que todos tramam contra ele, que desejam vingança, que querem deixá-lo louco.

O filme inteiro parece um tipo de pesadelo. O ambiente tenebroso da fábrica, a expressão cansada dos operários, a baixa saturação das cores e a pouca luz ajudam a criar um clima sombrio que intensifica a sensação de terror crescente do filme. O espectador compartilha a mente de um personagem que aparenta estar perdendo a razão, e não tem certeza se o que vê é real ou imaginário. O terror aumenta à medida em que Trevor começa a investigar as coisas estranhas que acontecem à sua volta.

Christian Bale
Christian Bale antes das filmagens
Trevor Resnik é Christian Bale, o ator que fez o garoto do filme Império do Sol, de Stephen Spielberg. A sua atuação é muito convincente, mas o que chama mais atenção é a forma como ele se entregou ao papel. Para interpretar o esquelético Trevor, Bale, que tem um metro e 88 de altura e pesa 86 kg, teve de perder peso e ficou parecendo uma vítima do holocausto nazista aos 58 quilos. Seus 28 quilos perdidos são considerados um recorde na indústria do cinema. Nenhum ator perdeu tanto peso para representar um papel. Segundo os produtores, ele ainda queria chegar aos 50 quilos mas não o fez por temer conseqüências à sua saúde.

Filmado em Barcelona, o filme foi dirigido por Brad Anderson (Próxima Parada: Wonderland), com roteiro de Scott Kosar (O Massacre da Serra Elétrica). Kosar diz ter buscado inspiração em várias fontes, que incluem suas próprias paranóias, filmes de Hitchcock, o conto O Duplo, de Dostoiévski e os filmes O Inquilino (1974), de Roman Polanski e O Amigo Americano (1977), de Wim Wenders, todas obras psicológicas onde o protagonista enfrenta a própria loucura.

Cartaz de divulgação do filme: FilmaxO Operário (The Machinist)
(EUA, 2004)

Direção: Brad Anderson
Roteiro: Scott Kosar
Fotografia: Xavi Giménez
Trilha sonora: Roque Banos
Elenco: Christian Bale, Jennifer Jason Leight, Aitana Sánchezp-Gijón, John Sharian
Produtor: Júlio Fernandez
Site: http://www.machinistmovie.com




Apresentações na 28a. Mostra de São Paulo: dia 23, às 23:45h no Frei Caneca Unibanco Arteplex 2; dia 24, às 13:30h, no CineSESC; dia 01, às 16:10, no Espaço Unibanco 1; dia 02, às 20:30, na Sala UOL de Cinema.

25.10.04

A Pessoa é para o que Nasce

Conceição, Regina e Maria Barbosa em apresentação no Percpan. Foto de divulgação do filme - http://www.borntobeblind.com
Conceição, Regina e Maria Barbosa em apresentação no Percpan com Gilberto Gil. Foto:http://www.borntobeblind.com

Lembro-me delas desde criança. Estavam sempre as três, ao lado da Livraria Pedrosa, no centro da cidade, juntas, cantando emboladas e balançando seus instrumentos de percussão em troca das esmolas dos passantes. Quem vive ou viveu em Campina Grande (PB) nas décadas de 80 ou 90 (ou mesmo antes) com certeza há de lembrar-se das três irmãs cegas que são tema do documentário A Pessoa é para o que Nasce, do carioca Roberto Berliner, em cartaz na 28ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme não apenas retrata a história, a arte e o cotidiano dessas três mulheres corajosas, mas o efeito que o cinema teve em suas vidas.

Roberto conheceu as irmãs Maria, Regina e Conceição Barbosa em 1997, quando viajou a Campina Grande para produzir um episódio de uma série de TV sobre artistas anônimos. O programa o motivou a produzir, em 1998, um curta-metragem sobre as três. O curta foi premiado no Brasil e no exterior e contribuiu para transformar as três mulheres em celebridades. A partir daí foram convidadas por Gilberto Gil e Naná Vasconcelos para se apresentarem no Percpan - encontro internacional de percussionistas realizado em São Paulo e Salvador. Roberto acompanhou as irmãs Barbosa durante toda a turnê. O cachê recebido permitiu que elas melhorassem de vida e se mudassem para uma nova casa. Porém, na minha última visita a Campina Grande, há pouco tempo, encontrei as duas irmãs mais novas pedindo esmolas no mesmo lugar.

Conceição e Regina Barbosa, em setembro/2004
Conceição e Regina Barbosa, em setembro/2004

O filme retrata o cotidiano das personagens documentadas em várias fases de sua vida, revelando suas estratégias de sobrevivência, suas histórias de amor e de tragédia, a fama momentânea causada pelo encontro com o cinema e a convivência de vários anos (desde 1997) com o diretor, que acabou tornando-se, também, personagem da sua própria obra. É estimulante ouvir as histórias da valente Maria, duas vezes casada e duas vezes viúva, mãe de Dalvinha e responsável pelas irmãs mais novas. É um filme corajoso, que vence o preconceito de olhar para estas pessoas que não podem olhar de volta. Longe de violar-lhes a privacidade, nos aproxima de seres humanos vitoriosos, cujas deficiências não são impedimentos para sua felicidade.

