10.5.12

A morte do rei e os elefantes perdidos

Na morte do rei, a casa caiu, e moscas voaram sobre o caixão. É tudo o que lembro. Não. Tem mais. Na morte do rei, as pontes ruíram, e minhas treze caixas desapareceram junto com os elefantes. Na morte do rei o mundo congelou e foi difícil não prestar atenção ao que acontecia, mas as caixas então, ninguém queria ver. Não percebi. Só havia duas ou três. Mas antes, ao chegar, eu havia contado treze. Eu não sei o que houve. Não sei quem levou. Ninguém entra aqui. Talvez eu as tenha perdido pelo meio do caminho. Mas o certo é que meus elefantes – todos eles – perderam-se debaixo de dez caixas empilhadas, e nunca mais os vi no mês de janeiro.
Sobre a morte do rei, absurdos estão sendo ditos. Não ditos, escritos sem parar e sem pensar, como agora não penso e não paro e tento lembrar do que foi lido. Não havia nenhum deus, para louvar ou maldizer. Não havia vinho para embriagar a corte. Havia apenas água suja assim como três cantis preenchidos de veneno de rato para que os outros acompanhassem. Na morte do rei, as taças racharam. Mas o cristal era de terceira e ainda assim falsificado. Na morte do rei, até o vinho adoeceu, deixando as uvas coloridas nas cores erradas. A morte do rei aconteceu com a peste, que veio como um corte profundo e doloroso que o mago não soube curar. Veio de longe no navio que não trouxe senão batatas debaixo de um tanque velho. Era um tanque envenenado. Na morte das batatas já havia dois reis, e não apenas um como disseram. Todas sangraram vinho doente de cores erradas e sem gosto.
Na morte de todos os reis, os reis de todos os tempos, ela chegou à corte para morrer, pois era também rei e não rainha. Era rei de todas as trevas, rei de todos os tempos, rei de todas as luzes, rei de desafios, rei de muitos espaços. Ela veio, e fez o que sempre fez. Apagou e dissolveu o que permitia dar sentido ao que eu escrevia. Quanto mais eu lia, mais ela apagava.
Não soube mais o que dizer. Era só isto que estava escrito. Não era para ser lido, era para ser sentido, acho que nem isto. Era outra coisa que não sei fazer. Não era para trazer, e se alguém pode saber o que significa isto, sou eu mesmo, mas não aqui. Em outro lugar. Nem sei como. Nem onde. Não posso pensar. Se penso tudo desaparece. Mas lembro, só não sei explicar. Ele me disse que isto, tudo isto aqui ficava sem lugar. As palavras já não choram. As letras já não juntam. Nós dizemos o que eles querem ouvir alguém falar. Parece nada, e é para qualquer um outro de olhos abertos. Eles respondem com o que nós não queremos contar. Talvez porque nossos ouvidos não ouvem, nossos olhos não vêem. Nada que está lá faz sentido quando eu penso. Também disse que desde a morte do rei, as bocas ouvem e os ouvidos falam. Dizem as coisas certas mas os olhares estão errados. Certamente sabem onde estão meus elefantes, perdidos há nove meses, a esta altura já muito secos. Sabem, mas não dizem. Eu sei que a resposta está naquela caixa, mas infelizmente, ela ficou na passagem.


(27/11/2008)

7.5.12

O Pterossauro Imaginário


Faz tempo que não escrevo aqui. Este foi meu último projeto: The Imaginary Pterosaur.

25.10.10

A Palavra

No princípio havia Caos, e Deus chamava-se Acaso.
Mas eis que surgiu a Palavra - o Verbo - e reduziu Deus a um nome.
Um nome.
Um nome que podia ser escrito,
que podia ser falado,
que podia ser... imaginado,
ou nada disso, se ela, a Palavra, não tivesse escrito.

A Palavra chegou, assumiu o mundo e logo emitiu seus decretos. Trouxe o controle. Trouxe a complexidade. Trouxe o medo.
Exigiu do infinito uma definição precisa. E na sua dualidade estabeleceu definições claras de todos os opostos, o Bem e o Mal. Definiu Deus e Acaso como coisas distintas, opostas. Com argumentos prolixos e circulares declarou-se divina. Aprisionou a liberdade das ações em regras gramaticais. Autodenominando-se O Verbo, santificou-se, para que não se creia no que não está escrito.