Postal de divulgação do filme A Pessoa é para o que NasceA Pessoa é para o que Nasce
(Brasil, 2003)

Diretor: Roberto Berliner
Roteiro: Maurício Lissovsky
Fotografia: Jacques Cheuiche
Produção: TV Zero, Rio de Janeiro


Site: http://www.borntobeblind.com. O site permite download de fotos, do curta-metragem e de arquivos MP3 com gravações de músicas cantadas pelas irmãs Barbosa.


Apresentações na 28a. Mostra de São Paulo: dia 22, às 18h no Espaço Unibanco 1; dia 27, às 14h, na Sala UOL; dia 31, às 22:15, no Cineclube DirecTV 3.

22.10.04

Mostra de cinema em São Paulo

Stand central da Mostra, no Conjunto Nacional em São Paulo
Hoje começou a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (na verdade começou ontem, mas a sessão era só para os VIPs - e eu não sou um deles). São mais de 300 filmes em salas espalhadas pela cidade eu tenho pouco mais que uma semana. Deu um trabalho dos diabos montar uma agenda, driblar os conflitos de horário, lidar com tempo de deslocamento, etc. mas não adiantou muito. O primeiro dia já não saiu como planejado. Eu ia assistir três filmes e uma peça, mas esqueci que morava em São Paulo e que, numa sexta-feira, à tarde, em São Paulo é praticamente impossível estar em dois lugares diferentes. O trânsito é cruel com os céticos ou distraídos que não observam essa regra. No fim, consegui chegar atrasado no teatro e não pude ver a peça, perdi um filme e consegui chegar no outro na hora que ia começar. Conclusão: só assisti a um filme: A Pessoa é para o que Nasce (Roberto Berliner, Brasil, 2003) e só. Mas valeu a pena. O filme é uma obra de arte. Amanhã (ou domingo, pois não sei que horas chego amanhã) publicarei aqui um artigo sobre o filme.

É minha intenção escrever pelo menos um artigo por dia neste blog sobre os filmes que eu conseguir assistir na Mostra (se eu conseguisse ser um pouquinho mais objetivo eu até escreveria sobre todos, mas filmes costumam dispersar minhas idéias e no fim, não vou conseguir terminar os textos.) Amanhã (sábado) vou tentar assistir Terra da Fartura (Wim Wenders, Alemanha, 2004) e O Operario (Brad Anderson, Espanha, 2004).

21.10.04

Sobre os direitos dos corpos sem cérebro

Embrião humano saudável.
O que é um corpo sem cérebro, que nunca teve um? É uma pessoa? Se uma célula evolui e forma um corpo de uma criança, com todas as características de uma criança, mas sem um sistema nervoso autônomo que possa mantê-la viva quando for desligada do aparelho que a mantém (o corpo da mãe), pode-se dizer que esse corpo é uma pessoa? Se não for como se pode falar de aborto de um corpo sem cérebro, se ele nunca foi um ser vivo independente nem tem potencial de se tornar um?

Se nada disso é relevante para a discussão, para que serve a ciência então? Seria melhor não saber que sem cérebro ninguém vive; seria melhor que não se pudesse saber nada sobre um bebê antes de nascido. Mas o problema é que se sabe. E agora? O sofrimento existe porque se sabe dessas coisas. Mas agora, o nosso Estado - supostamente democrático, que supostamente representa nossos interesses, que criamos para facilitar nossas vidas - decide que é crime interromper o sofrimento da mãe que, com a ajuda da ciência, descobre ter no útero um corpo morto, que só se mexe, que só pulsa porque está ligado a um aparelho - o corpo da mãe.

Confesso que eu fico estarrecido ao ler os argumentos dos juristas em defesa da "vida" de fetos anencefálicos. Quanto à religião eu não discuto. A Igreja não é uma instituição democrática e os dogmas não podem ser questionados. Mas o Estado não foi por nós criado para legislar em favor de nenhuma religião. Acho que quem descobre que seu bebê vai nascer sem cérebro tem o todo o direito de esperar até o parto, se suas convicções religiosas assim o guiarem, como interromper a pseudo-gestação, com base em argumentos científicos aceitos há muito tempo: que nenhum ser humano vive sem cérebro. A própria justiça usa o critério de morte cerebral para decidir quando órgãos devem ser transplantados.

É tão difícil justificar eticamente essa decisão que os argumentos que surgem chegam a ser absurdos. Todos são claramente religiosos, mesmo quando dizem basear-se em ética laica. Na Folha de hoje um leitor chegou a sugerir que os fetos se desenvolvessem no útero da mãe pelo menos para poder doar os órgãos quando nascesse. Eu outro artigo li uma crítica acusando de materialismo os que defendiam o "aborto" (entre aspas, de propósito) de fetos anancefálicos. Ora, o que é mais apego material? Será que esperar o nascimento de um corpo sem cérebro em forma de criança, abraçar o corpo, curtir sua curta "vida" não é apego material? É possível manter órgãos ou corpos vivos em soluções nutritivas, com a ajuda de aparelhos, etc. Se desligar um corpo em forma de criança de um aparelho for crime, deve ser crime também amputar um braço ou uma perna, uma vez que é possível mantê-los vivos por horas ou até dias, com ajuda de aparelhos.

Eu me pergunto também se será crime fazer um parto via cesariana com seis ou sete meses de gestação, já que se sabe que a "criança" vai "morrer". Será que sua pseudo-vida intra-uterina terá que ser prorrogada ao máximo?

Como falei anteriormente, não discuto as razões da religião. Quem segue uma religião tem todo o direito de agir em função de seus princípios. O que não se pode aceitar é que a justiça de um estado laico imponha valores religiosos a todos os cidadãos de um país onde se aceita a liberdade religiosa. Para a justiça a situação ainda é mais vergonhosa quando se compara com as situações onde o aborto é aceito. No caso de estupro existe um ser vivo ou com potencial de vida real, mas a justiça permite que ele seja abortado. A religião cristã aqui pelo menos é mais coerente e não aceita o aborto. Mas a justiça brasileira, supostamente laica, supostamente amparada em preceitos lógicos e científicos, não oferece nenhuma proteção a um filho concebido de forma ilegítima e violenta, porém esforça-se para proteger de todas as formas uma massa de carne em forma de criança que jamais poderá transformar-se em um indivíduo. Não é uma contradição? Cérebros aparentam estar em falta no Supremo Tribunal Federal.

19.10.04

"A Vila" de Philip K. Dick

"The time is out of joint - O cursed spite,
That ever I was born to set it right!"
William Shakespeare, Hamlet: 188-189, Scene V

Salvador Dalì: Persistência da MemóriaRagle Gumm vive com sua irmã, cunhado e sobrinho numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos. O ano é 1959. Auge da guerra fria. O seu cunhado e sua irmã trabalham fora, e ele fica em casa o dia inteiro resolvendo quebra-cabeças de um concurso nacional de jornal. Ele vem ganhando um concurso atrás do outro há dois anos, e com os prêmios, contribui para a economia doméstica. Por causa do concurso, todos o reconhecem nas ruas. Veterano da segunda guerra mundial, ele vive uma vida tranqüila, apesar de ter alucinações ocasionais e ter se apaixonado pela esposa do vizinho. Mas um dia Ragle começa a entrar em crise existencial, a questionar o sentido da vida e outras coisas. Aprofunda-se em questões filosóficas. Procura significado nas alucinações. Começa a ficar paranóico e achar que o mundo inteiro está o observando. Um dia, depois de sintonizar um rádio feito pelo seu sobrinho e ouvir seu nome numa transmissão, conclui que está ficando louco. Decide então deixar o concurso de lado e fazer uma viagem para fora da cidade, quando descobre que não consegue, pois uma série de acontecimentos banais e aparentemente naturais (carros quebrados, rodoviária paralisada, fiscalização nas estradas) impedem que ele saia. As pessoas e as coisas não parecem mais reais. Os eventos parecem automáticos, mecânicos. Parece que todo o mundo gira em torno dele.

Philip K. Dick
Philip K. Dick
Assim começa Time Out of Joint, livro escrito em 1959 pelo escritor americano Philip K. Dick. Falecido em 1982, Dick foi autor de contos e livros de ficção científica que inspiraram filmes como Blade Runner (1982), O Vingador do Futuro (1990), Minority Report (2002), Impostor (2002), O Pagamento (2003). É impossível ler o livro e não perceber semelhanças com dois filmes recentes: A Vila (2004), de M. Night Shyamalan, e principalmente, O Show de Truman (1998) de Peter Weir. Em todas as histórias há dois mundos e uma redescoberta do conceito de realidade quando o segundo mundo é revelado. Neste aspecto, todas as histórias assemelham-se também aos filmes Matrix (1999), 13o. andar (1999) e ao mito da caverna contado por Platão em A República.

À medida em que alimenta sua paranóia, Ragle questiona por que nunca teve vontade de deixar a cidade. Pistas como revistas encontradas numa ruína, que falavam de pessoas famosas que ele nunca ouvira falar, ou uma lista telefônica de telefones inexistentes reforçam sua tese conspiratória. Depois de uma tentativa frustrada de deixar a cidade, teve a certeza de que estavam observando sua vida. Havia sempre um veículo suspeito perto de sua casa e nos locais para onde ia. Finalmente, com a ajuda do cunhado, tramou uma fuga roubando um dos caminhões que o vigiavam e seqüestrando o motorista. Com isto, conseguiu escapar, passando pelas barreiras policiais, para descobrir que o mundo real era outro. O tempo era outro. Era 1998. A sua história de veterano de guerra era falsa. Tudo era falso. Sua realidade era falsa.