E assim, o incompreensível foi reduzido a nomes. Acaso tornou-se heresia, Revelação deixou de ser aquilo que se revela diante dos sentidos, para se tornar produto da Palavra escrita. Condenou-se a dúvida, fonte do conhecimento, para louvar convicções e certezas, batizadas de Verdade. Dentre outras violências, ofendeu o equilíbrio do Universo ao santificar a Ordem, enquanto satanizava o Caos, princípio de tudo, fonte de toda a criação, essência da vida.

(baseado em post escrito em 07/09/2004)

22.9.10

Inversão sobre desenhos e urubus


 Fonte: ANDA

Na Bienal há três humanos presos por uma coleira de um metro, amontoados, em cima de uma caixa de arame contendo alto-falantes, de onde as mesmas músicas tocam continuamente sem parar. Eles estão nus e sujos. Não falam. Parecem assustados. Acuados. Não podem correr. O chão é duro e frio. No ar há uma grade. Ficarão lá, confinados, em exposição por três meses. Durante o dia ficam trancados e não vêem o sol. Durante a madrugada, abre-se o museu para as pessoas e a música é ligada nas alturas. O veterinário responsável garante que os humanos são bem-tratados. Afirma que eles não se incomodam com o confinamento, uma vez que foram fornecidos por um presídio. Questionado sobre a ética de sua arte, o artista afirma que o limite é a lei, e que ele próprio não gosta de ver animais confinados, mas que obteve autorização para a instalação. Questionado sobre o fato que humanos têm hábitos diurnos, e sobre o stress a que estão submetidos, ele afirmou que é exagero afirmar que esses animais estejam sendo torturados, pois estão acostumados a viver presos.



Mas houve uma outra obra que causou polêmica na exposição. A obra foi censurada e denunciada pela ordem de advogados, que pede que ela seja retirada sob ameaça de prisão dos responsáveis por sua exibição. Trata-se de vários quadros de aproximadamente dois metros de altura onde o própria artista aparece desenhado assassinando urubus conhecidos. Em um deles, um urubu rei barbudo está amarrado na cadeira e é degolado pelo artista. Em outro ele estraçalha a cabeça do urubu-tucano com uma pistola. A justiça entendeu que tais desenhos são uma grave incitação ao crime, uma vez que isto põe em risco a vida e sobrevivência dos urubus, pois incentivaria as pessoas nesse sentido. Talvez a obra não causasse tanta polêmica caso o artista tivesse optado por usar ilustrações de assasinato de aves anônimas.

13.9.10

O Incendiário

É um químico incendiário especialista em explosivos. Está projetando um troféu que se auto-destrói para um festival de filmes publicitários argentino. Ele parece muito comigo. Daqui a pouco a CIA vai estar atrás de mim :-o

19.5.10

Música tema do curta "Mudanças"

Eu compus a trilha sonora do curta-metragem "Mudanças", de Fábio Menezes (http://curtamudancas.blogspot.com). O vídeo abaixo foi gravado no último domingo no estúdio durante a gravação de uma das músicas.

22.3.10

Cine Belvedere, sábados e domingos até junho



Christoph Lichtmann nunca dorme. Christoph Lichtmann nunca sonha. Na interminável madrugada, alimenta sua imaginação lendo os sonhos de sua família. Christoph Lichtmann inventa filmes. Na passagem do tempo que ele não sente, apropria-se dos sonhos que não são seus e sonha pelos sonhos dos outros para encontrar a si mesmo, ou descobrir que ele é apenas um sonho de outro.

Cine Belvedere não é apenas uma peça de teatro. É uma história que está sendo escrita, um filme que está sendo gravado, o sonho recorrente que volta todas as noites à mesma casa vazia. São as lembranças imaginadas de uma noite que nunca terminou. São todas as luzes que um dia se apagaram mas permanecem acesas na memória e no sonho. Cine Belvedere é um lugar no espaço e no tempo. Sempre foi e sempre será a noite 31 de dezembro de 1955.

Você pode visitar os Lichtmann no Casarão do Belvedere e participar dessa experiência todo sábado, às 21h, ou domingo, às 19h, até o dia 27 de junho. O Casarão do Belvedere é um casarão tombado pelo patrimônio histórico municipal, situado na rua Pedroso 267, bairro da Bela Vista. O público presente acompanha a história e sonhos da família pelos cômodos da casa, pelo quintal, pelos jardins, e compartilha com eles uma parte da história real e imaginária do casarão, dos atores, dos personagens.