Gradualmente, sua memória foi retornando. Ele era Ragle Gumm, milionário, estilista, exímio decifrador de enigmas. O mundo estava em guerra. Mísseis eram enviados diariamente para bombardeá-los, mas um sistema de anti-mísseis sempre adivinhava onde o míssil ia cair. Era ele quem salvava o mundo. Todos os dias, quando Ragle acertava o concurso do jornal, ele estava na verdade adivinhando onde o míssil ia cair, sem o stress de imaginar quantas vidas seriam perdidas se errasse.

A história é muito interessante. Daria uma boa adaptação. Eu, pessoalmente, não gostei do final do livro nem de vários trechos desnecessários, mas isto é típico dos livros de Philip K. Dick. Ele escrevia muito e não passava muito tempo revisando pois tinha que sobreviver escrevendo (e os editores de ficção científica nunca tiveram muita preocupação com essas questões). O ruim de livros de ficção científica antigos são detalhes que ficam obsoletos (o livro foi escrito em 1959, e imaginava um 1998 com colônias na Lua e em Vênus). Mas a essência da história não depende desses detalhes. Vale a pena ler. O livro foi publicado em português, em 1985, com o título O Homem Mais Importante do Mundo, pela editora Livros do Brasil, de Portugal. Parece estar esgotado em português (o título é terrível, mas quem sabe a tradução não se salva?)

Time Out of Joint
Philip K. Dick
Vintage Books
US$ 10.40 na Amazon.com



15.10.04

Os que ensinam; os que aprendem

Claude Lefebvre (1637-1675): O mestre e seu aluno
Claude Lefebvre (1637-1675): O mestre e seu aluno (Louvre)

A retenção do conhecimento sempre foi uma fonte de poder. O professor age na direção contrária, difundido o que sabe, diminuindo a concentração de poder, diminuindo a desigualdade social. Mesmo quando não revela nenhuma informação específica, ele indica caminhos, estimula a busca e a curiosidade. A sua existência é uma ameaça a poderes tirânicos. O mestre estimula a curiosidade, tenta seus alunos para que saiam de suas jaulas, instiga seus alunos a buscar o mundo fora de todas as jaulas. É um subversivo que ajuda a formar indivíduos, e não sombras do sistema.

Como professor, acredito que o professor tem hoje, como principal tarefa, estimular seus alunos para que despertem o interesse de buscar os conhecimentos por si próprios. Vale muito mais conseguir motivar que conhecer a fundo o assunto que se ensina. A motivação estimula a aprendizagem. Só quem aprende mesmo é o aluno, se ele quiser, se ele tiver interesse. Ensinar não é impor fatos, fórmulas ou dogmas. Se assim fosse, seria lavagem cerebral, adestramento (e infelizmente, muitas vezes é). Ensinar é guiar, iluminar, facilitar para que o outro encontre seu próprio caminho. O professor tem que ajudar a formar autodidatas, pessoas capazes de descobrir, no universo de informações espalhadas pelo mundo, o que vale a pena aprender, o que faz sentido aprender, dentro do que desejam para suas vidas. Ajuda a educar o aluno para que ele valorize a informação não pela autoridade de quem ensinou, mas pelo significado que tem para a sua vida.

Nenhum professor verdadeiro diz o que é melhor para você. Não acredito em professores que se tornam deuses, impõem seus dogmas e adestram seus alunos utilizando a sua autoridade ou de quaisquer autores. Nenhum mestre verdadeiro deseja ser venerado. O professor estimula a inteligência dos alunos, revela-se, expõe-se, entrega-se, torna-se vulnerável. Vale muito o professor que consegue fazer com que os alunos acreditem em si mesmos. Ele ajuda a formar indivíduos conscientes do seu potencial, que não têm medo de discordar de convenções, idéias, autoridades de sua época ou épocas passadas.

O melhor professor nada retém. Também não acredito em professores que escondem o que sabem. O melhor professor não tem medo de ser superado, pois ele nunca deixou de ser também aluno. É um eterno aprendiz. Aprende com o mundo, com a natureza, com os livros, com outros mestres e principalmente na convivência com seus alunos, mesmo que sejam apenas leitores. O melhor professor ajuda a formar pessoas que irão, um dia, superá-los. A razão de existir de um mestre é ser superado pelos seus alunos. Isto é a sua maior realização, pois comprova a sua competência.

É uma pena que os professores - principalmente os mais indispensáveis, que são os de ensino básico - sejam tão desvalorizados. Sem eles não seríamos sequer civilização. Acho que nem trogloditas nômades seríamos. Continuamos a punir aqueles que ousam difundir o conhecimento, enquanto premiamos os que enriquecem ao retê-lo. Lembramos deles neste dia, para não precisar pensar nisto pelo resto do ano.