A peça Cine Belvedere é resultado de uma criação colaborativa da Cia. Bruta de Arte a partir de um ano e meio de pesquisas sobre o universo dos sonhos. O processo foi coordenado por Roberto Audio (Teatro da Vertigem), que dirige o espetáculo. A construção da história teve grande inspiração no casarão onde a peça acontece, e em experiências reais da vida dos atores. O resultado é um história que se passa num universo imaginário, mas que, como num sonho, preserva fragmentos de realidade que estimulam a busca por um sentido para todas as coisas.

A Cia. Bruta de Arte é um grupo criado em janeiro de 2008 por 14 atores que formaram o Núcleo Experimental dos Satyros de 2005 a 2007. Pelo Núcleo dos Satyros o grupo encenou os espetáculos Ensaio Sobre Nelson (dirigido por Nora Toledo e Jarbas Capusso Filho), Rua Taylor, 214 (direção de Alberto Guzik), Vestir o Corpo de Espinhos (direção de Alberto Guzik), Montagem Regressiva e El Truco (ambas dirigidas por Roberto Audio). A peça Vestir o Corpo de Espinhos foi selecionada para representar o Brasil em 2006 no festival internacional de teatro Play-Off/06, nas cidades alemãs de Essen, Herne, Dortmund e Gelsenkirchen, junto com grupos de outros 15 países.

O Casarão do Belvedere foi projetado pelo arquiteto Raphael Lanzara e construído em 1927. Com 430 m², distribuídos entre 11 cômodos, foi habitado por quatro gerações de descendentes de seus construtores, a família de Ernest Sohn (imigrante francês). Em dezembro de 2002 o imóvel foi tombado pelo CONPRESP da cidade de São Paulo e em janeiro de 2003, Paulo Goya, ator e atualmente o Presidente da OSCIP Espaço Cultural Dona Julieta Sohn transformou o imóvel em espaço cultural onde já foram montadas cerca de 30 espetáculos, iniciando com Assombrações do Recife Velho, da Cia Os Fofos Encenam.

CINE BELVEDERE - FICHA TÉCNICA
Direção: Roberto Audio
Assistente de direção: Washington Calegari
Texto e dramaturgia: Cia. Bruta de Arte
Iluminação: Guilherme Bonfanti
Assistente de Iluminação: Grissel Piguillem
Figurinos: Keila Akemi e Angela Ribeiro
Assistente de figurinos: Andréia Peixinho
Programação visual: Cleber Rodrigo
Direção de Arte e elementos cenográficos: Paulo Vereda
Máscaras: José Toro Moreno
Máscara de Peixe Abissal: Helder da Rocha
Assistente de cena e contra regra: Dagoberto Macedo
Trilha sonora: Cia Bruta de Arte
Trilha sonora original: Helder da Rocha
Assistente de produção: Denise Janoski
Produção: Cia Bruta de Arte
Co-Produção: Casarão do Belvedere

PERSONAGENS E ATORES
Paulo Maeda, como Christoph Lichtmann
Thammy Alonso, como Franka Lichtmann
Maria Campanelli Haas, como Annete Lichtmann
Angela Ribeiro, como Eva Lichtmann
Ana Lúcia Felipe, como Helga Lichtmann
Fabiana Souza, como Bettina Lichtmann
Helder da Rocha, como Rudolph Moriak
Marba Goicochea, como Pacha
Teka Romualdo, como Talulah Tetembua
Wagner Mendonça, como Mohammed Madi
Thiago Franco Balieiro, como Otto Heiser
Ana Pereira, como Amelie Rousseau
Wanderley Salgado, como Thomas Gross
Ricardo Socalschi, como Nikola Baumgartner

AGRADECIMENTOS
Alessandra Souza, Ana Maria Winter, Bernardo Marquez Bjari, Dagoberto Macedo, Edna Elizabeth, Fabiana Prado (Fafi), Geandre Tomazoni, Igor Blinstrub, Marçal Costa, Nora Toledo, Peterson Ramos, Regina Ciampi, Ruth Castro, Leopoldo Castro e Teatro da Vertigem.

LINKS
Fotos e vídeos na Página da Cia. Bruta de Arte no Facebook
Twitter da Cia. Bruta de Arte
Vídeo com cenas do espetáculo por Gabriel Madeira
Site da Cia. Bruta de Arte (em construção)

Reservas, compras de ingresso e informações adicionais através do Casarão do Belvedere, Rua Pedroso, 267, Bela Vista, São Paulo. (11) 3266-5272.

Assessoria de Imprensa:
Sylvio Novelli - Assessoria em Comunicação
Com Sylvio Novelli e Fausto Cabral
11 3806-1636
sylvio@sylvionovelli.net (cel: 11 9231-3211)
fausto@sylvionovelli.net (cel: 11 9855-8144)

25.2.10

A descoberta de Bikini: estratégias e instruções de sobrevivência



Lugar imprevisível, às vezes explosivo. É sabido que ilhas vulcânicas podem sumir misteriosamente causando grandes tremores e tsunamis. É melhor aproximar-se no fim da tarde ou início da noite, quando a brisa é mais fria e as águas estão mais calmas. Não desembarque de imediato. Tenha paciência. Observe a paisagem. Os montes. A selva escura. Admire-a intensamente. Procure uma praia tranqüila. Deixe as ondas lamberem as costas por uns minutos. Sinta o cheiro.

Nunca vá direto ao ponto. Nunca! É morte certa. É imprescindível familiarizar-se com o território, tornar-se parte dele. Quando estiver pronto, escale os montes até encontrar o ponto de apoio. Se não resistir, morda. Se a terra tremer não solte. Use as mãos, os dentes. Não solte! Busque os outros pontos, no norte, no sul. Só assim, a ocupação terá sucesso. Deste ponto em diante, não há mais como desistir.

Em certo momento, ela vai parecer dócil, inofensiva, completamente vulnerável. Não baixe a guarda. Foi numa tarde calma, nos anos 50, que Bikini explodiu em fúria radiativa. Portanto, ao deslizar para a selva, não esqueça de manter uma presença estratégica lá no alto.

É objetivo desta expedição descobrir o que ocorre depois. Não se sabe se reações nucleares causam singularidades. Dizem os cientistas que, quando se atravessa um buraco negro, o tempo pára e o espaço se contrai. Eu estava no meio do caminho quando penetrei na selva escura e fui surpreendido por um tremor pulsante. Desci escorregando pelas bordas em círculos e fui lançado ao ponto de onde sequer a luz consegue escapar. A última coisa que lembro foi ter segurado uma coisa rígida com os dentes.

21.2.10

Cine Belvedere



Video produzido a partir de cenas da peça "Cine Belvedere", da Cia. Bruta de Arte, por Gabriel Madeira. A peça estará em cartaz novamente aos sábados e domingos no Casarão do Belvedere, na Bela Vista.

3.11.09

A Criação 1: o vento


(Desenho de Suzelle Yanguissa)


(The Creation 1: the wind, by Helder da Rocha)

6.10.09

Eu descuidei dos mares


O Homem-peixe

Houve um dia em que aventurei-me para dentro do mar. Fui completamente envolvido. Me vi inteiro, como a terra. E me vi refletido, como o céu, como o vento. Minhas costas eram arranhadas por suas ondas salgadas, desejadas. Fiz tremores, formei correntezas, aqueci as águas, e com o fogo da terra derreti o gelo, afastando as neves que sempre limitaram suas encostas pelo norte. Apaixonei-me pelo mar. Inspirado inicialmente nas estrelas que refletiam na superfície, deixei-me penetrar nas suas profundezas, seduzido pelo perfume de suas correntes.

Mas um dia eu descuidei das correntes. Não sei por que. Mustapha talvez tenha cansado de sonhar com os ventos incertos, e não percebeu que as correntes adversas estavam fracas. Zéfiro poderia torná-las favoráveis com uma ação firme, irreversível, surpreendente. Uma tempestade, como a primeira, porém mais calculada. Fogo. Haveria estragos. Era inevitável, mas depois que os ventos se acalmassem, todos encontraríamos os melhores caminhos.

Mas não aconteceu. Não sei quando, nem por que, adormeci. A correnteza fraca passou por perto e não senti a brisa fria. Estas minhas palavras poderiam ter feito a diferença. Elas, que sempre desestabilizaram com incêndios e ondas quentes, estavam caladas desde o último sonho de Mustapha. Tornei-me invisível numa calmaria e não dei atenção à volta forte das tais correntes adversas. Foi um vacilo. Quando acordei não ouvi mais ondas. A realidade havia se solidificado. O gelo tomou conta. Ela não gritou mais pelo fogo. A neve já cobria tudo.

E agora, este ar seco que tento respirar desesperadamente, me fere e me sangra, talvez porque ainda me veja como o homem-peixe, que ainda tem um coração incandescente, e que não consegue viver longe do mar.


(O Homem-Peixe, by Helder da Rocha)