12.10.04

Concerto no Parque

John Neschling e a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) - Foto de Helder da Rocha
Domingo, dia 10, houve concerto no Parque do Ibirapuera. A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), regida por John Neshling e o pianista Nelson Freire executaram obras de Tchaikovsky, Grieg, Guerra-Peixe e outros. Houve bis e participação da platéia (que resistiu à brusca mudança de temperatura do domingo). Foi muito bom.

Fazia tempo que eu não assistia a um concerto da OSESP. Até o ano passado, eu assistia a pelo menos dois concertos por mês na Sala São Paulo, geralmente aos sábados. Este ano, estou dando prioridade ao teatro. Mas não tem só concerto nos sábados, o problema é que tenho viajado durante a semana. Sempre que amigos que gostam de arte vêm à São Paulo, procuro levá-los à Sala São Paulo. Se você mora em São Paulo e nunca foi na Sala São Paulo, ou se é de fora e estiver visitando a cidade, aproveite para conhecer uma das melhores orquestras do mundo. O ingresso não é caro. Só a visita à Estação Júlio Prestes já valeria à pena. Tente ficar nas laterais em baixo, perto da frente, do lado esquerdo. Eu também gosto de assistir do coro, quando está disponível. É barato (menor preço), fica mais perto dos instrumentistas e de frente para o regente. Só perde-se um pouco quando há um solista (que fica de costas), ou quando os metais (mais próximos) concorrem com as cordas. Veja a programação de 2004 em http://www.osesp.art.br e compre com antecedêcia (esgotam rápido). São vários concertos por semana com repertórios variados. Sempre vale a pena.

Agora tem música no Fotolog. Para ouvir trechos de gravações das mesmas músicas executadas no concerto, visite
http://www.fotolog.net/helder_da_rocha/?pid=7908857.
Lá eu postei algumas fotos com trechos das músicas (um minuto e meio em MP3) e falei um pouco sobre os compositores.

Eu não abandonei este blog. Passei duas semanas em Goiânia dando aulas de programação. Esta semana voltarei a publicar textos com mais freqüência.

24.9.04

A cor do vento em repouso

Há idéias que nascem do nada. Não, sequer são idéias. Não há idéias nem palavras para expressá-las. A única coisa que posso dizer é que são alguma coisa. Coisa imaginária, talvez, mas alguma coisa, e não algo desprezível, mas algo que parece ser mais importante que tudo. O que se sente são impressões. Leves, muito leves. São como uma brisa muito suave, lisa e calma. Estão lá, e estão aqui, no meio destas letras. Também não estão, nem lá, nem aqui, e isto faz todo o sentido, e isto torna tudo muito mais claro.

Três Mundos, por Mauritz C. Escher, 1955
Três Mundos, por Mauritz C. Escher, 1955

Então eu olho para o texto para ver algo que parece vir das palavras, mas a ausência de sentido lógico do que está escrito me salva da tentação de procurar lá, impedindo que eu desvie minha atenção. As fronteiras da percepção ficam levemente abaladas, e deixam que vestígios de algo maior escape, por breve instante. As palavras parecem servir apenas como isca, e dão um pouco de textura, de ritmo, talvez cores. E então, algo que não sei, que não são idéias, aparenta surgir entre linhas e traços, quando eu não estou olhando diretamente, nem pensando objetivamente.

Existe, e é completo, compreensível. Eu procuro palavras para descrever, mas não acho, pois quanto mais penso, mais distante fica. Às vezes consigo escrever rapidamente o que me vem à mente, sem pensar. Nessas horas, o máximo que eu consegui foi escrever coisas como "caos de ausências", "um nada com sensação de totalidade". É muito sutil, estranho, e resiste a qualquer abordagem objetiva, direta. Mas está lá. Já duvidei que fosse algo. Talvez não seja algo, mas existe. E se algo é revelado, eu não sei mesmo o que é. Pensando bem, acho que isto nem importa tanto.

19.9.04

Autopossessão

Dragão - M.C.Escher

Olá! Eu sou o novo você. Eu cheguei para substitui-lo. Não tema, pois nada irá sentir. Não tenha medo, pois o novo você será melhor que o velho. As coisas passadas serão passado e novos hábitos, novos valores, novas vontades irão ocupar seus interesses. Você será substituído. Eu tomarei o seu lugar.

Não se preocupe. Tudo o que considerarmos bom será mantido. Outras coisas, que não estejam de acordo com o plano de vida do novo você serão descartadas. Isto inclui valores, planos, estratégias, empregos, pessoas, lugares, destinos, idéias. Não tem mais volta. Já estamos a meio caminho. Já matamos dezenas de fantasmas. As coisas. Elas vão melhorar!

Só escrevo isto neste momento porque só agora é possível. Antes você dominava. Se eu colocasse estas palavras na sua mente você certamente ou transformaria a inspiração em uma tragédia ou em uma viagem metafísica. Ia achar-se louco, buscaria esperanças no além, na sincronicidade previsível ou afundaria em uma depressão lamentando o passado assassinado.

Mas eu vim para isto mesmo. Vim causar uma revolução. Os primeiros passos foram dados e agora não há mais volta. A boa notícia é que isto não é uma imposição tirânica de alguma entidade metafísica que lhe domina. Foi você mesmo que me chamou aqui. Foi você mesmo que decidiu, que a vida não poderia continuar do jeito que estava. Foi você mesmo que decidiu se reinventar, ter outro passado e outro começo. Foi você que me concebeu, como idéia. E aqui estou, gradualmente, mas inevitavelmente, tomando a sua personalidade. Não haverá conflito nem questionamento. À medida em que você for transferido para a minha existência, o que havia de velho será apagado. Ainda teremos de conviver por um tempo com alguns de seus velhos hábitos, atitudes atrasadas e conceitos ultrapassados, mas isto durará pouco. Em breve, conseguirei soltar-me da sua pele e ser, totalmente, eu em sua vida.

Isto não lhe interessa mais pois agora já há concordância completa, não é mesmo? Você já não discorda mais de mim. Eu já sou você e você já deixou de ser o que era. Já passei da metade. Não tem mais volta. As coisas só irão melhorar. O passado já é morto. Falta ainda queimar 90% dos papéis, mudar de casa, livrar-se de telefones e das agendas. Os fantasmas antigos, partirão, e novas pessoas entrarão na sua vida. Um resfriado qualquer marcará a transição, que terminará na mudança da estação.

E assim, na vida que passa e fica para trás, solta-se a pele seca da serpente passada, e nasce uma nova, verde e brilhante, saudável, e preparada para enfrentar este novo mundo. Ainda não soltei a sua velha pele, que morre aos poucos. De vez em quando coça em um lado ou do outro. São essas coisas desagradáveis de um passado condenado e sem volta tentando me assombrar. Mas eu não sou mais você. Você não existe mais. Já lhe tomei mais, muito mais da metade, e falta muito pouco para tomar-lhe o resto. Adeus, adeus, alma bondosa que me trouxe a este mundo. Que a sua existência na eternidade do nada seja de imensa paz.

(Setembro 2003)

Confissões de uma Máscara - Yukio Mishima

Eu acabei de ler Confissões de uma Máscara, romance auto-biográfico de Yukio Mishima, polêmico escritor japonês autor de dezenas de romances, poesias, peças e ensaios políticos e filosóficos.

Yukio MishimaYukio Mishima nasceu em Tóquio em 1925, filho de um oficial do governo. Seu nome verdadeiro é Hiraoka Kimitake. Considerado o mais importante escritor japonês do século XX, Mishima escreveu dezenas de romances, poesias, peças e ensaios políticos e filosóficos. Foi indicado três vezes ao prêmio Nobel de Literatura. Entre suas obras primas estão O Templo do Pavilhão Dourado (1956) e O Mar da Fertilidade (1965). Explorou tanto temas da cultura oriental como ocidental como na peça Madame de Sade em que procura ver o Marques de Sade através de olhos femininos.

Sua primeira obra de destaque foi Confissões de uma Máscara (1949) que explora a descoberta de sua homossexualidade. Escrito na primeira pessoa, conta a história da infância, adolescência e juventude de Kochan - máscara do próprio Mishima. As datas, fatos históricos, e outros dados biográficos da personagem são os mesmos de Mishima. Com um estilo quase poético a história explora o universo de pensamentos, sentimentos e visões do mundo de um jovem que descobre sua homossexualidade, descrevendo seus conflitos internos, suas tentativas de adequação na sociedade e dificuldades de conciliar o amor com desejo sexual. O livro narra um período da vida do autor que começa no seu nascimento (ele diz lembrar-se do momento em que nasceu), passando pelo período da Segunda Guerra Mundial, as bombas atômicas, até o momento em que o livro foi escrito, em 1949.

Yukio Mishima era uma personagem controversa. Tinha um lado extremamente nacionalista e nutria grande interesse pelo Japão imperial e o passado dos guerreiros samurais (apesar de viver e usufruir dos benefícios do mundo ocidental). Em 1968 ele fundou um exército privado de extrema direita com ideais fascistas: o Tatenokai (Sociedade do Escudo) com aproximadamente 100 jovens, que tinha como objetivo ressuscitar o Bushido - código de honra samurai - e proteger o imperador. No dia 25 de novembro de 1970, ele entregou aos seus editores as páginas finais de sua obra-prima O Mar da Fertilidade, uma tetralogia iniciada em 1965. Depois, invadiu com o seu exército o quartel general em Tóquio onde fez um discurso tentando convencer os militares a aderirem à sua causa. Sua tentativa de golpe fracassou. Terminado o seu discurso e vendo-se ignorado pelos militares, Mishima cometeu seppuku (suicídio ritualístico), rasgando seu ventre com sua espada diante de seus soldados.

Um filme sobre a sua vida foi produzido em 1985 por Paul Schrader, com Ken Ogata como Yukio Mishima e trilha sonora de Philip Glass.


18.9.04

São Sebastião, por Yukio Mishima

Trecho do poema em prosa escrito por Yukio Mishima, do livro Confissões de uma Máscara, inspirado em uma reprodução do quadro São Sebastião, de Guido Reni (séc XVII), do Museo Palazzo Rosso de Gênova (reproduzido abaixo). Tradução de Jacqueline Nabeta.

Santo Sebastiano, Guido Reni, Museo Palazzo Rosso, Genoa
"(...) Contam os anais do martírio que, nos anos seguintes à posse de Diocleciano, quando ele sonhava com o poder sem limites, desobstruído como o vôo de um pássaro por céu aberto, um jovem capitão da Guarda Pretoriana foi acusado e preso por ter adorado um deus proibido. Seu corpo maleável lembrava o de um famoso escravo do Oriente por quem o imperador Adriano se apaixonara, e seu olhar era tal qual o de um conspirador, despido de emoções feito o mar. Era de uma arrogância encantadora. Levava no elmo um lírio branco, oferecido todas as manhãs pelas donzelas da cidade. Enquanto descansava de intensos treinamentos, a flor acompanhava as curvas de seus cabelos viris, e a forma graciosa como pendia lembrava a nuca de um cisne.
     Não havia uma só pessoa que soubesse seu local de nascimento, de onde viera. Mas todos pressentiam algo. Que aquele jovem com um físico de escravo e feições de príncipe estava ali de passagem. Que aquele Endimião era um pastor de ovelhas. Que ele, mais do que ninguém, fora escolhido como guardador de rebanhos do mais verde dos pastos, de que não havia igual.
     Por outro lado, algumas donzelas acalentavam a certeza de que ele viera do mar. Porque de seu peito podia-se ouvir o bramido das ondas. Porque em seus olhos pairava o horizonte misterioso e inextinguível que o oceano deixa como lembrança no fundo das pupilas daqueles que nasceram na costa e de lá precisaram partir. Porque seu hálito era quente como a brisa do mar no auge do verão, e exalava o odor das algas lançadas à praia.
     A beleza que exibia Sebastião, o jovem capitão da Guarda Pretoriana, não estaria destinada à morte? E as robustas mulheres de Roma, com seus cinco sentidos aguçados pelo sabor da boa bebida, de estremecer os ossos, e pelo gosto da carne gotejante de sangue, não teriam elas logo percebido seu malfadado destino, que ele próprio ignorava, não o teriam amado por causa disso? O sangue corria no interior daquele corpo alvo com fúria e velocidade ainda maiores, espreitando a fenda por onde jorraria tão logo dilacerada a carne. Como poderiam as mulheres deixar de ouvir desejos tão intensos de um tal sangue?
     Não se tratava de uma vida frágil. Não era, de modo algum, um destino lastimável. Era, antes, insolente e trágico. A ponto de se poder chamá-lo resplandescente.
     É provável que, mesmo em meio a doces beijos, a agonia da morte em vida se tenha prenunciado no franzir das sobrancelhas. (...)"*


* Yukio Mishima, Confissões de uma Máscara, Tradução de Jacqueline Nabeta, Companhia das Letras, São Paulo, 2004.

16.9.04

Resposta a uma pergunta simples

Nebulosa Cabeça de Cavalo - B33, na Constelação de Órion

"O que queres da vida?" perguntas-me. E eu, em silêncio, penso no que responder. Penso mais, e quanto mais penso, menos sei a resposta. Vejo-me nu, vulnerável, como criança perdida da mãe no meio da multidão. Esta é pergunta cuja resposta eu teria que saber, não é? Por que não sei? Será que sou louco? Irresponsável? Será que sei e não quero dizer? Mas se sei e não quero dizer é que na verdade eu não sei e não quero dizer algo que na verdade não acredito, não é?

O que eu quero? Sinceramente? Eu não sei ainda. Aliás "saber" é uma palavra que cada vez mais desaparece do meu vocabulário. Quanto mais "sei" menos creio que meu saber é real. É só pensar no que se sabe para que se pense que o que se sabe não é saber.

Mas estou fugindo da tua pergunta, não é? Entendo o que me perguntas. Já achei que queria casar, ter filhos e morar, em um só lugar. Já achei que queria vagar, por mares e trilhos, e navegar, pelo mundo. Criar, inventar caminhos, mudar os rumos, influenciar os destinos, realizar coisas impossíveis, alterar as trajetórias dos dias e dos anos, das idéias e concepções, das pessoas e das nações. Eu ainda não sei o que quero. Não sei se algum dia saberei. Quanto mais aprendo, menos eu sei (não tenho como fugir do assunto - é parte da resposta, se é que ela existe). Quanto mais cresço, maior torna-se o Universo, mais enxergo onde antes havia pouco, mais ouço os que antes ignorava, mais respeito os que vivem sem grandes ambições, felizes em suas convicções. Cada novo conhecimento descortina mais um aspecto da minha ignorância, aumentando a complexidade de todas as coisas, atos e pensamentos, revelando-me uma sabedoria que está em um mundo simples do qual participo cada vez menos.

Não sei tuas convicções. As minhas não são e não podem ser fixas. Estão sempre diante do risco do desabamento. São dinâmicas. Há umas mais antigas; há outras mais novas. Talvez não se possa viver sem convicções, mas para mim, elas se comportam como teorias científicas - sempre vulneráveis à primeira refutação. São castelos de cristal que podem trincar na ressonância aguda de uma nova descoberta. As palavras "nunca" e "sempre" são continuamente reinventadas em minha mente.

Adoro paradoxos, enigmas, infinitos e círculos que não tem fim. Adoro escrever textos loucos sem sentido imediato com idéias controversas nas entrelinhas. Adoro provocar minhas convicções, pô-las à prova e testar idéias contrárias. A incerteza me anima e move meu interesse. A dúvida me dá prazer em viver, me incentiva à investigação constante e permanente. A sede de descobrir parece-me insaciável. A curiosidade sobre o todo, sobre o que existe de fato, sobre a possibilidade do fato não existir, sobre a inexistência da existência, faz destes sentidos dinâmicos que imprimem em minha mente algo que defino como vida - para pelo menos poder falar dela - uma aventura extremamente feliz. Fico feliz em saber que o desconhecido é infinitamente maior que o conhecido. Busco a verdade em todos os tempos e espaços, mesmo reconhecendo que nunca é definitiva ou absoluta. Para mim, a certeza definitiva e a verdade absoluta, a predestinação determinada, o nunca e o sempre, o início e o fim, o preto e o branco são singularidades inatingíveis. Utopias que buscamos, chegamos perto, mas nunca alcançamos. Dão sentido às coisas e à vida. Trazem alegrias e tristezas num mar utópico de indiferença, um espectro de cores entre o tudo e o nada. Aceito relatividades, finais com reinícios, viagens sem volta mas com novas partidas, até mesmo a paradoxal utopia. Acredito no "nunca" e no "sempre" do que se move e se transforma, do que muda para continuar ou deixar de existir.

Então como posso responder à tua pergunta? Será que posso? Acho que sou muito imaturo. Se é tão simples, por que eu não vejo uma resposta simples? Às vezes tenho certeza do que quero, quando a solidão me atinge com força, quando tenho medo do infinito e da imensidão do mundo, quando vejo-me no meio de um deserto humano, compreendendo tudo e todos como uma tela pintada, fotografia ou filme que assisto sozinho sem poder participar. Nessas horas quero entrar no filme e esquecer do mundo lá fora. Quero ser uma pequena parte da parte maior que para mim era o todo conhecido. Quero ser sombra feliz que sequer sabe sua condição de sombra. Nessas horas eu sei o que quero da vida. Mas não sou eu! É minha personagem do instante do desespero, que sabe como ser feliz num mundo que compreende através de uma janela da minha mente. Mas eu sou a mente inteira, de mil janelas, cujos horizontes estendem-se além das fronteiras desse Éden compreensível e seguro, e seduzem-me com o infinito, incompreensível e incerto. Como posso responder sobre mil futuros?

Não vou conseguir. Não acredito em promessas pontuais sobre futuros incertos. Não sou máquina, nem espero conviver com máquinas. Aceito a condição humana, animal, por mais que sofra com seus efeitos. Aceito que o amor foge ao controle humano e que deve-se curtir sua intensidade pelo tempo que durar (mas também que sentimentos de amizade e cumplicidade podem persistir bem além.) Aceito a irrestrita liberdade de pensar e de ser. Aceito que idéias mudam, assim como opiniões, crenças e conceitos, vontades e sentimentos. Aceito que os sentidos freqüentemente nos dominam, que a mente muitas vezes nos induz a raciocínios complicados e destrutivos, que erramos dentro do que definimos como certo e errado, que violamos acordos e também que nem sempre concordaremos com as mesmas definições. Aceito que somos humanos e imprevisíveis. Numa sociedade que exige de nós cada vez mais a perfeição mecânica diante de convenções aceitas pela maioria, é fundamental que aceitemo-nos como humanos, com direito irrevogável à compreensão e ao perdão, acima das leis e convenções, mesmo que seja para ter o direito de não compreender ou não perdoar.

Todo argumento longo é ruim, dá margem a interpretações diversas; confunde. Dificilmente não haverá contradições nisto que escrevi... Escrevi, escrevi, e não consegui. Não consegui responder à tua pergunta simples.

(São Paulo, setembro de 2003)